Segunda-feira: Ballymena, ouviu falar? E de barbarização? Há vários dias e noites que nesta cidade da Irlanda do Norte se repetem os ataques à polícia, a destruição de casas e os confrontos. Habitualmente estas situações são objecto de notícias e debate com a grelha do costume: sim, poderá ter acontecido a violação – mas alegada – duma adolescente. Sim, os alegados autores da alegada violação podem ser imigrantes, no caso talvez romenos ou ciganos originários da Roménia  (desconhece-se a identidade dos detidos porque são menores mas sabe-se que o tribunal recorreu a um tradutor de romeno para recolher as suas declarações). E sim, desde então sucedem-se manifestações em Ballymena e noutras cidades irlandesas contra o crescimento da imigração, muito particularmente contra os imigrantes cuja cultura e/ou religião os levam a não respeitar as leis, os costumes locais e, não menos importante, o modo de vida das mulheres e raparigas europeias. Foram destruídas casas onde residiam alguns desses imigrantes, há relatos de quem tenha tido de fugir e quem afixe autocolantes na porta a dizer que é filipino.

Até há algum tempo eu concluiria este texto escrevendo, desembaraçada de alegadismos, que tanto os agressores da adolescente como os agressores das manifestações terão de ser confrontados com as suas responsabilidades. Mas agora há que acrescentar que os líderes políticos também têm de ser responsabilizados porque foram eles que durante anos subestimaram o impacto que teria nas sociedades que se propunham governar o rápido crescimento das populações imigrantes. Ballymena é precisamente uma das cidades da Irlanda do Norte que teve uma mais rápida e profunda alteração demográfica e é mesmo a zona da Irlanda do Norte que teve o mais rápido crescimento de população que não fala inglês ou que não tem o inglês como primeira língua.

O que estamos a ver nos motins de Ballymena ou o que vimos em França nas celebrações da vitória do Paris Saint Germain é a barbarização da Europa: quando se deixa de acreditar no poder das instituições para regular as sociedades, manter a ordem e resolver as injustiças, cada um faz o que acha que pode ou que deve.

Terça-feira: André Ventura, Lídia Jorge… Por qué no se callan? Lídia Jorge, convidada pelo presidente da República para discursar no 10 de Junho, proferiu, entre outras frases sem história, alguns considerandos históricos que a História não confirma, nomeadamente a culpabilização de Portugal por ter “inaugurado o tráfico negreiro intercontinental”. Não foi assim e é já cansativo repeti-lo. Também não se percebe onde foi desencantar a ideia de “que em pleno século XVII, dez por cento da população portuguesa teria origem africana”, a não ser que restrinja a população portuguesa à de Lisboa, cidade onde no século XVII essa percentagem terá sido atingida enquanto noutras partes do país não se vislumbrava africano algum.

Contudo o Dia de Portugal havia ainda de ficar marcado por outro patetismo histórico: André Ventura fez um daqueles vídeos para as redes sociais em que é pródigo a perguntar o que fazia o Sheik Munir nas cerimónias do 10 de Junho de homenagem aos ex-combatentes. Como recorda e explica Jaime Nogueira Pinto, o Sheik Munir estava ali porque, entre os combatentes portugueses (e às vezes entre os seus melhores, como foram os comandos africanos), se contavam milhares de muçulmanos. Parafraseando Juan Carlos: Por qué no se callan?

Quarta-feira: O nazi das quartas-feiras. Antigamente as famílias ricas e remediadas (o conceito de remediado é em si mesmo um fenómeno a merecer uma crónica) tinham o seu pobre, conhecido simplesmente como pobre. No caso de existir mais do que um pobre por casa calhava-lhe, ao pobre, ser o pobre da segunda-feira, da terça-feira e assim sucessivamente ao longo da semana, sendo que o mais beneficiado de todos seria geralmente “o pobre do Domingo” (e mais não escrevo sobre esta relação das famílias com o seu pobre e do pobre com a sua família porque o Lobo Antunes o fez magistralmente). Mas passemos à frente porque o pobre, enquanto pretexto para manifestação da superioridade moral dos ricos e remediados, deu lugar ao nazi.

