1 Poder de esquerda arrasado por um Povo de direita: o fim de uma era

O que rotulamos por grande mudança histórica resume-se a uma só palavra, em rigor à troca de uma palavra (esquerda) por outra (direita). Basta que a popularização da palavra vencedora seja enquadrada por frases simples que lhe passem a conferir um valor sentimental que antes não existia, não era relevante ou não era assumido («Sou de direita!», «Tenho orgulho em ser de direita!»). O psicólogo social Serge Moscovici designou esse tipo de palavras-chave significativas «themata», explicando ser a partir delas que as sociedades mentalmente se (re)organizam.

Com as últimas eleições legislativas, a palavra «direita» regressa qual arma cívica e cultural temível por marcar a rotura inequívoca com o pensamento hegemónico que existe («ser de esquerda») e, em simultâneo, por assegurar a transição da insatisfação popular para uma nova era de pensamento social ou de senso comum. Vivemos dias extraordinários.

Pela primeira vez desde o 25 de Abril de 1974, os resultados das eleições do passado dia 18 de maio de 2025 fecharam um ciclo e confirmaram a abertura de outro. Atarantados, os (ainda) donos do poder (políticos, académicos, jornalistas, comentadores, artistas e associados) perderam em definitivo capacidades de resistirem à renovação em marcha do pensamento social. A palavra «direita» regressa às ruas apostada em chocar de frente e não desistir enquanto não vencer em toda a dimensão humana (moral, racional, cívica, eleitoral) o poder hegemónico instituído, há meio século, pela divinização da palavra antónima «esquerda».

Logo, historicamente o poder nasce e morre pela força de uma só palavra. A realidade é cruelmente simples. Todavia, um povo apenas se impõe a si mesmo a renovação do seu pensamento quando aquilo que ignorava ou considerava inapropriado ou inabitual («ser de direita»), como que de repente (em modo de epifania) ganha renovado valor moral, racional, cívico, justo e protetor da sua dignidade humana.

2 «Cristo»: uma só palavra transformadora do pensamento de povos e civilizações

Recorro ao modelo dos modelos. No decurso dos primeiros séculos da nossa era, a palavra «Cristo» (ou «Jesus Cristo») – com tudo o que significa de racional, emotivo e afetivo – à medida que foi sendo acolhida no senso comum gerou a renovação profunda do pensamento de diversos povos. Tal ocorreu em torno do que então se passou a interpretar, na vida quotidiana, como diferente do passado e presente e, em simultâneo, com valor humano, digno, justo, bom, inteligente, pacífico, próspero.

Regra própria da altivez de quem manda, o poder da época não atribuía valor ou poder social ao significado da palava «Cristo», mas acabou por não resistir à massificação da renovação do pensamento popular. Esse processo é tanto mais eficaz quanto mais a palavra-chave tem valor além de um momento, circunstância, comunidade, povo ou país.

Por outro lado, Serge Moscovici explicou também que, ontem como hoje, as sociedades não criam nada do zero, limitam-se a transformar o velho em novo e o novo em velho, e isso é profundamente original. Cristo limitou-se a reinventar a religião judaica, à época já milenar, de propriedade exclusiva de um só povo eleito pelo seu Deus único, os judeus, numa crença universal, isto é, impôs que todos os seres humanos também fossem filhos desse Deus único. Com isso, Cristo não «roubou» nada à religião judaica, antes renovou-a profundamente na sua originalidade.

3 A fraude moral de 1974: o cravo que escondeu o sangue   

Em 1974, a mesma categoria de fenómeno de renovação do pensamento aconteceu com o sujeito coletivo português. Foi quando a conceção de senso comum de «virtude» foi profundamente reinventada em torno da palavra «esquerda» e da expressão orgulhosa «Sou de esquerda!», com tudo o que significam.

O problema é que esse poder no seu ato fundador jogou para debaixo do tapete um amontoado de lixo imoral. Depois andou meio século a dissimular que a «Revolução dos Cravos» foi a mais pacífica de sempre, quando foi justamente o inverso. Refiro-me ao êxodo de cerca de meio milhão de portugueses de África no final do império ultramarino, sobretudo entre 1974-1975. Tratou-se da expulsão sumária de crianças, mulheres, idosos, homens em condições desumanas, brutais, violentas.

A revolução d’Abril legou um rol de barbaridades que o regime desde o início escondeu, desvalorizou, silenciou, mentiu sobre a sua gravidade, dimensão, responsabilidades. Estão em causa expropriados, presos sem culpa formada, queimados vivos, mulheres e crianças violadas, assassinados, corpos esquartejados e demais martírio bíblico de portugueses como todos os outros. Essas dores coletivas nunca são deixadas impunes pela alma humana. Junte-se a destruição, até hoje irreparável, do melhor ciclo de prosperidade e estabilidade social de sempre de África, e um legado de guerras civis pós-coloniais apocalípticas com bem mais de três milhões de mortos. Sobre tudo isto, o Pilatos Abrilista lavou as mãos.

Um regime «orgulhosamente de esquerda» nascido de tamanha fraude moral e histórica só podia gerar o inevitável: meio século a acumular a humilhação e destruição da identidade nacional portuguesa, corrupção, falência de instituições, empobrecimento coletivo, imigração ilegal nefasta, criminalidade crescente e outros males imparáveis. Com tal podridão moral sempre a acumular-se, nas eleições de 18 de maio de 2025 os portugueses mostraram que o fedor já é insuportável, é preciso limpar a fundo o que está por cima e debaixo do tapete do regime para salvá-lo.

«Ser de esquerda» significará socialmente, cada vez mais, ser antiportuguês, desumano, corrupto, incompetente, destruidor de instituições e da economia, falhado, falsificador da história, ignorante e o resto de negativo. Quando um sujeito coletivo assume esse tipo de consciência (portugueses), afasta-se desse referente do pensamento quotidiano (esquerda) para se aproximar do que não se confunde com ele (direita). Qual a novidade?

4 A palavra «direita» volta às ruas: Salazar nunca mais será problema.

Como a natureza humana tem horror ao vazio, as expressões «sou de direita» ou «tenho orgulho em ser de direita» selarão a renovação do pensamento do sujeito coletivo português nas próximas gerações, a reforma das reformas.

Acrescento que o poder renovado da palavra «direita» resulta da sua integração num contexto mundial abrangente (semelhante mudança do pensamento social ocorre por toda a Europa, EUA, Argentina, entre outros territórios) e, não menos, por se filiar a um passado histórico nacional relativamente próximo (anterior a 1974), a reinvenção de uma continuidade que garante a projeção no futuro. Na sua liberdade e autonomia, depois a própria sociedade portuguesa encarregar-se-á de fazer justiça renovada a tudo o que de «bom» e «mau» tem sido a «direita», do passado ao presente.

Neste ponto, a herança de Salazar é incontornável. Porém, basta recordar Marquês de Pombal para resolver o assunto. Quando o último abandonou o poder, em 1777, era o homem mais odiado em Portugal. Um século depois, passou a merecedor de inúmeras homenagens no balanço entre as virtudes e defeitos da governação pombalina (1750-1777). Não é necessária qualquer bola de cristal para saber que com a governação de Salazar (1928-1968) acontecerá o mesmo. Está diante dos olhos.

Portugal mudou em definitivo pela lucidez da luta de André Ventura e do Chega, que continuarão a crescer eleitoralmente. Está aberto um novo tempo histórico. Ainda bem!