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Inesperada e contrariamente ao habitual, a decisão do Governo relativa à colocação dos professores no grupo prioritário de vacinação não deu aso a grandes polémicas. À parte alguns comentadores televisivos, a generalidade da comunidade política portuguesa pareceu consentir esta decisão e, em alguns casos, aplaudi-la. Este comportamento dos órgãos e locutores políticos nacionais é, por um lado, incongruente com os critérios assumidos pelo Governo que definiram a composição dos grupos prioritários e, por outro, bastante revelador das mecânicas por trás das decisões políticas, que tendem a beneficiar certos grupos sociais específicos com uma proteção estatal mais generosa.

De forma simples, parece que todo este processo revela um confronto entre dois critérios distintos na definição dos grupos prioritários para a vacinação: um primeiro critério científico, assente na ideia de que a prioridade deve ser consistente com o risco efetivo de contrair ou morrer com Covid-19; e um segundo critério, assente numa conceção subjetiva de valor ou mérito associada a uma classe profissional. Ao longo destas últimas semanas observámos, para o caso dos professores, a execução do segundo critério de mérito profissional, mascarado do primeiro critério científico.

Este mascarar de um critério por outro foi observável com a incessante necessidade de justificar a vacinação prioritária dos professores através de argumentos supostamente científicos, mas que, através do mínimo escrutínio, caem por terra dada a sua fragilidade. Primeiro, argumentou-se que a vacinação dos professores permite uma abertura mais segura das escolas. Ora, de cabeça, os professores perfazem algo como um em cada 30 ou 35 dos indivíduos que circulam em meio escolar.

Além disso, à parte o ensino pré-primário, os professores não entram em contacto físico com os alunos. Pelo contrário, mais depressa os alunos entram em contacto entre os mesmos – e, em casa, com os pais. Por outras palavras, a vacinação dos professores apenas reforça a proteção dos próprios e não da comunidade escolar.

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Depois, argumentou-se que os professores, por inerência à sua profissão, entram em contacto com muitos indivíduos no seu dia-a-dia. Decerto, mas o mesmo acontece – e de forma mais flagrante –, com outros milhões de Portugueses, que trabalham nas caixas de supermercado, nos cafés e nos restaurantes, nos serviços de entregas, em organizações de caridade, entre outros.

Por último, argumentou-se que uma fatia significativa dos professores não consegue executar as suas funções profissionais via teletrabalho,e daí a necessidade de criar as condições para uma célere abertura das escolas. Novamente, verdade, mas o mesmo acontece de forma mais gravosa a milhões de outros Portugueses. Por fim, tudo isto ainda se mistura com um falso altruísmo, defendendo que todo este esforço é derivado de uma intenção de garantir o regresso às escolas às crianças e jovens, quando nenhum deste esforço é canalizado, efetivamente, para a segurança das próprias crianças e jovens e respetivas famílias.

Em suma – e como muitos epidemiólogos já alertaram –, a vacinação prioritária dos professores não obedece a nenhum critério científico, apesar de se mascarar como tal. Pelo contrário, a vacinação prioritária dos professores obedece a um critério de suposto mérito social inerente à sua própria profissão, catapultado pela força de um robusto movimento sindical.

Contudo, a força sindical ou o valor social inerente à profissão, não deveriam ser os critérios pelos quais garantimos a vacinação prioritária aos professores e aos auxiliares, nem a nenhum outro grupo profissional. Além disso, lembremos que estes perfazem cerca de 240 mil indivíduos, algo que, naturalmente, atrasará gravemente a vacinação dos restantes Portugueses, que vivem o triste infortúnio de não ser considerados trabalhadores essenciais sob um critério subjetivo de valor, ou de não serem protegidos por um sindicato com a força da FENPROF.

Este fenómeno não se encontra isolado de uma tendência constante que se verifica na forma como se conduzem as políticas públicas em Portugal, relativa a uma excessiva preocupação atribuída a certos grupos profissionais, como os funcionários públicos (dentro dos quais se destacam os professores), que, em grande medida, já se encontram mais bem protegidos pelo Estado do que a restante população. Num momento em que ter acesso à ADSE se tornou num benefício de ainda maior relevo – dadas as gigantescas listas de espera para consultas e operações no SNS –, é de uma triste ironia que o Governo tenha considerado que quem mais precisa da vacina, sejam os professores.