A epidemia de Covid-19 parece estar longe de terminar em Portugal (e no mundo), como se pode observar pelo número diário de novos infetados, na casa das centenas por dia, embora com assimetrias regionais.

Em relação ao Norte de Portugal e à área do Grande Porto em particular, a situação tem-se revelado muito mais favorável, com pouquíssimos novos casos reportados.

Pensamos que tal se deve à massiva adesão das pessoas às medidas mais adequadas de combate ao contágio, a saber: afastamento entre indivíduos, uso de máscara, lavagem frequente das mãos, preferência por permanência em locais ao ar livre ou bem arejados.

Na retoma das atividades escolares e desportivas, interessa definir as medidas adequadas a seguir por grupos de pessoas que pratiquem exercício em grupo. Para que o façam adequadamente e com segurança.

Aspetos há, que estão perfeitamente estabelecidos como fundamentais:

  1. A não participação de pessoas contaminadas (mesmo que assintomáticas);
  2. O afastamento entre os praticantes (distância variável consoante vários pressupostos);
  3. O arejamento adequado do espaço, evitando a recirculação do ar;
  4. A lavagem ou desinfeção frequente das mãos e o evitar do contacto com o rosto.

A dúvida coloca-se em relação ao uso de máscara.

Deverá o exercício ser realizado com uma máscara colocada? Poderá haver compromisso na passagem do oxigénio (O2) em quantidade adequada para os pulmões? Poderá haver dificuldade em expelir a totalidade do dióxido de carbono (CO2) do organismo?

Alguns estudos realizados dão-nos pistas para uma resposta.

Em situação de repouso ou de exercício leve, é de esperar que a máscara seja útil para diminuir o eventual contágio da Covid-19, da mesma forma que quando usada no seio da comunidade.

Os testes realizados apontam para que os níveis de O2 e CO2 sejam semelhantes com e sem o uso de máscara. Não é de esperar alteração importante na dinâmica da troca de gases entre o pulmão e o sangue, quer se use máscara, quer não se  use. Isto, relembra-se, no caso dos esforços ligeiros ou moderados.

O problema pode surgir quando o exercício se torna mais intenso.

Neste caso, as experiências científicas realizadas, embora escassas e com limitações, têm verificado o aparecimento de reduções relevantes na oxigenação (hipoxia) e subidas de gases tóxicos no ar respirado, como o dióxido de carbono, suscetível de provocar hipercapnia no organismo do praticante.

Durante o envolvimento, em qualquer desporto que implique aumento de movimento ou esforço, a respiração torna-se mais rápida e profunda, o que eleva a taxa de passagem de eventuais virus e batérias pelo trato repiratório, aumentando, consequentemente, o risco de contágio de doenças.

O uso (ou não) de máscara em tempo de Covid esteve envolto em polémicas e acaloradas discussões nos últimos meses, com apoiantes e detratores exibindo os respetivos argumentos com eloquência.

A evidência cientifica a favor do uso de máscara, no entanto, ganhou peso nas últimas semanas. A sua utilização é agora defendida por muito mais gente – eu diria que nove em cada dez investigadores e cientistas concordam que a máscara, se adequadamente utilizada, é extremamente útil na contenção da propagação da epidemia Covid.

A máscara faz parte da Tríade de Segurança (uso persistente de máscara, adoção permanente de uma distância de segurança, higiente intensiva das mãos e do rosto). Hoje, sabemos que são estas as três medidas absolutamente imprescindíveis para controlar uma epidemia como aquela que enfrentamos. Já imaginou que, se as tivéssemos adotado com seriedade e rigor desde o início do desconfinamento, a saúde das pessoas e a economia estariam significativamente melhores? Teria havido bastante menos casos de Covid-19 no país e não haveria pretexto para impedir os turistas estrangeiros de invadirem, no bom sentido, as nossas praias, rios, cidades e montanhas … e gastarem por cá as suas suadas poupanças. Simples.

Podemos concluir, portanto, definitivamente, que a máscara é fundamental e constitui a medida básica para controlar a Covid-19 na comunidade.

Mas o desporto é um caso diferente. Teoricamente muito útil, a utilização de uma máscara cria um obstáculo físico à inalação de grandes quantidades de ar que o esforço acrescido exige. Porque os músculos trabalham com mais intensidade e necessitam, naturalmente, de mais O2 para alimentar o metabolismo celular.

No esforço ligeiro, a máscara pode acomodar um aumento moderado do fluxo do ar, não se registando uma resistência importante. Pelo contrário, nos esforços mais intensos, onde o volume de ar circulante pode ultrapassar 1,5 litros por segundo, a máscara pode não ter permeabilidade suficiente para permitir esse débito. Ou existe o risco da passagem do ar se fazer à custa da deficiente adaptação da máscara à superfície da cara do atleta. Neste caso, o ar contorna a máscara e circula livremente, sem filtragem, pelo que esta se torna inútil, deixando de desempenhar um papel protetor.