Dando de barato que todas as agressões que o jornalismo-activista diz serem praticadas por nazis são de facto praticadas por nazis, não se entende como apenas as agressões praticadas pelos ditos nazis são susceptíveis de gerar comentários, indignação e preocupação. Por exemplo, no site da Presidência da República consta um texto de condenação à agressão ao actor do Teatro A Barraca perpetrada por um homem que a imprensa identificou como neonazi: “O Presidente da República falou telefonicamente com Maria do Céu Guerra, a quem transmitiu a sua solidariedade, extensiva a toda a Companhia e seus atores. Sublinhou, em particular, que em Democracia há e tem de haver liberdade de pensar e exprimir o pensamento, de forma plural e sem censuras. E que essa liberdade e esse pluralismo não podem ser calados, nem sovados, por quem discorda. Vivemos em Democracia e não queremos voltar a viver em ditadura.”

Mais não se encontra, ou pelo menos eu não encontrei (o site da Presidência nos mandatos de Marcelo tem dias!), referência presidencial ao ataque de que, pelos mesmos dias, foram objecto adeptos do Futebol Club do Porto, dois dos quais foram feridos com gravidade, e muito menos referência a qualquer telefonema do presidente para o Estabelecimento Prisional do Porto (Custóias) onde um preso foi torturado por outros três detidos. Valha a verdade que nem no governo nem na oposição se sentiu necessidade de explicar ou pedir explicações pelo facto de, na noite em que estas violências tiveram lugar, estarem menos de 20 guardas prisionais de serviço na prisão de Custóias onde cumprem pena 940 reclusos. E segundo o Correio da Manhã “domingo e segunda-feira, dia em que ocorreram os distúrbios, a cadeia de Custóias foi chefiada por um guarda principal. Não estavam chefes de serviço.”

Mas, pronto, como não havia o nazi da quarta-feira ou doutro dia qualquer não houve comoção nem intranquilidade. Tal como provavelmente não haverá no homicídio do merceeiro assassinado diante da mulher e das filhas no Feijó esta sexta-feira, caso não se descubra uma motivação racial nos três tiros disparados por dois jovens “com idades entre os 16 e os 17 anos” (como se sabe a idade deles se fugiram?) sobre o “homem de 44 anos, natural do Bangladesh”, durante um assalto.

(A ministra da Juventude, Cultura e Desporto condenou, como lhe competia, a agressão ao actor do Teatro A Barraca. Jornais, rádios e televisões davam conta dessa condenação. Procurei e não encontrei condenação alguma da ministra à agressão dos adeptos portistas, o que tendo em conta que Margarida Balseiro Lopes também é ministra do Desporto tornava o caso ainda mais grave. Dei conta desta minha estranheza na Rádio Observador. Prontamente fui esclarecida que a ministra tinha condenado ambos os casos pelo twitter. Não tenho nada contra o uso do twitter mas manifestamente não chega. Eu não tenho nem quero ter. O uso das redes sociais é uma opção não é uma forma de comunicação oficial. )

Quinta-feira: O calendário de eventos da Fectrans é o Pirelli a que temos direito. Ou do Advento ao contrário. Como é que eu vivi estes anos todos no desconhecimento do calendário de eventos da Federação dos Sindicatos de TRANSPORTES e COMUNICAÇÕES – FECTRANS? Diria que o calendário de eventos da FECTRANS é o Pirelli a que temos direito o que até viria muito a propósito porque se trata de uma marca de pneus que se promove através de calendários com fotografias esplêndidas de mulheres ainda mais esplêndidas. Mas como ainda não recuperei do susto da fase diversidade e inclusão dos calendários Pirelli opto por recorrer à imagem do calendário do Advento.  O calendário de eventos da FECTRANS é o calendário do Advento ao contrário: não dá chocolates, oferece paralisações, pois na linguagem da FECTRANS um evento é uma greve, um plenário… ou um daqueles eventos vários que levam a que não possamos contar com os transportes públicos como transportes fiáveis e apenas como despesa pública certa. E note-se que há eventos todos os dias. Em conclusão, desde que descobri o calendário de eventos da Federação dos Sindicatos de TRANSPORTES e COMUNICAÇÕES – FECTRANS que passei a acreditar em milagres. Nunca mais me indignarei com as greves às sextas-feiras e os plenários porque sim. O que é de admirar é que os transportes às vezes funcionem.

Sexta-feira: Teremos sempre Israel. Teremos? Israel atacou o Irão e o mundo respirou mais ou menos de alívio. Um Irão com armas nucleares é um pesadelo para todos e não apenas para Israel. Há anos que europeus, árabes, americanos… contavam que no momento da verdade os israelitas fariam o que tivesse de ser feito. O problema não é que os israelitas o estejam a fazer. O problema é que além deles mais ninguém tem capacidade militar para o fazer. Ou capacidade diplomática para impedir que se tivesse de o fazer.