Anda por aí muito boa gente escandalizada com as próximas Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ). O que mais terá indignado foi o montante que vai ser gasto para montar a estrutura para o altar em que o Papa Francisco celebrará a Eucaristia do encerramento das JMJ. As críticas subiram de tom por se tratar de uma construção para um acto religioso. Também houve quem visse nesta obra, tida por megalómana, uma contradição com o pontificado do Papa Francisco.
Para a maioria das pessoas é escândalo o que contradiz o bom-senso, ou os usos e costumes sociais. Mas, para a ética católica, o termo significa aquilo que leva os outros a pecar e, por si, o que é insólito pode não ser um escândalo moral e vice-versa.
A teologia distingue três tipos de escândalo: o verdadeiro, o dos pusilânimes e o farisaico. O primeiro é o que acontece quando alguém, com advertência e consentimento, realiza ou omite alguma acção que induz outros a pecar. É o que acontece, por exemplo, quando alguém se veste de forma indecente, com o intuito de provocar o próximo.
Pusilânimes são, segundo a etimologia latina da palavra (pusillus = pequena + anima = alma), os que têm, literalmente, uma ‘alma pequena’, ou seja, os simples, ou pobres de espírito, como podem ser as crianças, ou aqueles que têm menos inteligência, ou instrução. Se um padre, como tal identificado, guia um Ferrari descapotável pela Marginal, causa indignação, mesmo que o carro seja emprestado e vá administrar a Unção dos doentes a um moribundo, que não poderia socorrer de outra forma.
Por último, o escândalo farisaico é o provocado por uma acção não pecaminosa, nem imprudente, mas que gera repugnância em terceiros, por causa da sua hipocrisia. Jesus fazia milagres também ao sábado, causando o desagrado dos fariseus, que o censuravam por infringir o preceito sabático. Como se tratava de uma crítica improcedente, Cristo nunca deixou de o fazer, mesmo sabendo que os hipócritas o iriam criticar por isso.
O palco, estrutura, ou altar das JMJ causou uma notória indignação social, mas esse escândalo é verdadeiro, pusilânime ou farisaico?
Confesso que, não estando familiarizado com orçamentos de obras públicas, a minha primeira reacção, ao ouvir falar de 4 milhões de euros para a dita estrutura, foi de estranheza, pois pareceu-me excessivo. Contudo, graças à informação entretanto disponibilizada, fui levado a crer que não é, de facto, um investimento exagerado.
Com efeito, esta é a conclusão que se impõe, se se compara essa verba com os montantes gastos em eventos análogos em dimensão, embora a JMJ não seja comparável a nenhuma manifestação social, política, cultural ou desportiva, porque é provavelmente o acontecimento de maior dimensão alguma vez realizado em Portugal. De facto, as JMJ são, a nível mundial, a maior concentração de jovens. A Câmara Municipal de Lisboa (CML) propõe-se investir 35 milhões nas JMJ, mas gastou 5,5 milhões de euros na Moda Lisboa, 27 milhões no Rock in Rio, e 110 milhões no Web Summit, ou seja, três vezes mais do que a verba que vai investir nas JMJ!
Se se tiver em conta que se espera, para as JMJ, cerca de um milhão e meio de participantes de todo o mundo, há que concluir que não é um investimento desproporcionado, pois o Web Summit, que recebeu um subsídio três vezes superior, só contou com um terço dos participantes, ou seja 490 mil pessoas. A diferença é ainda maior em relação aos outros dois eventos, porque os 27 milhões gastos pela autarquia lisboeta, para a realização do Rock in Rio, apenas beneficiaram 191.160 espectadores. Outro tanto se diga da Moda Lisboa: os 5,5 milhões dados pela CML reverteram a favor de apenas 3.230 pessoas!
