Metrobus tem sido um dos temas fortes da campanha autárquica do Porto. E nem pode dizer-se que a atenção dada ao projecto tem motivações partidárias ou eleitoralistas próprias deste período, uma vez que as dúvidas e polémicas sobre a obra são antigas.
Daqui a pouco mais de uma semana vamos saber se o município do Porto vai ser presidido por Manuel Pizarro ou por Pedro Duarte. E o que pensam os dois candidatos sobre o projecto?
Pedro Duarte interpôs uma providência cautelar para parar as obras. Já Manuel Pizarro, afirma que avançar com a segunda fase do Metrobus é “uma provocação à cidade do Porto”.
O presidente cessante, Rui Moreira, já afirmou que a obra é da “inteira responsabilidade” da Metro do Porto e nem o município nem a sua empresa de transportes podem assumir “a responsabilidade por eventuais erros na sua concepção.”
Já a Assembleia Municipal do Porto manifestou a sua “profunda indignação” por aquilo que considera um “inadmissível desrespeito” da administração da Metro do Porto pelo avanço da segunda fase do Metrobus.
A Metro do Porto é a empresa responsável pelo projecto, que tem sido defendido pelo presidente que acaba de deixar o cargo, Tiago Braga. Mas o seu sucessor, Emídio Gomes, que inicia agora funções, tem muitas dúvidas sobre a obra, tendo participado numa caminhada para contestar a segunda fase.
Temos então uma obra que custa aos contribuintes uns módicos 80 milhões de euros, com evidentes problemas de concepção – a ideia de fazer inversão de marcha em contramão na Rotunda da Boavista é genial -, atrasada um bom par de anos em relação ao calendário inicial, mas em que se insiste no erro, avançando para uma segunda fase quando a viabilidade e funcionalidade é questionada por tanta gente.
Quem insiste, neste caso, é a Metro do Porto, empresa pública detida quase na íntegra pela CP (a Área Metropolitana do Porto e os STCP somam apenas umas décimas percentuais no capital).
Das duas uma. Ou estão todos errados nas fortes dúvidas que colocam ao projecto, e a Metro do Porto está a passar pela provação dos que têm razão antes do tempo; ou o projecto não tem mesmo ponta por onde se lhe pegue e é mais um elefante branco que sai muito caro aos contribuintes.
O problema é que só teremos a certeza de que lado está a razão quando já for tarde demais. Já há muitos milhões de euros enterrados, a longa Avenida da Boavista já foi refeita para o Metrobus passar e já há responsabilidades assumidas para a segunda fase que, confirmando-se a desgraça, representa a duplicação do erro.
Enquanto Emídio Gomes não decide sobre o futuro da obra, sobra já uma dúvida: como é que chegámos a este ponto? Qual foi o processo de decisão? Que estudos e projectos foram feitos? Como se testou a sua solidez? Quem foram os responsáveis por tudo isto? Quem deu a luz verde para avançar?
Fazer a autópsia deste caso não restitui a vida ao paciente. Mas pode, pelo menos, evitar erros futuros nesta ou noutras obras. E responsabilizar os autores por erros que venham a ser apurados pode demonstrar algum respeito pelos contribuintes. No ponto a que chegámos já não se pode pedir muito mais do que isto.