Vamos lá a umas quantas questões simples que ajudarão a definir a sua semana e a sua vida “cronometrada”, do trabalho ao entretenimento ou ócio.

A sua semana, como a de todos, tem inexoravelmente 24 horas x 7 dias = 168 horas.

Vamos imaginar que não quer trabalhar ao fim de semana. Reduza 48 horas e terá 120 horas em 5 dias da semana.

Se nesses dias trabalhar 10 horas por dia somará 50 horas.

Se nesses dias dormir 7 horas por dia somará 35 horas.

Se nesses dias despender 3 horas por dia em refeições e breaks, pequeno-almoço, almoço, jantar e um qualquer snack somará 15 horas.

Se nesses dias consumir 1,5 horas por dia no trânsito somará 7,5 horas.

Por esta altura terá um total de 107,5 horas. Faltam 12,5 horas para preencher o total das 120 horas.

Ok, ok, passará 5 horas por semana a fazer ginástica. Uma hora por dia. Exceção para o fim-de-semana.

O trânsito para ir e vir ao ginásio já está incluído no valor anterior que referia o tempo despendido no trânsito.

Vá lá, mais meia hora por dia para tomar banho e vestir-se. Seja no ginásio, seja na sua casa de banho. E pronto, mais 2,5 horas. O total desta última contabilização, ginásio e arranjo pessoal, ascende a 7,5 horas o que, com as anteriores 107,5 horas dará 115 horas.

Faltam 5 horas. Precisamente 5 horas. Há que pensar, então, o que quer exatamente fazer com elas.

Assuma agora que nas 48 horas que tem de fim-de-semana cabe tudo o que é lúdico e, também, tudo o que não cabe neste artigo.

Depois procure algures na net: “Warren Buffett, Oprah Winfrey and Bill Gates all use the 5 hour rule”.

E pergunte-se a sim mesmo de que regra se estará a falar!?

Michael Gladwell (2008) já em tempos tinha proposto, em Outliers (ISBN 978-0-316-01792-3), que para ser um perito numa determinada área era necessário, de alguma forma, passar a barreira das 10.000 horas de prática nessa mesma área. A coisa não foi tão evidente assim e as interpretações foram várias. Para ser um ginasta? Para ser um pianista? Para ser um cantor? Em todo o caso, sempre dependentes da área em que se quereria ser perito, dependentes da pessoa, dependentes das circunstâncias.

Não obstante, o que quer que fosse que Gladwell queria com isto era dizer que é preciso esforço, empenho, disciplina, trabalho. Não seria tanto a medida ou o número dez mil, em horas, que se queria referir. Talvez antes a necessidade de ultrapassar uma barreira para poder dar um contributo numa dada área.

No entanto, como em tudo, convém fazer e conta. 10.000 horas em anos de 250 dias úteis de 10 horas de trabalho por dia dará nada mais nada menos que 4 anos. Ou seja, grosso modo, seriam necessários 4 anos de intensa atividade numa dada área para que se pudesse considerar alguém capaz de ser chamado – talvez ainda modestamente – de perito nessa área. Afinal de contas, e para dar um exemplo que conheço, 4 anos de dedicação plena é o que normalmente leva a fazer um doutoramento. E está-se sempre tão longe de se saber o que quer que seja…

Mas o que é, então, a regra das 5 horas? Houve quem analisasse padrões comuns às vidas de Elon Musk (criação e participação na PayPal, SpaceX ou, mais que tudo, na tão famosa Tesla), Warren Buffet (criador e diretor do conglomerado Berkshire Hathaway Inc.), Bill Gates (co-fundador da Microsoft), Mark Zuckerberg (co-fundador do Facebook) ou Oprah Winfrey (proprietária de media, produtora, apresentadora e filantropa), entre outros, e chegasse à conclusão que despendiam em média um montante de horas semanais para se manterem, digamos, atualizados. À parte de todas as outras horas que já foram contabilizadas. Por dia estas pessoas que o mundo conhece (ou reconhece) como célebres e capazes de grandes contributos despendem, em mádia, uma hora por dia no que se designa por prática deliberada de aprendizagem.

Essas horas de prática deliberada de aprendizagem revestem-se de A. Leitura, B. Reflexão, C. Rápida Experimentação.

Por Leitura entenda-se leitura instrutiva. E neste capítulo existem desde empresários e homens de negócios que leem 2 (Mark Kuban, co-fundador da Home Depot) a 3 horas por dia como há aqueles que leem 6 livros por semana (David Rubenstein, financeiro e filantropo). Oprah Winfrey atribui aos livros a sua passagem para a liberdade pessoal. Dan Gilbert, dono da Cleveland Cavaliers, umas das mais importantes equipas da NBA, lê 1 a 2 horas por dia.

Em todos estes casos parece estar-se a falar de leitura instrutiva. Não de redes sociais ou de horas em sites de jogos ou de diversão. Ou seja, leitura suscetível de criar efetivo conhecimento.

Por Reflexão entende-se pensar, tempo para apenas e só pensar e relacionar. Brian Scudamore (fundador e CEO da O2E Brands) é tido como investindo 10 horas por semana apenas para pensar. O CEO do Linkedin (Jeff Weiner) investe 2 horas por dia para pensar. Há ainda quem, para este pensamento, use instrumentos de gestão. Árvores de causa-efeito para determinar as origens de um determinado erro, por exemplo. Ray Dalio, investidor, usa este approach e torna-o partilhado e público para a sua equipa sempre que comete um erro. Há ainda quem passe o pensamento a escrito com notas sobre aspetos negativos ocorridos e os resultados positivos e a forma como foram atingidos. É o caso de Sara Blakely (fundadora da Spankx), multimilionária, que guarda em mais de 20 notebooks todo este tipo de apontamentos.

Por Experimentação Rápida entende-se, precisamente, a experimentação, tout court. Thomas Edison foi talvez o caso mais acabado da experimentação e de invenção. É considerado o maior inventor de todos os tempos (fonógrafo, cinematógrafo, aperfeiçoamento do telefone, aperfeiçoamento da máquina de escrever, dictafone e microfone de grânulos de carvão e, mais que tudo, a lâmpada incandescente). Registou, nada mais nada menos, do que 2.332 patentes. E talvez seja, digo eu, o precursor em massa do que hoje se designa por scrum (agile approaches).

Conclusão. Pense em retirar ou alocar 5 horas por semana para ler, pensar e experimentar. Será tão importante este tempo como o tempo que despende para estar fisicamente em forma. Será tão importante este tempo como qualquer momento de descanso. É a fronteira, a das 5 horas, que separa a) a capacidade para se manter em aprendizagem e lúcido quanto ao que pretende – construindo uma visão e objetivos – do b) limiar do ócio e do deixar-se ir com a vida – acabando por se entregar à procrastinação e ao desfoque total. Portanto, pense nisso, 5 horas por semana – mas sem limites – é talvez o que o separa de uma pessoa preparada intelectualmente para os desafios que se lhe colocam. Com uma ressalva: Nenhum caminho por caminho, nenhum limite por limite (frase atribuída a Bruce Lee, que foi instrutor de artes marciais, filósofo, ator e cineasta; morreu aos 32 anos de idade na sequência de um edema cerebral agudo em reação a determinados analgésicos musculares).

Professor Catedrático – NOVA SBE – NOVA School of Business and Economics, crespo.carvalho@novasbe.pt