Poucas coisas entusiasmam tanto as classes conversadoras deste país como as discussões em torno de se determinada figura política vai ou não “avançar” para uma candidatura a um determinado lugar, e se terá ou não o apoio deste ou daquele partido. Nestas últimas semanas, apesar da abundância de preocupações que deveriam estar no centro das atenções de quem tem a responsabilidade e o dever de ter mais juízo, não houve quem não se entregasse à fútil actividade de especular acerca de se Marcelo Rebelo de Sousa se recandidata à Presidência da República (como se alguma vez tivesse havido alguma dúvida de que o faria), e de se terá o apoio da “direita”, da “esquerda” ou de ambas.

A dúvida, apesar de tudo, é compreensível. Afinal, o Primeiro-Ministro António Costa, com o cinismo que lhe é universalmente reconhecido e em alguns lugares apreciado, não perde uma oportunidade de colar Marcelo ao seu excelso governo, e Marcelo, sempre ansioso por se mostrar “isento” e “apenas preocupado com o bem dos portugueses”, não desperdiça uma ocasião de se mostrar em harmonia com um governo da “esquerda”. O que, por um lado, facilita a tarefa de Costa não se opor à candidatura presidencial e assim livrar o seu partido de uma derrota eleitoral (aquela gente vê a política como um jogo de futebol, em que “perder” é sempre o pior desfecho, excepto se o que se perde for a vergonha). E por outro, causa uma notória urticária na “direita” que se sente “traída” ao não ter em Belém o chefe partidário que, por razões impossíveis de conceber racionalmente, esperava ter para suprir a falta de apoio eleitoral que os seus partidos têm conseguido. Só assim se compreende que ninguém se espante com a possibilidade do PS apoiar Marcelo ou se abster se apresentar um concorrente, e que para os lados do PSD e do CDS – ou até aqui no Observador – se sinta a necessidade de argumentar a favor do apoio a Marcelo, e a que não se ceda à tentação de apoiar uma qualquer candidatura alternativa, das mais louváveis (como a do Adolfo Mesquita Nunes) às mais desprezíveis (como a de um conhecido ex-porta-voz televisivo de um clube de futebol com aspirações a tiranete), passando pelas mais inacreditáveis (como a de André Dias, semi-célebre por argumentar que a Covid-19 não era um problema grave).

Só assim se compreende, mas não se devia compreender. Se “direita” e “esquerda” fazem a sua avaliação do presidente Marcelo em função da sua relação com o Governo – a “direita” sentindo-se tentada a repudiá-lo por estar politicamente casado com Costa, a “esquerda” ficando enamorada por Marcelo de cada vez que este elogia o Primeiro-Ministro – fazem mal. Ao contrário do que aparentemente tanto um lado como o outro pensam, Marcelo não está alinhado com o Governo. Pela simples razão de que Marcelo não está alinhado com ninguém, excepto consigo próprio e as suas sempre transparentes ambições pessoais. A “direita” não deveria apoiar Marcelo, pelo mesmo motivo pelo qual a “esquerda” também não o deveria fazer: Marcelo é, foi e será um mau Presidente da República, porque está sempre disposto a sacrificar tudo, da sua coerência ao país, passando pela dignidade das pessoas, em prol da sua popularidade.

A postura do Presidente a propósito das comemorações do 25 de Abril e do 1º de Maio são um retrato fiel da figura e do seu escasso carácter, inversamente proporcional ao ego que o governa. Primeiro, aprovou o decreto que as permitiu, “nos moldes” que permitiram a forma como tiveram lugar. Mas mal se viram sinais de alguma comoção pública contra essa mesma forma que tomaram, logo o Presidente fez saber que nunca fora a favor de algo “assim”, apesar de nunca o ter dito antes. Aliás, já o mesmo se passara em 2017 com os incêndios que então infernizaram o país: Marcelo começou por se colocar ao lado do governo de António Costa, e só começou a fazer declarações críticas da sua actuação depois da insatisfação pública se ter generalizado, sugerindo que só se tornou crítico da actuação do governo de Costa por causa da insatisfação pública, e não por qualquer avaliação dessa mesma actuação ou por convicção pessoal.

Como em tempos escrevi noutro lugar, Marcelo é uma espécie de influencer político, que, como as jovens recentemente pós-púberes que forçam os namorados a fotografá-las para o Instagram, é um escravo do apreço que os seus “seguidores” (os eleitores) têm por si, o que faz com que todas as suas acções se norteiem por aquilo que a “opinião pública” vai sentindo a cada momento. Como as influencers que em tempos convidou para o seu Palácio, Marcelo só é popular na medida em que segue as preferências daqueles que supostamente o seguem a ele, e como tal, toda a sua acção política é feita a reboque do que ele vislumbra ser o “sentimento popular”. Por outras palavras, Marcelo não julga, não pensa, não avalia, não lidera. Pura e simplesmente, segue, e como se limita a seguir, nunca faz ou diz o que é preciso ou justo, apenas aquilo que (lhe) convém.

É por isso que quem, como por exemplo José Pacheco Pereira, pensa que Marcelo, uma vez liberto no segundo mandato da necessidade de conquistar a reeleição, passará a agir segundo outros critérios menos oportunistas, está profundamente enganado. Marcelo não se preocupa apenas com o ser reeleito. Preocupa-se em ser popular, e a sua popularidade continuará em jogo mesmo que uma renovação de mandato lhe esteja constitucionalmente vedada. E como tal, Marcelo continuará a agir para os índices de aprovação e para as “selfies”, mantendo para com tudo o resto – o que realmente lhe deveria importar – a mesma relação que a actual segunda figura do Estado um dia disse ter para com o segredo de Justiça.

É claro que, com ou sem o apoio da “esquerda” ou da “direita” partidárias, Marcelo será reeleito, já que a vasta maioria dos portugueses parece ter um injustificado arrebatamento pelo homem e os seus hábitos, delirando de cada vez que ele se apresenta semi-nu numa qualquer praia lusitana ou de além-mar. E é claro que, uma vez estando Marcelo confrontado com uma candidatura como a do ex-porta-voz televisivo de um clube de futebol com aspirações a tiranete (ou até como a de Ana Gomes, que mistura preocupações meritórias com uma falta de juízo preocupante), qualquer pessoa sensata, de “direita” ou de “esquerda”, acabará por votar nele. Mas esse será um apoio que Marcelo não merecerá.