Assistimos nos últimos dias, no nosso Parlamento, local de trabalho digno e sério, a algo que, de forma cada vez mais descarada e frequente, tem vindo a acontecer, supõe-se, que para ficar, e bem instalado: na casa da Democracia discutiu-se e deu-se a conhecer a verdadeira, e quase exclusiva, preocupação de quem traz, diga-se que alegadamente, nas mãos, o sentido de estado e de serviço público, e todos os que por lá vão passando afirmam trazer, traçando assim o destino de um país e do seu povo.
E de facto, tudo isso foi o que de mais positivo sucedeu nos últimos tempos. Deu-se a conhecer uma verdade que surpreendentemente não surpreende: a principal política do país é discutir a vida política de quem a faz e controla, não tolerando sequer que esta seja colocada ao serviço daqueles cujas necessidades são reais e são (ou deveriam ser) mais do que uma mera máquina de votos, utilizada para sustentar a máquina. Nada disto é estranho, é sobejamente conhecido, sendo de aplaudir, e não de lamentar como bem lamentaram alguns políticos, ao afirmar que a Sessão Parlamentar em que se rejeitou a moção de confiança apresentada pelo Governo é indigna e uma forma de troçar com os portugueses.
Quanto a isto não terão, certamente, razão, até porque não é de lamentar o desvergonha que já há muito se encontra presente na maneira de agir de quem nos (des)governa, sendo apenas lamentável o facto de que quanto a isso nada podemos fazer que não estar na plateia a assistir serenamente.
Pelo contrário, e em sentido oposto ao que se tem dito e escrito, é de louvar, que os meandros, os planos encobertos e a verdadeira vida política do nosso país sejam trazidos a público, para que, desvergonha por desvergonha, seja pelo menos com a porta aberta. Sabemos hoje, melhor do que num passado recente, com o que contar.
É ainda o momento oportuno para enaltecer o facto de a Assembleia da República, como diz o ditado popular, mas de forma literal, não ter telhados de vidro, caso contrário, e certamente já a céu aberto, teríamos uma classe política em permanente risco de pneumonia. E aí sim, deveríamos começar a preocupar-nos, porque afinal de contas, quem manteria, nessa infelicidade, o prestígio das instituições, numa verdadeira crise política, em que deixariam de existir políticos aptos a trazer os seus problemas de vida, ou seja o cerne da politica nacional, em torno dos quais estão unidos os esforços dos engenheiros do sistema, numa verdadeira disputa não pelo bem comum e pelo serviço público, mas pela permanência em cargo de relevo por tempo suficiente que lhes permita resolver as suas vidas. Seria o colapso, restando-nos o Estado, pessoa de bem, em sentido amplo.
Atualmente não estamos mergulhados numa crise política, mas num verdadeiro modo de vida, permanente e enraizado, em que quando rebenta o escândalo, quando é demitido um ministro, quando cai um governo, não somos nós, comuns mortais, que nos livramos do eticamente reprovável, da aparente incompetência e da impunidade, mas sim, é o poder político, nas suas inúmeras vertentes, que se liberta dos grilhões de ter de continuar a simular preocupação pelos problemas sociais reais, camuflada pelos discursos do financeiramente possível e do politicamente adequado.
Portanto, é de arriscar na afirmação de que a nossa democracia deu, neste momento presente, em que se poderia pensar em desesperar, um importante salto no sentido de uma verdade que nos interessa, deixando a classe marginalizada, politicamente falando é claro, todos nós, que não temos o direito de ver os nossos problemas quotidianos a ser seriamente discutidos em plenário, um passo mais próximo, do que verdadeiramente importa, isto é, de uma experiência de governo para e a pensar na multidão, cuja sede se faz sentir.
Devemos já olhar para tudo o sucedido com uma consciência de que a defesa democrática não é exclusiva de quem pensa exercer o poder, da esquerda à direita, antes pelo contrário, é um instrumento que está na nossa posse e que aliás nos torna mais poderosos do que os próprios que gerem os destinos do país. Nós temos a esperança de que algo possa mudar, e eles, pelo contrário têm e agem por conta do medo do que podem perder.