Crónica

Não chame uma mulher de meu anjo /premium

Autor
3.285

É muito mais fácil chamar uma mulher pelo nome. Ou de você. Ou de tu. Ou de senhora. Reserve seus tratamentos “carinhosos” para quem esteja com alguma vontade de recebê-los.

Não conheço muitas mulheres que tenham vocação para ser anjo. Nem muitos homens, na verdade. Acho que só os anjos têm vocação para ser anjo. Ainda assim, alguns não têm uma performance muito boa, sobretudo na área dos anjos da guarda, que têm deixado muito a desejar no século XXI.

Vez ou outra as nossas mães ainda nos chamam de meu anjo. Não é frequente, talvez nossa cara já tenha mudado demais, mas às vezes ainda acontece. Ocorre que os únicos que têm permissão para isso seguem sendo elas, nossos avós e nossos pais- que raramente o fazem- melhor assim.

Na mesma linha do “meu anjo” temos também o “meu bem” e a “minha linda”. “Minha querida” e “minha filha” não ficam muito atrás. Todas essas formas de tratamento têm o péssimo hábito de nos aparecer em momentos inoportunos, vindos da boca de pessoas com quem não temos nenhuma tipo de relação que autorize esse tipo de discurso.

A questão é: só chame de seu bem, de sua linda, de sua querida ou de sua filha aquelas mulheres que sejam efetivamente o seu bem, a sua linda, a sua querida e a sua filha. As outras não, porque elas não o são e provavelmente não o querem ser. É uma lógica bastante simples.

Acredito que homem nenhum saiba qual é a sensação de estar trabalhando, de estar dando seu melhor como advogada, médica, camareira, enfermeira, chef de cozinha, economista, garçonete, motorista, engenheira, escritora, vendedora e ser rebaixada a meu anjo- com todo o respeito que os anjos merecem.

Nós ouvimos “meu anjo” no mestrado, do colega que julga, naturalmente, saber muito mais do que uma mulher. Ouvimos “meu anjo” do manobrista na garagem, com medo que não saibamos estacionar nosso carro na vaga sem arrancar o retrovisor do vizinho. Escutamos “meu anjo” quando lidamos com clientes que não sabem- ou pior, que sabem- o quão agressiva essa forma carinhosa de tratamento pode ser.

Voltamos, mais uma vez, ao famoso machismo carinhoso. Que, por se considerar inofensivo, bem humorado ou quase afetuoso, ultrapassa serenamente as linhas da cordialidade, passando a criar um desconforto absolutamente evidente para as mulheres que se veem nessas condições.

É muito mais fácil chamar uma mulher pelo nome. Ou de você. Ou de tu. Ou de senhora. Seja o que for, chamá-la daquilo que é normal e minimamente aceitável, sem querer criar a sensação de uma proximidade não autorizada. Reserve seus tratamentos “carinhosos” para quem esteja com alguma vontade de recebe-los. E garanto que essas pessoas não são mulheres desconhecidas, sobretudo aquelas que estão nos seus postos de trabalho.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Brasil

O que resta do meu Brasil /premium

Ruth Manus
301

Atravessaremos as labaredas, protegeremos uns aos outros e, num dado momento, reconheceremos o Brasil. O Brasil da fruta doce, do samba e da poesia. 

Crónica

Elogio da Água

Carlos Lemos

Esta água é a mesma que vem das chuvas: a água que cria, que revitaliza, que regenera. Imagem perfeita do devir e do retorno, a água retoma o seu ciclo, na viagem que empreende entre o Céu e a Terra.

Crónica

A Parábola, a Pintura e o Pródigo

Filipe Samuel Nunes

O Filho Pródigo de Rembrandt alerta que a diferença masculino/feminino é essencial no quotidiano. E que os desdobramentos desta complementaridade nos comportamentos são absolutamente desejáveis.

Crónica

As aventuras da coerência /premium

Paulo Tunhas

Até certa altura pensei que a chamada “esquerda” era depositária da tradição de liberdade e garantia da democracia. Mas uma observação das suas reacções políticas mostra algo diferente e inquietante.

História

As oito reflexões de Hideyoshi

José Miguel Pinto dos Santos
142

Não será que hoje se age, fala e se publicam tweets depressa demais? Se se toma uma decisão irrefletida e danosa, ao menos que haja coragem moral para se retificar o que houver a retificar. Ao menos.

Crónica

O verde dos Açores, neste Outono vivo /premium

Laurinda Alves
1.544

A Terceira é tudo isto e bem mais, uma de nove ilhas onde não há lixo no chão, onde todos os campos estão impecavelmente tratados e cada horta, pasto ou lameiro parece não ter uma planta fora do lugar

PSD

Um eleitor de direita em 2019 /premium

João Marques de Almeida

Rui Rio comete um erro enorme: pretende impor uma pureza ideológica que o PSD nunca teve. Não há qualquer problema no PSD ser também social democrata. O problema é o PSD ser apenas social democrata.

Bloco de Esquerda

Burros de carga /premium

Helena Matos

“Os empresários portugueses são burros”, afirmou uma delegada à convenção do Bloco de Esquerda. Está a senhora cheia de razão: só num país de burros a subserviência para com o Bloco se tornaria lei

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)