Se tivéssemos de pensar num local para dar início à revolução da história, dificilmente escolheríamos uma terriola num território insignificante do Império Romano. E também seria pouco provável que a nossa escolha para a liderar fosse um bebé, nascido num estábulo, filho de um carpinteiro.

E, contudo, foi assim que aconteceu. O nascimento de Jesus nas palhinhas de Belém resultou numa tal revolução que, literalmente, divide o tempo. Em geral, quando se diz que há um antes e um depois de tal pessoa, estamos a exagerar; mas no caso de Jesus estamos a ser bastante exactos.

O Ocidente é fruto do cristianismo. Não é por acaso que é no Ocidente que surgem os direitos humanos e a democracia. É o personalismo cristão, nascido da ideia inovadora de que o Ser Humano, por ser criado à imagem e semelhança de Deus, tem uma dignidade inerente, que faz crescer a consciência de que cada pessoa, por si mesma, independentemente do reconhecimento do poder, possui uma dignidade única.

Claro que este caminho não se fez sem dificuldades. O cristianismo eleva o homem, mas este não deixa de ser o que é: violento, avaro, egoísta. O Ocidente não é a civilização perfeita, mas é a civilização que lutou por o ser (por sê-lo?). Fizemos tantas guerras e injustiças como os outros; a única diferença é que lutámos para que estas acabassem. Por isso foi no Ocidente que primeiro acabou a escravatura, que surgiu a democracia e se afirmou o primado da lei e da dignidade humana.

Também não é por acaso que a Revolução Científica começa na Europa. A verdade é que o velho continente, no século XVII, não era a civilização mais avançada de sempre. A Roma clássica, o antigo Egipto, a China ou a Idade de Ouro islâmica tinham sido tão ou mais avançadas. A grande diferença, que permitiu dar o salto para a Revolução Científica, foi a noção cristã de que o mundo tinha sido criado segundo uma ordem compreensível à razão humana. Enquanto outras civilizações concebiam um mundo fruto do acaso ou do capricho dos deuses, a civilização cristã acreditava num mundo criado por um Deus que se submetera à razão.

O mundo ocidental, que influencia grande parte do globo, é filho dessa cultura, que teve o seu início nas palhinhas de Belém. Mesmo aqueles que hoje renegam essa herança fazem-no trabalhando com conceitos que são, eles próprios, herdeiros dessa mesma tradição.

Quem está de pé, cuide de não cair

Embora seja considerado inconveniente dizê-lo, é difícil não reconhecer as vantagens da civilização ocidental, como aliás atestam os fluxos migratórios que tanto debate têm gerado ultimamente.

O Ocidente, com todos os seus defeitos e limites, continua a ser não apenas uma sociedade rica, mas também — e talvez sobretudo — uma sociedade que respeita os direitos humanos, o primado da lei e as liberdades individuais. E isto, que para nós parece simples, para muitas pessoas provenientes de outras culturas é algo de extraordinário.

Contudo, existem sinais de alarme que convém não ignorar. A sociedade nascida do cristianismo afasta-se cada vez mais dele. E, à medida que se afasta, assistimos também à sua decadência, ainda que gradual.

Hoje, o respeito pela dignidade humana, sobretudo daqueles que ainda não nasceram, é cada vez mais violado. Também a liberdade de pensamento e de religião se vai erodindo perante os novíssimos direitos, que proclamam a liberdade de cada um ser do género que lhe apetecer, perseguindo todos aqueles que ousam dizer o contrário.

Não menos alarmante é a forma como tem subido o tom do discurso contra os migrantes, sobretudo os provenientes de países mais pobres. Qualquer razoabilidade sobre política migratória se esvai perante a forma desumana como os populistas de direita falam de pessoas tão dignas como nós. E os migrantes são apenas um dos temas que marca o crescimento do ódio, à esquerda e direita, como argumento político.

Até a voragem da inovação tecnológica parece ter-se alheado da razão. Entregue à digitalização e à inteligência artificial, o Ocidente vai-se esquecendo de utilizar a razão, convencido de que o progresso é contínuo e não pode ser travado. A mesma tentação de tantos impérios dos quais hoje apenas conhecemos as ruínas.

O Regresso à Gruta de Belém

Mas, assim como o progresso não é imparável, a decadência não é uma inevitabilidade.

Se o Ocidente parece afundar-se no niilismo, no relativismo, no fanatismo, no ódio e no populismo — deitando borda fora a civilização baseada na dignidade humana, nas suas liberdades, na razão e no Direito que o cristianismo construiu — o farol que ilumina as trevas permanece sempre presente.

Hoje, tal como há dois mil anos, um Menino nos é dado. Se Deus encarnou num local e num momento específico da história, continua eternamente a oferecer-se ao homem. Por isso, hoje, tal como há dois mil anos, é possível fazer como os sábios do Oriente, que seguiram a estrela e, chegando ao presépio, adoraram o Deus Menino. E esta é a grande revolução do Natal, que acontece ainda hoje: o Verbo fez-Se carne e habita entre nós.