Nestes momentos de exceção o pensamento disruptivo ajuda na procura de soluções inovadoras, equilibradas, simples e exequíveis, no sistema educativo.

As nossas vidas e das nossas famílias estão suspensas. Não há certezas. Para combater as incertezas só temos tendências. E é neste quadro de incerteza que se move também a Educação.

Nos momentos de incerteza não se podem pedir aos Governos certezas, mas podemos pedir abertura de pensamento. Tudo isto a propósito da discussão que começa a haver sobre os aspetos formais do calendário do presente ano letivo.

Neste momento os aspetos formais do calendário do ano letivo devem ceder a primazia ao que é verdadeiramente importante.

E o importante é arranjar alternativas para que não se comprometam os percursos escolares dos alunos, a sua ligação à escola e ao conhecimento.

Reúna-se em volta de uma mesa virtual, como os tempos recomendam, um conjunto de pessoas que pensem a Educação. Este não é um tempo de ideologias educativas, nunca o foi, mas nestes tempos de emergência ganha ainda mais pertinência que não o sejam. Portugal precisa de saber estabelecer um pacto educativo de diferentes sensibilidades e quadrantes políticos. Todos saberão construir consensos dando o seu contributo e todos serão poucos, tal é a dimensão do desafio. Mas os tempos exigem-no.

E exigem que esta seja a altura de ouvir quem tem conhecimento em Educação. É altura de ouvir quem sempre fez o seu percurso profissional nesta área. Este não é o momento de privilegiar a simples opinião ou o comentário. Não é o momento de ouvir apenas quem pensa como nós. É preciso pluralidade. É preciso saber escutar.

É preciso ouvir os que pensam de forma disruptiva. Nestes momentos de exceção o pensamento disruptivo ajuda na procura de soluções inovadoras, equilibradas, simples e exequíveis.

Se as soluções a encontrar pelos profissionais de Educação se pretendem consensuais, é preciso que tais consensos não deixem de incluir as ideias disruptivas, não consensuais, como cenários alternativos apontados. Aquando da transmissão do resultado desse trabalho ao poder político, é importante que este conheça todas as ideias apresentadas e não apenas as que resultaram consensuais, para que a sua tomada de decisão seja a mais ponderada num cenário de incerteza.

Num cenário em que com uma probabilidade que não podemos desconsiderar, se venha a degradar o ambiente psicológico em que estão imersos os nossos alunos, dado o aumento do número de casos de covid-19 que, embora não correspondente ao modelo exponencial inicial está a ser progressivo e atingirá cada vez mais famílias, é difícil realizar um terceiro período como o concebemos formalmente.

Colocamos fora da nossa análise a realização de um terceiro período presencial, pois tal hipótese colocaria a escola no centro da transmissão comunitária do covid-19, o que do ponto de vista da responsabilidade social que o governo tem defendido, e a sociedade civil respeitado, no quadro do estado de emergência, não faria sentido. Assim como não faria sentido abrir aulas presenciais, num mês de maio, apenas para cumprir um calendário que é de outros tempos e que não serve os tempos atuais.

Mas como realizar um terceiro período que de forma harmoniosa com os dois períodos já realizados constituam um todo coerente que permita aos professores produzirem um juízo avaliativo que determine com segurança o veredito final do ano letivo, com todas as consequências que isso acarreta no percurso escolar dos alunos?

Para além do ambiente psicológico alterado, conforme anteriormente referido, os nossos alunos provenientes de agregados familiares economicamente mais débeis, estarão em igualdade de circunstâncias com os demais alunos se o terceiro período se processar com recurso às novas tecnologias, seja por internet ou por televisão? Têm todos casas que lhes permitam, já não digo privacidade, mas o mínimo de condições para uma aprendizagem efetiva?

Num país em que um quinto da população vive abaixo do limiar da pobreza certamente que não existirá em todas as famílias a igualdade de oportunidades, no acesso, que a escola presencial lhes permite.

E que dizer, numa escola inclusiva, dos alunos com necessidades especiais privados de apoios especializados?

E os nossos mais jovens alunos que ainda não chegaram ao 2º ciclo, terão competências que lhes permita com autonomia ter aulas à distância, seja através de que meio for, caso não possam contar com os seus progenitores para os auxiliarem, pelas mais variadas razões?

Não nos podemos esquecer, complementarmente, que no caso da telescola o modelo foi concebido para o ensino à distância, mas em ambiente de sala de aula e com o acompanhamento de um professor para exploração dos conteúdos visionados.

Ninguém estava preparado para o que aconteceu. E ninguém espera da parte de quem tem de tomar decisões, que estas sejam milagrosas. Mas sublinho, novos tempos exigem novas posturas de abertura aos que pensam como nós e aos que não pensam como nós, exigindo igualmente muita humildade e capacidade de escuta.

Afigura-se-nos verdadeiramente importante, para os alunos, famílias e sociedade, que os nossos alunos, mantenham o vínculo à escola e ao conhecimento, através dos seus professores e nesse sentido, tendo presente não gerar desigualdades, a interação entre a escola e os alunos, à distância não deve consubstanciar-se em novas aprendizagens, mas sim na consolidação dos conteúdos anteriormente lecionados.

Tendo em conta tudo o que anteriormente referimos, bem como as situações diferenciadas existentes entre alunos de diferentes anos de escolaridade, deixo para reflexão algumas interrogações.

Neste ano letivo, conforme sucede habitualmente a duração dos períodos não foi homogénea, em que o primeiro período teve aproximadamente catorze semanas e estavam destinadas ao terceiro período aproximadamente sete semanas, porque não conciliamos o próximo ano letivo com a lecionação do terceiro período do presente ano letivo, presencialmente?

Porque não utilizamos os meses de setembro e de outubro para esse efeito?

Num momento verdadeiramente excecional porque não suspender, neste ano letivo, as provas de aferição e todos os exames que não se constituam como provas de acesso ao ensino superior?

Porque não se conclui primeiro, presencialmente, o presente ano letivo e se inicia o próximo em novembro?

Porque não é possível, no sentido do preconizado, adequarem-se os calendários de exames dos alunos dos 11º e 12º anos?

Porque não poderia a entrada no Ensino Superior ocorrer excecionalmente em janeiro de 2021, reprogramando os estabelecimentos de Ensino Superior o calendário letivo para os seus futuros alunos de 1º ano?

Num tempo de incertezas temos a esperança de que a decisão política seja uma decisão amadurecida e refletida, para que traga tranquilidade, equidade e seja a mais adequada ao futuro de todos os nossos jovens, que terão nos seus professores um pilar seguro que os ajudará a atravessar este momento.