Mais do que as pétalas de flores no asfalto e as bandeiras da Vaticano misturadas com as de Espanha, enquanto o papamóvel branco avançou pelas ruas de Madrid na manhã de domingo, algo de mais bonito embelezava, de forma viva, as ruas da capital espanhola. Uma verdadeira multidão que se estima entre 1,1 e 1,2 milhões de pessoas tendo a polícia acabado por encerrar os acessos antes mesmo do início da missa: já não havia espaço.

Trata-se, de facto da maior concentração religiosa em Espanha desde há décadas. E é também para Leão XIV, o primeiro verdadeiro teste de confiança popular numa Europa cada vez mais secularizada e politicamente fraturada. O que é certo é que Espanha não desiludiu. E o Papa também não.

Quinze anos se passaram já desde a última visita papal a território espanhol. Corria o ano de 2011, e fez a visita Bento XVI, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude em Madrid.

A Espanha de 2026, contudo, é um país onde alegadamente a percentagem de católicos praticantes caiu, ao que acresce um clima de polarização política que tornava a visita, à partida, num campo minado, em que os aproveitamentos políticos e os enquadramentos da presença do sumo-pontífice pareciam inevitáveis. O grande desafio, superado logo a partir do primeiro momento, era garantir que a mensagem do Papa chegasse e fosse relevante para todos. E o que é certo é que na primeira palavra que dirigiu ao Reino de Espanha, deixou claro o que trazia na bagagem: interpelação desinteressada, a todos.

E na Praça de Lima perante 600 mil jovens reunidos para uma vigília de oração, houve um diálogo que não deve ser ignorado. Direto, sem papel, sem distância protocolar. Leão XIV respondeu às perguntas dos jovens sobre vocação, fé, futuro, e ao responder à última pergunta da noite, confiou aos jovens aquela que definiu como a sua missão concreta: “Sejam humanos. Sim, sejam humanos! Homens e mulheres de carne e osso.” “Vocês podem mudar a história, façam-no com amor!”

E acreditou no que estava a dizer. Emocionou-se. Não por causa da multidão em si até porque o Papa sabe que vai estar rodeado de multidões. Terá sido certamente o silêncio que se fez quando ele parou de falar ou talvez a atenção que aqueles rostos lhe ofereceram, de forma genuína e esfomeada. Uma fome de verdade e de Deus.

Há uma diferença entre um líder que chora porque a ocasião exige que chore, e um líder que chora porque foi apanhado desprevenido pela realidade que o rodeia.

Essa emoção não valida necessariamente a mensagem, mas é reveladora daquele que é o custo de a carregar. Creio que é uma difícil responsabilidade:  estar diante de uma multidão de jovens, olhá-los nos olhos e garantir-lhes uma esperança e um futuro. E mais do que isso, essa emoção prova a coragem de alguém que ainda acredita no que diz sabendo o que custa acreditar.

Mas há algo mais a dizer sobre aquele momento e que tem menos a ver com o Papa do que com os jovens que ele tinha à frente.

Leão XIV sabe, que a juventude europeia não é o seu público natural. Sabe que a geração que estava na naquela praça cresceu com o telemóvel ao invés de crescer com o catecismo e sabe também que uma parte significativa dos ali presentes poderá não regressar a uma celebração religiosa nos próximos anos.

É também exatamente por isso que a emoção do Papa também nos deve comover. Porque não foi um triunfo, mas um reconhecimento. Foi a afirmação, silenciosa, manifestada em lágrimas, de que percebeu que aquela enorme presença custou alguma coisa a cada uma das pessoas que ali estava. Vieram na mesma, apesar de tudo. Que trouxeram as suas dúvidas junto com as suas bandeiras.

O Papa, para já, do seu lado, superou o desafio: está a fazer uma promessa implícita, de que a Igreja que ele governa tentará estar à altura do que pede a esses jovens, e que apoiado na geração que é o futuro, tentará também mudar a história.

Não duvido de que sucedeu um verdadeiro encontro: entre uma instituição que precisa de futuro e uma geração que precisa de sentido. Entre um papa que sabe o peso do que promete, e jovens que, apesar de tudo, ainda têm coragem para ouvir.