Atravessarem dois países e andarem onze dias deambulando por Portugal. Vendarem duas crianças de três e de cinco anos, iludindo-as com um jogo. Abandonarem-nas, de seguida, à beira da estrada, junto de um canal cheio de água e perto de arrozais alagados. Confraternizarem, depois disso, num bar, de forma descontraída, durante horas, a muitos quilómetros de distância. E fazerem-se parecer enlouquecidos. Foi desta forma que, em traços gerais, ficámos todos em choque com uma notícia de exposição ao abandono, de violência e de omissão de auxílio duma mãe e de um padrasto franceses sobre duas crianças pequeninas (após terem deixado um adolescente de dezasseis anos, sozinho, em França).

Talvez o “impacto viral” deste episódio se justifique pela perplexidade como duas pessoas instruídas e, supostamente, esclarecidas, de forma calculista, tenham sido capazes da maldade, da perversidade e da frieza de exporem duas crianças muito pequeninas ao sofrimento, em condições de enorme perigo. Duma delas ser a mãe destas crianças que lhes deixou duas mudas de roupa, duas peças de fruta e algumas bolachas, como se isso as blindasse de todos os perigos, enquanto lhes virava as costas com uma indiferença assustadora. E do seu resgate, quando estavam aterrorizadas e em lágrimas, em oposição a tamanha maldade, ter mobilizado pessoas bondosas e generosas que as acolheram e protegeram.

Podem os pais “normais” ser capazes duma maldade tão ilimitada, sem medirem o sofrimento violento que promovem e as feridas, impossíveis de silenciar para sempre, numa criança? Nunca!

Compreende-se a maldade sobre filhos frágeis e indefesos como o resultado duma perturbação grave do equilíbrio psicológico duma mãe, para mais, acompanhada por quem terá vindo a dar sinais de manifesta perturbação mental? Sim.

Serve esta compreensão como atenuante para se almofadarem decisões judiciais que, em primeiro lugar, devem proteger o supremo interesse destas crianças, ancorado na satisfação dos seus direitos e das suas necessidades? Não, claro. Por mais que as medidas que daí resultem devam considerar as perturbações que existam em cada uma destas pessoas, tentando reabilitá-las, considerando o seu futuro.

Será alguma vez um sofrimento tão esdrúxulo envolvido por um manto de esquecimento por cada uma destas crianças, considerando a idade que têm? Jamais!

A adequação aparente que elas manifestaram, depois de acolhidas, compreende-se como o resultado dos danos que este episódio lhes trouxe serem mínimos ou reparáveis ou como um estado de choque que fez com que, depois de magoadas, tivessem surgido estranhos e mais estranhos a tentar protegê-las, numa agitação grande demais para se sentirem seguras? Ela resulta, sobretudo, do choque.

Pode, duma experiência como esta, resultar — pelo tempo fora — uma desconfiança primária, de cada um destes meninos, manifestar-se em relação a quem os tente cuidar ou a quem venha a gostar deles, sobretudo depois de quem mais os devia ter protegido os ter exposto a uma dor tão absurda? Sem dúvida que sim.

O tempo que venha a passar-se sobre tudo isto fará com que ele esbata o choque de tudo o que aconteceu ou fará com que estas crianças, já mais crescidas, coloquem nele “legendas” e leituras mais esclarecidas, acentuando a sua dor? A memória nunca apaga a maldade e as experiências de quase-morte que vivemos.

Pode a gestão atabalhoada do tempo que vem a seguir servir para acentuar mais os danos que resultam daquilo que aconteceu a estas crianças? Pode! Basta que se pondere o seu acolhimento em vez da confiança à guarda de um familiar seguro de referência (o pai, se for esse o caso). Ou que se presuma que separá-las pode garantir melhor qualidade de cuidados para cada uma. Ou promover sobre elas uma curiosidade que invada a sua privacidade, como a exposição do seu local de residência ou a exposição ao voyeurismo sobre os seus passos seguintes da vida, que serão outra forma de exposição ao abandono sobre a qual devia prevalecer o dever de reserva que, depois disto tudo, mais do que nunca estas crianças merecem.

Já quando a maldade de primeira página nos assusta e nos comove isso quer dizer, apesar dos muitos défices de atenção que possamos ter, que somos, sobretudo, boas pessoas! E, por mais que isso pareça simplista, nunca é demais de acentuar.