Nos últimos anos a saúde mental tem ocupado um espaço central nas preocupações sociais. É reconhecido que as condições de saúde mental impactam a morbilidade e mortalidade. A par e passo com outros fatores, as gerações mais jovens têm desempenhado um papel fundamental na redução do estigma em torno da saúde mental e da saúde emocional. As perturbações do foro mental têm especial incidência nas crianças e nos jovens.
Nos jovens, pesam, igualmente, os desafios e constrangimentos dos estilos de vida contemporâneo. Em primeiro lugar, a existência de uma cultura de exaustão instalada nas sociedades ocidentais e a crença generalizada de que trabalhar até ao limite é um símbolo de dedicação e profissionalismo está a prejudicar a saúde física e emocional dos jovens. Por outro lado, a realidade de um mercado de trabalho e de ambientes profissionais cada vez mais competitivos, com uma pressão pouco saudável – embora a competitividade possa estimular o progresso e a inovação – resultam em contextos laborais que causam stress e ansiedade.
Os jovens sentem que existe um claro desequilíbrio da harmonia entre a vida pessoal, familiar e profissional. Este desequilíbrio resulta dos desafios acima mencionados e, também, da própria forma como vivemos, principalmente nas grandes cidades. O frenesim do trânsito, os constrangimentos conhecidos e sentidos da mobilidade urbana, a poluição sonora e ambiental, a falta de habitação, a dificuldade em manter relações estáveis e a vivência em comunidade e a dependência das redes sociais contribuem para uma fraca qualidade de vida e ameaçam, cada vez mais, o bem-estar de todos sem exceção.
Entre as gerações mais novas existe um grande desencontro entre a expectativa e a realidade. A maioria de nós cresceu com oportunidades que as gerações antecedentes nunca tiveram. Ensinaram-nos que se fossemos dedicados e se estudássemos conseguiríamos alcançar “uma boa vida”. Teríamos um bom emprego. Um carro. Uma casa. Construiríamos uma família.
No entanto, enfrentamos uma realidade diferente daquela que nos foi prometida. O mercado de trabalho que não consegue absorver a geração mais qualificada de sempre e o desemprego jovem que persiste. A habitação, um dos maiores desafios para as políticas públicas, sem resolução no horizonte. As taxas de emigração evidenciam que existe uma geração pouco confiante no futuro do seu país e que procura, lá fora, melhores condições salariais e de qualidade de vida.
É compreensível que este desencontro de expectativas crie uma tensão social e uma tensão geracional. Nós, os jovens, queremos ser ouvidos e ser parte integrante da solução para os problemas e desafios globais que, enquanto sociedade, temos pela frente.
O inquérito FutURe realizado em 12 países europeus revelou que os jovens portugueses são os que mais valorizam a saúde mental. Para mais de 94% dos jovens portugueses, a saúde mental é mais importante do que a saúde física. Este é um tema que precisa de uma intensa mobilização social. É preciso uma verdadeira agenda multissetorial que garanta a promoção da saúde mental em diferentes contextos, como as escolas, o ensino superior e o emprego, e ao longo do ciclo de vida. Isto, por si só, não resolve os problemas dos jovens e do país. Mas é um primeiro passo no sentido de criar um ambiente onde os jovens se sintam valorizados, apoiados e saudáveis, tanto física como emocionalmente, e com condições para que estes assumam o seu papel enquanto força motriz de inovação e evolução da sociedade, com uma paixão, dinamismo e visão contemporânea próprios da idade.
Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) e com o Hospital da Luz e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.
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