Este governo não hesita perante nada. Não se importa de partidarizar a vida e a morte das pessoas a fim de dar satisfação a uma casta de políticos profissionais que se tomam por modernaços e fracturantes num país de fundo católico e avesso ao suicídio. A única coisa que lhes interessa é manter a aliança do PS com o BE a fim de sustentar a “geringonça” durante a legislatura. Quando o Sistema Nacional de Saúde (SNS) está a rebentar pelas costuras e o crescimento do sector privado vai continuar, é que o governo se propõe oferecer à população uma “morte assistida”?

“Morte assistida”, evidentemente, é um eufemismo que denuncia a má-fé dos deputados ao propôrem aos doentes a eutanásia, isto é, o suicídio medicamente assistido. Não é o que a Ordem dos Médicos diz, como já o fez saber. São os deputados que vão garantir a “morte assistida”? No dia em que os médicos a garantissem, perdiam a confiança dos doentes. A missão da medicina não é essa, mas a inversa, e não se trata de uma profissão qualquer que os governos possam funcionarizar. Imaginem os senhores de S. Bento que os médicos passavam a dizer aos doentes graves qualquer coisa como: “O senhor não se preocupe. Se estiver aflito, diga, que a gente trata disso”! Quem quer um médico desses?

Felizmente, a realidade é outra. Salvo acidentes e mortes súbitas, a esmagadora maioria dos doentes morre em hospitais onde são devidamente assistidos pelos profissionais de saúde. Quanto aos médicos, sabem perfeitamente quando é inútil perseverar no “encarniçamento” contra a morte e quando devem “desligar a máquina” ou algo de equivalente. Algo, porém, que só eles conhecem e que esteja ao alcance da medicina e da farmacologia, o que nem sempre será o caso. Não acredito pois que a prática da eutanásia se generalize com a cumplicidade dos profissionais de saúde!

Só por ignorância que nada tem que ver com a fé religiosa é que se pode prometer uma coisa dessas, quando o sistema de saúde nem sempre garante uma resposta pronta e eficaz a milhares de pessoas que sofrem das doenças que hoje nos levam desta para melhor! A hipocrisia dos políticos é tão grande que muitos deles nem fazem ideia de quantos óbitos e de que natureza ocorrem por ano. Pessoas cujo sofrimento leva ao suicídio são menos de uma em cem mil!

O desplante do governo e as convicções ideológicas dos porta-vozes dos partidos que querem resolver o assunto rapidamente por uma dúzia de votos mostram que o objectivo deles é esconder aquilo que não são capazes de fazer pelo SNS nem pela prevenção e manutenção da saúde de uma população cada vez mais envelhecida. Já se percebeu que governo e os seus cúmplices irão por diante com a lei mas só daqui a muito tempo se saberá se o Tribunal Constitucional a aceita. A única coisa que pode vir daí é uma dessas clínicas como as que há na Suíça onde administram pastilhas a pessoas fartas da vida … Fernando Pessoa escrevia: “Se se querem matar, matem-se”!

Numa altura em que a percentagem da despesa com a saúde sai cada vez mais directamente dos bolsos das pessoas para as companhias de seguros, os cuidados médicos privados e os medicamentos (mais de 40% da despesa total com saúde), oferecer-lhes uma saída rápida e económica para o outro mundo é de um descaramento sem qualificação. Em países como a Holanda e a Bélgica, manifestamente a eutanásia já degenerou em eugenia eliminando os “malformados”!

O envelhecimento galopante da população portuguesa, cujas únicas faixas etárias em aumento são as dos 80 anos em diante, já se traduz na queda populacional com o respectivo impacto económico e financeiro na saúde, assim como no sistema de reformas e no próprio mercado de trabalho. A este respeito, o governo e os seus cúmplices guardam um silêncio desavergonhado com o qual o PCP pactua também. Entretanto, sabemos que falta muito dinheiro para multiplicar os cuidados continuados e, sobretudo, os cuidados paliativos gratuitos para um número crescente de pessoas cujas doenças crónicas não têm cura.

Na realidade, aquilo que já podemos avaliar é o peso crescente das despesas dos mais velhos com a saúde: um terço deles pagará do seu bolso grande parte dos cuidados que o Estado já não é capaz de fornecer e os outros dois terços simplesmente abster-se-ão dessa despesa que não podem suportar, aumentando assim a diferença de longevidade entre o decil mais rico e os dois decis mais pobres em que está basicamente dividida a população acima dos 65 anos . Não é obviamente a eutanásia que vai resolver nada disto: é mais fácil empurrar os cadáveres para debaixo do tapete!