Fala-se muito dos leigos. Nos documentos, nos discursos, nas formações pastorais. Fala-se deles como “protagonistas da evangelização”, “força viva das comunidades”, “parceiros indispensáveis”, “rosto da Igreja no mundo”. Mas a pergunta decisiva raramente é enfrentada com realismo: de que leigos estamos a falar quando pedimos uma colaboração efetiva?
A experiência pastoral mostra que a resposta não é linear. Fui pároco e conheço por dentro a distância entre o discurso ideal e a realidade concreta. Em muitos contextos, sobretudo rurais, o laicado é composto por pessoas de fé sincera, mas cuja formação cristã se esgota no que receberam em crianças, moldada por práticas devocionais repetidas sem crítica, e reforçada por tradições paroquiais que sobrevivem mais por inércia do que por consciência. A fé existe, mas não amadureceu; permanece enraizada em hábitos e não se transforma em discernimento.
Quando se fala, por isso, em “dar lugar aos leigos”, é legítimo perguntar que lugar é possível dar e a quem. Porque uma coisa é trabalhar numa paróquia urbana, onde encontramos facilmente homens e mulheres com percurso académico sólido, pensamento estruturado, capacidade de ler, interpretar, perguntar, e assumir responsabilidades com maturidade. Outra coisa, totalmente diferente, é a realidade maioritária das paróquias portuguesas: aldeias com comunidades envelhecidas, onde a única pessoa com hábitos de leitura é, porventura, uma professora primária já reformada; onde a catequista que fez um curso básico já se sente autoridade teológica; onde a prioridade da comunidade é a festa anual e não a formação cristã; e onde a “senhora zeladora” manda mais do que qualquer plano pastoral.
A distância entre teoria e prática torna-se, muitas vezes, fonte de frustração para os próprios padres. Elaboram homilias com esforço, estudam, procuram aprofundar o Evangelho, mas percebem que metade da assembleia não acompanha e a outra metade só está à espera de saber quem leva as andas ou quem paga a próxima promessa. E há casos limite que revelam o desespero pastoral em que alguns caem: lembro-me de ouvir a minha professora Manuela Brito Martins contar a pregação de um sacerdote que, já sem metáforas nem comparações, acabou a dizer aquilo que nunca se deveria dizer: “o Espírito Santo é o osso do presunto”. Era o limite possível para explicar algo que, para aquele auditório, já não tinha outra analogia compreensível.
A exaustão nasce assim: anos de estudo e preparação para, no fim, ter de gerir comissões de festas, expectativas sociais e micro-políticas paroquiais, sem espaço para criatividade pastoral, nem para um verdadeiro trabalho de evangelização. E isto não acontece por má vontade. Acontece porque os leigos que se pedem não existem, ou porque os que existem não querem — ou não sabem — ser formados. Fala-se muito em formar o laicado, mas isso supõe vontade de aprender, abertura, humildade intelectual e disponibilidade interior. E, muitas vezes, o que reina é exatamente o contrário: resistência à mudança, apego à tradição como trincheira, receio do novo, medo da responsabilidade. A fé não amadurece quando nunca é questionada.
E que leigos queremos, afinal? O leigo que diz “sim, senhor padre”, sem interrogar nada? O leigo que reclama espaço, mas não aceita ser corrigido? O leigo que critica, mas não estuda? O leigo que exige voz, mas não sabe o que quer dizer com ela? A corresponsabilidade não se decreta; constrói-se. E constrói-se com adultos, não com infantilizações piedosas.
Este realismo não é pessimismo. É simplesmente reconhecer o que é evidente: a Igreja continua, em grande parte, a viver num modelo de transmissão da fé que já não funciona. Muitas comunidades permanecem no primeiro nível da fé, como no episódio da samaritana. Os primeiros samaritanos acreditaram “por causa das palavras da mulher”. É uma fé herdada, indireta, dependente da voz de outro. Tal como muitos cristãos de aldeia, que acreditam porque a catequista disse, porque a mãe explicou, porque a tradição assim sempre fez. Mas o texto de João não termina aí. Há um segundo passo: aqueles que, depois do primeiro anúncio, pedem a Jesus que permaneça com eles e passam a acreditar “por causa da sua palavra”. É o salto da tradição para a fé pessoal. É esse salto que o laicado português, em grande parte, ainda não deu.
O desafio é este: como passar de crentes tradicionais a homens e mulheres de fé? Como formar comunidades onde a fé amadureça, se torne consciente, interrogativa, responsável? Como criar um laicado que pense, leia, reze, se comprometa, saiba distinguir entre devoção e superstição, entre tradição e Evangelho, entre opinião e discernimento? Como ter leigos que, quando são chamados a colaborar, acrescentam algo mais do que logística?
Falar do laicado exige, por isso, coragem: coragem de reconhecer que a retórica sobre “dar lugar aos leigos” é bonita, mas só tem sentido se houver leigos preparados; coragem de admitir que o clericalismo não vive apenas nos padres, mas também naqueles leigos que esperam que o padre faça tudo; coragem de perceber que as paróquias não mudam porque ninguém quer verdadeiramente mudar; coragem de aceitar que formação não é ornamento, é condição.
A Igreja precisa de leigos, sim. Mas precisa de leigos adultos na fé, intelectualmente honestos, espiritualmente firmes, capazes de ler a Escritura e não apenas repetir frases feitas, capazes de assumir responsabilidades e não apenas organizar a procissão, capazes de colaborar com sentido e não apenas cumprir tradições. Precisa de leigos que avancem, e de padres que se deixem interpelar, sem medo da crítica e sem alergia ao diálogo. Porque corresponsabilidade é isso: não é um padre que manda e um leigo que obedece, nem um leigo que reclama e um padre que cala. É um caminho conjunto.
O futuro das paróquias rurais, sobretudo, dependerá desta passagem. Enquanto continuarmos presos à lógica da festa, da comissão, do hábito e do “sempre foi assim”, não haverá renovação, não haverá criatividade pastoral, não haverá verdadeira evangelização. E os padres continuarão a viver entre o estudo e a frustração, entre a formação que receberam e o terreno onde não conseguem aplicá-la.
O Evangelho da samaritana continua a ser, afinal, uma imagem precisa das nossas comunidades: muitos vivem da fé transmitida; poucos passam à fé assumida. A Igreja que desejamos — adulta, corresponsável, pensante — só nascerá quando este segundo passo for dado. Até lá, falar de leigos é fácil; construir um laicado amadurecido é o verdadeiro desafio.