Ao cabo de vários anos e apesar de ter perdido votos em relação às eleições anteriores, o ambicioso líder do Partido Socialista Operário Espanhol-PSOE, Pedro Sánchez, parece ter conseguido uma engenhosa maioria parlamentar graças à cumplicidade do Podemos, que nunca desistira de assediar o PSOE, embora também tenha perdido votos desde as anteriores eleições. Em vez de o PSOE se aliar ao Partido Popular, formando uma base centrista claramente maioritária (120+88=208 deputados em 350), Sánchez e Iglésias, líder do Podemos, só conseguiram uma maioria relativa de 165 deputados que se fica dependente da preocupante «abstenção» dos independentistas catalães do histórico partido da Esquerda Republicana Catalã (ERC).

Sánchez sabe que o governo que se propõe formar está preso por cordéis e que, neste momento, já terá provavelmente perdido votos, além de mobilizar os partidos da direita contra o PSOE. Com efeito, a investidura foi garantida com apenas 165 votos a favor, provenientes do PSOE (120), Podemos (35), Más País (antiga fracção de Podemos liderada por Iñigo Errejón) e uma série de pequenos partidos regionais, como o PNV (basco) e Compromís (catalanistas liderados pela presidente da câmara de Barcelona, Ada Colau), assim como Nueva Canarias, BNG (galego) e Teruel Existe. Dito isso, o governo depende na realidade da abstenção decisiva de 13 deputados catalães (ERC) e 5 da esquerda basca (Bildu).

Ao contrário de algumas interpretações recentes no jornal «Público», a laboriosa aliança em vias de se concretizar em Espanha, embora tenha procurado imitar a fachada social e o «politicamente correcto» da «geringonça» portuguesa, pouco tem que ver com a nossa, excepto na mesma insaciável vontade de poder com tudo o que isto significa, como os portugueses já conhecem da propaganda e dos abusos do PS.

Em contrapartida, um outro autor parece não se dar conta que o fantasma da guerra de Espanha, que ele próprio evoca, é uma ameaça grave, no mínimo simbólica, à estabilidade do governo, bem como à integridade territorial do país posta em causa pelos independentistas. Com efeito, um governo dividido ao meio frente à questão territorial constitui uma receita óbvia para acicatar os fantasmas da guerra civil, incluindo a questão religiosa, como demonstra aliás a obrigatória alusão a «uma maior separação entre Igreja e Estado»!

Ora, o que acontece, tanto no plano territorial como no plano partidário, é que o governo Sánchez, a meio caminho entre o tecnocrático e o ideológico, reproduz as «causas» de uma esquerda frustrada, que perdeu à nascença a capacidade de gerir os conflitos territoriais bem como as questões sociais, nomeadamente no seio da UE. Se Portugal teve de esperar até 1985 que a Comunidade chegasse ao termo das negociações com Espanha para nós podermos aderir também à Europa em busca de protecção contra as nossas divisões internas, agora é a Espanha que se encontra nessa situação.

No primeiro referendo da Constituição espanhola, cujo equivalente nós nunca tivemos oportunidade de votar, os Catalães foram os que mais aderiram ao traçado territorial federalizante da Constituição, traço que o nosso sistema nunca teve! No plano das verbas distribuídas às autarquias, Portugal é o que menos recursos transfere para a periferia e Espanha a que mais transfere.

Ao contrário do que espera o autor do primeiro artigo citado, são tudo menos «bons ventos» que de lá virão. O autor calcula que a constante pressão populista do partido liderado pelo marido e pela esposa – estou a referir-me ao Podemos, que vai ter os dois como ministros – desestabilizará permanentemente o PSOE, que não possui parada para a desvergonha do Podemos… Em compensação, hoje é evidente que António Costa e a sua multidão de colaboradores estão preparados para lidar com as débeis pressões dos «esquerdistas», incluindo o PCP. Já não é surpresa que Louçã e os seus pupilos vendam a alma por um lugar no Conselho de Estado e uma vice-presidência do Banco de Portugal. Em contrapartida, o PCP ainda possui um resto de autonomia com que terá de se defender contra a aliança populista.

Em contrapartida, suspeito que o PSOE, devido às suas raízes debilitadas nas classes sociais mais baixas e a sua entrega a uma nova classe média diplomada antifranquista, terá enormes dificuldades em lidar com a desfaçatez do Podemos. A ser assim, a artificial ponte que Sánchez e Iglésias tentarão lançar à maneira do PS lusitano terá poucas «chances» de ir por diante. Numa procela ibérica no seio da UE, a Espanha valerá sempre qualquer coisa como dez ou mais «portugais»…

Entretanto, se todos nos recusamos a imaginar outra «guerra de Espanha», nem por isso deixam os ingredientes do brutal confronto de 1936-39 de estar todos reunidos frente a frente: o nacionalismo centralista e os nacionalismos independentistas; os pobres e os ricos a representar o bem e o mal; e as antigas retóricas da religião vs comunismo!