Em Portugal, o sorriso é uma metáfora nacional. Mostramos os dentes ao mundo em discursos e inaugurações, mas a verdade é que, por trás dos cartazes eleitorais branqueados com “Hollywood Smile”, escondem-se as cáries do sistema. A saúde oral é o esqueleto no armário do Serviço Nacional de Saúde — e, ironicamente, o esqueleto até teria ossos fortes, não fosse a negligência sistemática que o condena a apodrecer em gavetas ministeriais.

Em Portugal, a saúde oral tornou-se o retrato perfeito daquilo a que chamamos política pública: há recursos, há profissionais, há necessidades gritantes — e há uma extraordinária capacidade de não ligar nenhuma das peças entre si. É como se estivéssemos a montar um puzzle de mil peças e, em vez de procurar onde encaixam, preferíssemos criar uma comissão para debater se a imagem final deve ser uma paisagem ou um unicórnio.

O país dispõe de gabinetes dentários nos centros de saúde, devidamente equipados e capazes de realizar milhares de consultas anuais. Mas a chave da porta perdeu-se, talvez guardada no mesmo cofre onde se arquivam as promessas eleitorais não cumpridas. É um caso exemplar de como transformar abundância em escassez: temos os meios, mas não temos vontade política de os usar.

Entretanto, os médicos dentistas do SNS são personagens dignas de ficção científica. São extraterrestres catalogados como “técnicos superiores”, prestadores de serviços descartáveis, pagos à hora com valores tão variados que fariam inveja a qualquer leilão. Um dia valem 10,80€, no outro 22€. Igualdade de remuneração para funções iguais? Só na Constituição — esse manual de boas intenções que ninguém no poder parece ler até ao fim.

E para disfarçar o caos, eis que surge a obra-prima da criatividade nacional: o cheque-dentista. Apresentado como instrumento de equidade, funciona mais como bilhete de lotaria. Ou como uma espécie de raspadinha da saúde pública. Serve para crianças, grávidas, idosos, diabéticos e, com alguma sorte, até para dentes que nunca chegaram a nascer. A ausência de auditorias transforma o programa num espetáculo de ilusionismo: tratamentos realizados em bocas invisíveis, consultas pagas a profissionais invisíveis, resultados invisíveis. A única coisa visível é o fluxo de dinheiro público a desaparecer num buraco negro de opacidade – nada para que o Tribunal de Contas não tivesse já chamado a atenção.

Mas o mais fascinante é a normalização do absurdo. Mais de 30% dos portugueses não têm acesso a cuidados de saúde oral, seja por pobreza ou por simples incapacidade do sistema em responder. Somos o país onde se aceita como natural que ir ao dentista seja luxo e não direito. Enquanto isso, continuamos a marchar alegremente para a americanização do sistema: quem pode, paga; quem não pode, sorri com vergonha — ou já nem sorri.

E, no entanto, ninguém pode alegar ignorância. Todos sabem. Os governos sabem, os partidos sabem, as ordens profissionais sabem, os conselhos de administração sabem. Foram entregues relatórios, propostas, recomendações, diagnósticos. O problema não persiste por falta de soluções, mas por excesso de conveniência. Resolver a saúde oral implicaria provavelmente mexer em privilégios instalados, questionar interesses privados e, sobretudo, assumir responsabilidade política. E isso, em Portugal, é ainda mais raro do que encontrar um médico dentista no SNS.

Assim, a saúde oral tornou-se um espelho cruel do país: habituado a contentar-se com pouco, resignado ao improviso, cúmplice da própria decadência. Mas não nos enganemos: uma sociedade que normaliza a perda de dentes por falta de cuidados básicos é a mesma sociedade que aceitará, amanhã, perder direitos ainda mais fundamentais. O silêncio perante a saúde oral não é apenas negligência médica; é cumplicidade política, é abdicação cívica, é a institucionalização da desigualdade.

Por isso, este manifesto não é apenas sobre dentes. É sobre dignidade. É sobre o direito a sorrir sem que esse ato se transforme em luxo. É sobre exigir que o Estado cumpra o mínimo: garantir cuidados de saúde oral a quem já paga, religiosamente, os seus impostos. É sobre não aceitar que a corrupção, a incompetência e a conveniência ditem a diferença entre ter dentes ou não os ter.

Portugal precisa de uma revolução do sorriso. Não de cheques, não de paliativos orais, não de discursos carregados de promessas vãs. Precisa de políticas sérias, de transparência real, de carreiras dignas para os profissionais, de auditorias que não sejam ficção. Precisa, sobretudo, de cidadãos que não aceitem continuar a rir-se da própria miséria.

Até lá, o país continuará a exibir o mesmo sorriso desdentado: uma gargalhada amarga que revela, mais do que dentes em falta, a ausência de vontade política para mudar.