Volto ao assunto da tentativa de liberalização da eutanásia pois o PS e alguns apaniguados não desistem de se meter onde não são chamados. A menos que esses deputados proclamem que possuem competência para tudo o que lhes passe pela cabeça, esta inexplicável insistência é inadmissível. É literalmente um abuso de confiança cometido por umas escassas dezenas de deputados sem mandato para isso. Com efeito, a eutanásia não é uma questão política, muito menos uma coisa de partidos de «esquerda» ou de «direita», como mostra aliás a posição do PCP. Nem sequer uma questão ética. No meu caso tão pouco se trata de uma convicção religiosa, mas sim de resistir a um abuso de confiança com consequências lamentáveis.

Aquilo que o PS pretende fazer é uma questão duplamente deontológica, isto é, uma questão de comportamentos impróprios, eticamente reprováveis. Em primeiro lugar, uma falta deontológica desses deputados que não têm mandato para isso, pois nenhum dos partidos cujos membros pretendem agora impor a liberalização da eutanásia se atreveu a colocar tal questão nos seus programas ou sequer nos seus comícios de propaganda.

É aliás o segundo abuso de confiança política que o PS pretende cometer depois de se ter aliado ao PCP e ao BE sem anunciar previamente essa possibilidade, na qual, contudo, já pensava seguramente, pois sabia que não teria a maioria absoluta nas eleições legislativas de 2015! Se não o sabem já, o PS e os seus apaniguados que façam uma sondagem discreta para saber se a população é a favor ou contra tal medida raramente adoptada no mundo e em nenhum país de base cultural católica.

Em segundo lugar, trata-se de um ilícito deontológico em relação aos médicos, cuja vocação e prática não consiste em matar, mas exactamente o oposto: fazer tudo o que sabem e podem para salvar os doentes, seja de que doença for, mortal ou não. Por exemplo, não há doenças mentais ou perturbações psicológicas mortais, que eu saiba, e contudo a eutanásia frequentemente é aplicada a esses doentes nos países que a liberalizaram. Sofrimento, isso sim, há com toda a certeza, mas existe hoje uma quantidade de paliativos que a ciência não cessa, felizmente, de aumentar. Todas as profissões que se prezam têm um código deontológico: a mais antiga delas – a medicina – tem o Juramento de Hipócrates e é por ele que os médicos se devem reger a fim de nos inspirar confiança.

A única coisa que esses deputados insensatos estariam a fazer ao despenalizar a eutanásia seria autorizar a abertura ao público de clínicas cujos donos colocariam à porta o cartaz: «Aqui matam-se pessoas por tantos €€€». Foi praticamente o que se passou há semanas, numa clínica suíça autorizada a praticar aquilo a que eufemisticamente dão o nome de «suicídio assistido» a um cientista australiano de 104 anos disposto a pagar as despesas, conforme badalado na comunicação social.

A propósito de «mass media», desta vez é uma «colunista» que pretende defender a legalização da eutanásia invocando a ideia de «boa morte» do filósofo Séneca. Ora a autora finge ignorar que, na época de Séneca, há 2000 anos, não havia nem deixava de haver eutanásia. Havia drogas fatais que os patrícios romanos tomavam ou não a fim de se suicidarem se achavam chegada a hora. Algo semelhante se passava com outro artigo do «Público» acerca do qual aqui escrevi e onde nunca é dito que qualquer de nós tem a liberdade de se suicidar no caso de a vida nos pesar demasiado: para isso, não precisamos de médicos; no máximo, alguém incógnito que nos proporcione uma droga fatal.

Por solidariedade, sou favorável àquela droga instantânea proporcionada aos fugitivos judeus durante o nazismo e com a qual se matou Walter Benjamin, assim como um Wilhelm Friedmann, notável e corajoso professor de Literatura refugiado em França, que se suicidou em 1942 ao ser capturado pelos nazis nos Pirinéus, onde foi sepultado e onde se lhe juntou em 2006, por solidariedade familiar, o filósofo português Fernando Gil.

A eutanásia é, pois, algo de bem diverso do suicídio. A proposta do PS e apaniguados é, sim, uma enorme mistificação que não ousa assumir o seu nome nem as suas consequências. Por isso é que se recusa a submetê-la a referendo, como sucedeu com a liberalização do aborto. Trata-se, portanto, de uma hipocrisia total que apenas pretende abrir uma «fractura» na sociedade portuguesa, ao mesmo tempo que convida os médicos a fazerem o contrário daquilo para que foram formados.

Nota: no meu anterior artigo sobre a eutanásia cometi um erro assinalado por vários leitores, aos quais agradeço. A última frase que Fernando Pessoa deixou escrita (em Inglês), no Hospital de S. Luís onde morreu a 30 de Novembro de 1935,é esta: «I know not what tomorrow will bring».