Recentemente, surgiram estudos que demonstram um fluxo menor de oxigénio no sangue durante a prática de exercício intenso com máscara; assim como também de maior quantidade de dióxido de carbono no ar inspirado e acima dos limites de segurança. Uma realidade que torna, por vezes,  impossível atingir altos e continuados níveis de esforço (a não ser que a máscara esteja, ou fique, mal posicionada).

Chegados a este ponto, coloca-se a questão importante: será seguro para o praticante o esforço intenso com a máscara colocada?

Uma experiência curiosa mostrou que um atleta de esgrima conseguia atingir bons níveis de O2 e CO2, usando a máscara protetora própria para esgrima. Mas se, por outro lado, ele colocar uma máscara cirúrgica dentro da outra, os valores dos gases modificam-se acentuadamente – equivale a colocar o atleta a uma altitude superior a 1500 metros, com a respetiva rarefação do ar. E, pior, o nível de CO2 presente no ar inspirado fica acima dos limites de segurança.

Noutro estudo importante, em parte dos casos analisados foi atingido o nível de CO2 de 2% no ar inspirado, representando o limiar de toxicidade para muitos indivíduos.

Sabemos que no caso de hipoxia (O2 baixo) e hipercapnia (CO2 elevado) graves, há alterações no nível neurovegetativo, com diversos quadros clínicos possíveis. Sintomas leves incluem pele corada, sonolência ou incapacidade de se concentrar, dores de cabeça, desorientação ou tonturas, falta de ar, sensação de cansaço intenso ou exaustão. Sintomas graves seriam sensação inexplicável de confusão, paranóia ou depressão, contração muscular anormal, arritmia cardíaca, hiperventilação, convulsões, ataques de pânico, desmaio. No entanto, em exercícios intensos com máscara, estes sintomas não costumam surgir, porque o atleta retira a máscara quando deteta os primeiros sintomas de desconforto (dor de cabeça, falta de ar), evitando o agravamento da situação.

De acordo com as indicações resultantes de diversas experiências, as organizações internacionais não defendem o uso incondicional de máscara durante o exercício. O CDC americano (um organismo oficial de grande prestígio) aconselha a utilização de máscara quando a distância de segurança entre pessoas não está assegurada, mas apenas para atividades de intensidade não muito elevada. O CDC afirma que “indivíduos envolvidos em atividades de alta intensidade, como corrida, podem não ser capazes de usar uma máscara se tal causar dificuldade em respirar” e que “a máscara não deve ser usada em situações em que fique molhada”, o que acontece rápidamente durante um exercício intenso, pelo vapor de água expirado. As melhores medidas serão sempre o afastamento entre praticantes, para além dos dois metros, e a adequada circulação do ar ambiente.

A Organzação Mundial de Saúde (OMS) vai mais longe. Assegura que “as pessoas NÃO [o “não” em maiúsculas é da própria OMS] devem usar máscaras durante a prática de exercício, pois elas podem reduzir a capacidade de respirar confortavelmente. O suor pode molhar a máscara mais rapidamente, dificultando a respiração e promovendo o crescimento de microrganismos. A medida preventiva mais importante durante o exercício é manter a distância.”

A máscara é, portanto, “um pau de dois bicos”, no que diz respeito ao desporto. Quanto mais eficiente ela for a bloquear a passagem do coronavírus, mais facilmente impede a boa circulação do ar, de e para os pulmões. e o contrário também é verdadeiro: quanto melhor permitir a oxigenação e a difusão do dióxido de carbono, menos eficaz será a impedir a passagem de partículas portadoras de micro-organismos.

Em resumo, relativamente ao desporto, exercício físico e Covid, a nossa opinião, e a da melhor ciência disponível atualmente, leva-nos a recomendar o seguinte (em relação às medidas individuais, e sem prejuízo de outras medidas relativas às instalações e aos profissionais envolvidos, não contempladas nesta análise):

  1. Levar em consideração (na quantidade, rigor e intensidade das medidas a adotar) a prevalência da doença na população. Isto significa que os cuidados terão que ser mais rigorosos em áreas com números elevados de infeções Covid; e mais leves em regiões onde os casos são inexistentes ou raros;
  2. Assegurar que se pratica o exercício em local com boa ventilação (de preferência, ao ar livre);
  3. Procurar, ativamente, manter uma correta distancia de segurança entre praticantes (variável, consoante múltiplos fatores);
  4. Promover a lavagem ou desinfeção frequente das mãos e evitar tocar no rosto.
  5. A máscara é recomendada, apenas, quando as condições referidas anteriormente não são ideais, quando o exercício não é muito intenso e quando os praticantes estão de boa saúde, não havendo fatores de risco pulmonar ou cardíaco importantes. E deve ser retirada imediatamente quando húmida, ou se surgirem sintomas de desadaptação ou de perturbação do equilíbrio dos gases respiratórios.