A meio do século XX, largos milhares de judeus partiram de diferentes locais da Europa e do Médio Oriente para o território que era conhecido então como o “mandato britânico da Palestina”. Perturbados com a forma como os europeus tinham explorado os povos de várias regiões do mundo, tomaram uma decisão que pretendia ser ao mesmo tempo uma opção de vida e um exemplo moral: não iam comportar-se como colonizadores. Como Rui Ramos explicou no último episódio do podcast “E o Resto é História”, os judeus “queriam verdadeiramente ser uma população fixada” e, por isso, não recorreram a mão de obra local barata e “eram eles próprios que trabalhavam a terra”. Inesperadamente, essa decisão ética correu mal. Os árabes acusaram os judeus de não lhes quererem dar emprego (presume-se que por ganância, cupidez ou maldade) e de pretenderem formar uma comunidade separada (presume-se que por soberba, autosuficiência ou preconceito). Os judeus acabaram por ser colocados numa posição impossível: se optassem por ter árabes a trabalhar as suas terras,  seriam considerados uns desprezíveis opressores; como optaram por trabalhar eles próprios a sua terra, foram considerados uns opressores desprezíveis.

Foi sempre assim. E continua a ser assim. Não vale a pena: os judeus nunca podem ter razão. Esta semana, pouco antes da assinatura da “primeira fase do plano de paz” no Médio Oriente promovido por Donald Trump, Catarina Martins subiu ao púlpito no Parlamento Europeu para, de dedo em riste, denunciar aquilo que, sem vergonha retórica, disse ser o “plano de guerra” de “Trump e Netanyahu”. Segundo a ex-líder do BE, eurodeputada do BE e candidata presidencial do BE, “os palestinianos não são sequer ouvidos” neste processo. Não se percebe bem o que quer Catarina Martins dizer com isso, tendo em conta que o Hamas assinou o acordo, a Jihad Islâmica apoiou o acordo e a Autoridade Palestiniana aplaudiu o acordo. É, de facto, lamentável que os palestinianos sejam representados por três organizações que defendem ou praticam o terrorismo, a ditadura e a corrupção generalizada. Mas, infelizmente, qualquer acordo de paz teria de ser feito com alguma dessas organizações e, para ser eficaz, teria de ser aceite por todas. É deplorável, mas trata-se da única forma viável de “ouvir” os palestinianos porque nem o Hamas, nem a Jihad Islâmica, nem a Autoridade Palestiniana são agremiações devotas de eleições ou referendos.

Por causa deste plano de paz a que Catarina Martins chama “plano de guerra”, serão abertas cinco passagens fronteiriças em Gaza, por onde entrarão agora, a alta velocidade, 600 camiões de ajuda humanitária por dia. Mas, para a bloquista, isso é apenas um engodo ou uma irrelevância. De acordo com a ex-líder do BE, eurodeputada do BE e candidata presidencial do BE, aquilo que a União Europeia deveria fazer era “seguir o exemplo corajoso das flotilhas e mandar as suas frotas entregar ajuda humanitária a Gaza” — o que seria, obviamente, apenas o tiro inicial de um novo conflito.

Cá está a história de sempre: se Israel ataca o Hamas em Gaza, está a cometer um desprezível ato de guerra; se assina um acordo de paz com o Hamas, está a cometer um ato de guerra desprezível.

Na mesma altura em que Catarina Martins discursava no Parlamento Europeu, uma maioria de eurodeputados aprovava uma proposta excêntrica que pretende proibir o uso em alimentos de origem vegetal de palavras normalmente associadas à carne, como “hambúrguer” (olá, André Ventura), “salsicha” ou “bife”. Trata-se de uma medida que, apesar de irremediavelmente abstrusa, pretende defender os consumidores. Para defender os eleitores, talvez a mesma maioria de eurodeputados pudesse sugerir a Catarina Martins que parasse de usar a palavra “guerra” quando se está a referir a “paz”. Até porque, se não me engano, da última vez que alguém confundiu “guerra” com “paz”, “liberdade” com “escravidão” e “ignorância” com “força” as coisas acabaram terrivelmente mal.