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Lucky Luke fumava. Agora tem uma palha entre os dentes. A palavra “nigger” foi substituída pela palavra “slave” nas Aventuras de Huckleberry Finn. Por enquanto, as pirâmides do Egipto e o Padrão dos Descobrimentos permanecem de pé — mas não sei durante quanto tempo, afinal, umas resultam do trabalho escravo, e o outro homenageia a apropriação do mundo por via marítima, subsidiada pelos valores quatrocentistas. Porém, com os impostos do tabaco que Lucky Luke já não fuma, os Estados continuam a financiar serviços fundamentais, mesmo de saúde. A palavra “nigger” é dita entre negros, como forma de tratamento, ainda que mais nenhuma etnia a possa pronunciar. E o racismo existe, a escravatura existe. No nosso país como noutros: do tráfico de mulheres ao de imigrantes ilegais que vivem em condições infra-humanas em explorações agrícolas ou industriais.

Estes que propõem o arremesso de monumentos, estátuas, e extração de plantas pela raiz, são os mesmos que se indignaram, e bem, com a destruição de Palmira. Como somos, cada um de nós responsáveis pela exploração laboral em cada vez que usamos os nossos mais-que-perfeitos smart phones.

Entre quem cavalga a última questão fraturante e os que aceitam que não há inocentes, há diferenças fundamentais, como a do branqueamento através do politicamente correcto. Seja com o cigarro que passa a palha, ou com o “nigger” que passa a “slave”, isto é, seja por símbolos, por palavras, ou por comportamentos, estamos no espaço orweliano da novilíngua que, mais do que apagar a velhilíngua, apaga o homem velho, aquele que pensa, aquele que se relaciona com a verdade. A verdade como ela existe: cigarros, niggers, racismo, escravatura. E diferenças de valores, diversidade política, religiosa, étnica, sexual. E a extraordinária complexidade humana no tempo, como na história. A capacidade de cometer as piores barbáries e os actos de maior elevação.

A uniformização do bem e do mal, que também se manifesta na revisão ou na anulação da história, como na arte, na literatura, ou no ensino, tende à não aceitação da alteridade, como tão bem nos mostraram as criações sociais de Hitler e Estaline.

A democracia espelha-nos: nos nossos vícios, nas nossas virtudes, nos pecados cometidos e por cometer. Somos nós à procura do melhor de nós, co-criadores do mundo que fazemos.

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