Mesmo comparando o gasto relativo às JMJ ao disponibilizado para outras infraestruturas custeadas pelo Estado, resulta evidente que não se trata de uma despesa exagerada. Como é sabido, os dois estádios de futebol de Aveiro e de Leiria custaram 180 milhões de euros e neles só se realizaram dois jogos do campeonato europeu de futebol. Desde então, não têm uso e a conservação anual desses dois imóveis está avaliada em 8 milhões de euros! Ou seja, a construção dos dois estádios representa 45 vezes a importância agora contestada, a qual é metade da despesa anual pela mera conservação dessas duas instalações desportivas totalmente inúteis!!
Vasco Lobo Xavier fez outras contas: “A comunicação social repete-nos à exaustão que 4 milhões de euros é muito dinheiro. Aqui é verdade, pelo menos para mim. Mas isto de 4 milhões ser muito dinheiro (…) é também muito relativo. Se virmos bem as coisas, 4 milhões é o mesmo que despedir 4 directoras da TAP (a um milhão cada) ou 8 administradoras da TAP (a meio milhão cada). Por esta perspectiva comparada, 4 milhões para a obra em causa (e respectivas utilidade, visibilidade e retorno) parece-me um preço muito em conta. Talvez se devesse construir dois palcos.”
Que um leigo na matéria se tenha inicialmente indignado com a cifra divulgada para o custo da dita plataforma, é compreensível, pelo seu desconhecimento da matéria. O que não é razoável é que as pessoas com as mais altas responsabilidades, ao nível do Estado português e da JMJ, tenham rasgado as suas vestes, numa atitude a que não faltou uma boa dose de populismo e de demagogia.
Como aqui foi explicado a 28-1-23, em excelente artigo de opinião de José Maria Seabra Duque, o actual Presidente da CML “estabeleceu um tecto para o investimento da Câmara: 35 milhões de euros. O acordo teve o incentivo e o apoio do Presidente da República e o valor em causa não causou dores a ninguém”. Contudo, ante a revelação desse valor “ou, mais provavelmente, da indignação popular que ele gerou, todos aqueles que foram responsáveis por este processo lavaram as mãos, excepto Carlos Moedas, que assumiu a responsabilidade por uma decisão condicionada por quem agora está magoado”. Como recorda o cronista, a JMJ “tem um custo. Um custo que foi assumido pelo Presidente da República, pelo Governo e pela Câmara liderada por Fernando Medina. Um custo que foi aceite pela organização da JMJ. É por isso triste ver que, ao primeiro aperto, todos fogem”. O autor confessa, por isso, a sua “pouca pachorra para quem não é capaz de assumir as suas responsabilidades”, enquanto admira “quem, mesmo perante o clamor público, não tem medo de defender as decisões que tomou.”
Não é, portanto, inocente, o escândalo que, a propósito das obras relativas às JMJ, alguns promoveram, com a ajuda daquela comunicação social que é sempre muito solícita quando se trata de atacar a Igreja católica. Se a irritação de muitos se ficou a dever à sua inocente pusilanimidade, o mesmo não se pode dizer dos que, tendo inicialmente aceite os valores implicados, depois fingiram surpresa e indignação. Neste caso, o escândalo foi mesmo farisaico.
Quando, há dois mil anos, uma boa mulher derramou sobre Jesus de Nazaré “uma libra de bálsamo feito de nardo puro de grande preço”, houve quem contestasse aquele gasto: “Porque não se vendeu este bálsamo por trezentos dinheiros, para se dar aos pobres?” (Jo 12, 5). Também muitos dos que agora criticaram o alegado despesismo das JMJ subscreveriam, seguramente, esta crítica, ignorando que, como esclarece o evangelista, quem assim reagiu foi Judas Iscariotes, o apóstolo de Jesus “que o havia de entregar” (Jo 12, 4), o qual “não disse isto porque se importasse com os pobres, mas porque era ladrão e, tendo a bolsa, roubava o que se lançava nela” (Jo 12, 6).