Quando eu era menina, os meus avós tinham uma prima que nos visitava na altura do Natal e trazia sempre um bolo Inglês feito por ela, que eu adorava. O bolo tinha um aroma peculiar, que não eram especiarias nem licores, perfume que era o da própria prima e se instalava na sala assim que ela chegava.

Não me lembro de alguma vez ter ido a sua casa, mas imagino que a casa da nossa prima tivesse o perfume do bolo Inglês que cozinhava para nos oferecer. As nossas casas têm o nosso cheiro assim como os nossos cozinhados têm o perfume das nossas mãos, a soma de aromas do tempero de cada um.

Agora que nos visitamos cada vez menos, o Natal é a altura do ano em que mais provo os cozinhados das cozinheiras da família. Tias, primas, madrinhas, sogras, a avó que resta: a comida chega à mesa do Natal, vinda de diversas casas. Os homens cozinham menos, mas alguns cozinham, e outros gabam-se de terem cozinhado os pratos que as mulheres fizeram. Não é dia de Natal, sem o tio que pergunta à mesa aos sobrinhos: “Já provaste o meu cabrito? Estou acordado desde as quatro da manhã a prepará-lo.” E a cozinheira, sua mulher, ao lado, revira os olhos.

Os cozinhados trazem o cheiro e o sabor das casas de onde vieram, que sendo dos próximos não são as nossas. E através deles temos de repente acesso à vida dos nossos tios e dos nossos primos, que não vemos ao longo do ano tantas vezes como gostaríamos.
O arroz da tia C., os sonhos da avó A., o arroz-doce da sogra, as filhós e o cabrito dos tios que moram mais longe. Nenhuma das iguarias é parecida com aquelas que levo, os temperos e o sabor é distinto. Mas a coisa mais íntima do dia de Natal é essa troca de sabores, o momento em que provamos os cozinhados uns dos outros e entramos um pouco na intimidade uns dos outros, aprendendo como costumamos alimentar-nos. A prova dos pratos (muitos requentados, outros espapaçados, outros cozidos demais) é quando nos reconhecemos.

Silenciosa, sentada à mesa, diante de um prato composto de um pouco de cada coisa, vou conhecendo as pessoas que me calharam e me rodeiam. Pode parecer impossível conhecer alguém a partir da maneira como tempera o arroz ou a carne, ou a partir do grau de cozedura, mas é como pretender conhecer uma pessoa a partir do perfume que usa: entende-se várias coisas. Sinto-nos um bocadinho nus, nessa partilha dos nossos pratos. Um pouco mais próximos e menos sozinhos.

No final, restará o quê? Quando os tios tiverem morrido, talvez num Natal no futuro me lembre do arroz branco de que nunca gostei muito, das piadas do falso cozinheiro, do sabor da comida sem graça. Estou sempre a viajar para a comida da minha infância: e muitas vezes dou comigo a dizer que me apetece comida desengraçada, insossa, cansada, como era tantas vezes nesse tempo. Quem me dera comer no Natal a carne assada temperada pelo meu pai, muitas vezes salgada, com vinho a mais. É quase só dos piores pratos que me lembro. É deles que mais tenho saudades.