Alguns leitores recordarão o nome de Linus Pauling das aulas de química do secundário, a propósito das ligações que átomos e moléculas estabelecem entre si. Linus Pauling, um americano de ascendência germânica, investigador no CalTech na primeira metade do século XX, trabalhou na Europa com Schrodinger (o do gato) e com Niels Bohr. Postulou o carácter híbrido dos orbitais electrónicos nas ligações moleculares e desenvolveu o conceito de “ressonância” para descrever a natureza dinâmica das ligações químicas. Ganhou (sozinho) o Nobel da Química em 1954.

A partir dos anos 1930, Pauling dedicou-se ao estudo das moléculas orgânicas, incluindo a cinética da actividade enzimática, a natureza das ligações entre anticorpos e antigénios e, particularmente, a estrutura da hemoglobina, responsável pelo transporte do oxigénio no sangue (e pela sua cor vermelha). Descreveu pela primeira vez as cadeias alfa e beta que a constituem e, em 1949, publicou na Science, com três colegas, um artigo intitulado “Sickle Cell Anemia, a Molecular Disease”. A “sickle cell anemia”, ou anemia falciforme (ou drepanocitose), é uma anemia de transmissão familiar que deve o seu nome ao facto de os glóbulos vermelhos com hemoglobina (a molécula que transporta o oxigénio) defeituosa poderem assumir, sob certas circunstâncias, a forma de foice, ou crescente, visível ao microscópio. Os glóbulos defeituosos são rapidamente retirados da circulação sanguínea, causando anemia (e outras complicações que não cabe aqui esmiuçar). No seu artigo de 1949, Pauling forneceu a evidência experimental para a hipótese de a doença se dever a uma hemoglobina anormal (hemoglobina S).

A esperança de vida das pessoas com anemia falciforme está severamente reduzida na ausência de suporte médico intensivo. Contudo, já em 1933 se verificara que 8% dos americanos de ascendência africana eram portadores de hemoglobina S (embora só 0,2% tenham de facto anemia grave). Aparentemente, o efeito deletério da hemoglobina S era contrabalançado por algum tipo de vantagem. Mas qual? A resposta veio pela primeira vez de observações feitas na África Ocidental em 1949, onde a prevalência da anemia falciforme ultrapassa os 10%: de alguma forma (os mecanismos exactos continuam a ser discutidos), a presença do gene defeituoso parecia conferir protecção contra a malária. A hipótese foi confirmada por estudos posteriores, que tornaram evidente a sobreposição sistemática da distribuição da anemia falciforme e da malária. A presença da doença noutras regiões deve-se claramente ao efeito das migrações.

Pauling demonstrou a existência da hemoglobina S em 1949 e a natureza genética da doença já era discutida desde os anos 1920, mas só depois de Watson e Crick elucidarem a base molecular do genoma (em 1953) é que foi possível compreender a natureza da doença, que é, em si mesma, curiosa. De facto, a alteração da forma da hemoglobina, com os resultados catastróficos que acarreta, resulta da substituição de um único aminoácido (valina em vez de ácido glutâmico), por sua vez devida à mutação de um único nucleótido (timina em vez de adenina).

Vem isto a propósito de um estudo já referido por José Manuel Fernandes no seu Macroscópio de 27 de março, a propósito de um artigo publicado no El Pais (estão lá os links para os artigos originais publicados na Nature Genetics). O estudo consistiu na sequenciação completa dos genomas de 2636 islandeses e na análise e extrapolação dos resultados para a população geral. Aí se diz que 8% das pessoas têm mutações genéticas graves, o que é um número assustador – mesmo que os resultados de uma população secularmente isolada como a islandesa sejam dificilmente transponíveis para populações como as europeias, que resultam de milénios de miscigenação. Mas o mais interessante no estudo não é, de facto, a percentagem de mutações, e sim outra evidência: estas pessoas, portadoras de mutações graves, estão vivas. As mutações podem ser graves mas, claramente, não prejudicam significativamente a capacidade de sobrevivência.

Os mecanismos por trás desta interessante inanidade das mutações podem ser vantagens de sobrevivência, à semelhança do que acontece com a anemia falciforme nas regiões onde a malária é endémica. Ou podem dever-se a mecanismos mais estranhos. Há, por exemplo, uma rara doença genética, chamada analbuminémia, em que a pessoa não produz albumina – que é só a proteína mais abundante no sangue e responsável por um ror de funções importantes. Quem, por causa de doenças como a cirrose do fígado, deixa de produzir albumina ao longo da vida, sofre por isso complicações graves, algumas virtualmente intratáveis. Mas quem nasce assim não tem problema nenhum (grave, entenda-se): nessas pessoas, a proteína que, na vida intra-uterina, desempenha as funções da albumina, nunca deixa de ser produzida (ao contrário do que acontece nas pessoas “normais”). Podíamos alinhar aqui muitos mais exemplos.

O ponto que quero salientar é simples mas tem profundas implicações: as vantagens e desvantagens dos achados genéticos não são evidentes. Podemos sequenciar tudo o que quisermos mas continuaremos a compreender muito pouco durante muito tempo.

Uma última palavra sobre Linus Pauling. Além do trabalho, a todos os títulos brilhante, que desenvolveu sobre a natureza das ligações químicas e sobre as bases moleculares das anemias, ainda arranjou tempo e energia para o disparate: escreveu livros desvairadamente pacifistas (que lhe valeram um segundo Nobel, agora da Paz) e convenceu toda a gente de que tomar grandes quantidades de vitaminas, sobretudo vitamina C, era a panaceia universal: para as constipações, para a gripe e para o cancro. Agora já sabe o leitor porque é que continuamos a pensar que a vitamina C ajuda a ter menos constipações (não ajuda).