Até agora, os dois grandes partidos políticos espanhóis e os seus respectivos grupos extremistas ainda estão a competir ultimamente pelos votos aparentemente marginais dos «independentistas» que dêem o poder a um ou outro dos dois blocos – vulgo «direita» e «esquerda» – de forma a orientar o futuro de Espanha. Todos, incluindo o rei, têm até agora fingido ignorar, pelo menos em público, o que possa haver de radicalmente diferente entre um e outro dos dois grandes grupos, limitando-se à tradicional divisão entre «direita» e «esquerda» na União Europeia…

Com efeito, não se trata apenas de reunir mais ou menos deputados eleitos pelos dois grandes grupos políticos opostos, em princípio respeitáveis mas cada um deles com um apêndice muito pouco respeitável que vivem da ideologia em vez de servir o país. O vencedor foi o par PP+Vox com 170 deputados eleitos vs PSOE+Sumar com 152. O primeiro bloco situa-se à «direita» e o segundo à «esquerda», como se tais pares designassem cristalinamente as divergências entre eles. Tão importantes política e historicamente como esses dois grupos, acrescem 28 deputados eleitos por pequenos partidos regionais, em especial os Catalães e os Bascos com as suas peculiaridades históricas, de forma a aderirem a um ou outro (ou nenhum) dos dois blocos citados a fim de constituir uma eventual maioria governamental ainda por confirmar.

Ora, são sete os chamados ‘pequenos partidos regionais’ à escala espanhola, somando no conjunto 28 deputados, mas o mais relevante é notar os 14 votos provenientes dos partidos Catalães e os 11 do País Basco, que são aqueles que têm tido, ao longo da democracia espanhola, mais conflitos com o resto dos parlamentares, nomeadamente no que respeita não só às suas vantagens comparativas sócio-económicas, bastando notar o PIB per capita das duas regiões mais ricas de Espanha, bem  como os trajectos independentistas ambicionados por alguns destes partidos e/ou deputados! Acrescem, finalmente, os deputados de cada um dos três outros partidos regionais. Daí resulta que o bloco PSOE+SUMAR terá de obter mais de 20 dos 28 eleitos regionais a fim de alcançar a maioria parlamentar…

O calejado líder socialista Pedro Sánchez (PSOE) conta arrebanhar os votos do chamado grupo esquerdista SUMAR, como se a retórica «esquerda-direita» absorvesse todas as variantes que possam existir fora desse limitado campo ideológico. Contudo, se consultarmos os resultados finais das eleições deste ano (votaram cerca de 2/3 dos eleitores), os votos destes dois grupos eleitos pela «esquerda» seriam insuficientes para assegurar a maioria absoluta contra o bloco eleitoral de «direita» constituído pelo PP+Vox (45,6%), deixando perto o bloco menor (43%).

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Na realidade, desde a votação até hoje, passaram já mais de dois meses e ainda não se sabe qual dos dois blocos ganhará a eleição. Em princípio, não será o «bloco de direita»: já foi a votos na primeira assembleia e perdeu. Dito isso, o «bloco de esquerda» também ainda não porque precisará, em princípio, de conceder aos numerosos grupos locais, sobretudo na Catalunha e no País Basco mas não só, numerosas concessões materiais e, mais delicado ainda do que isso, concessões políticas e simbólicas no sentido da emancipação territorial, para não dizer «independentista», de alguns agrupamentos partidários bem conhecidos.

É o caso dos Junts per Catalunya mas porventura também dos partidos bascos que, depois de terem dito «não» ao presidente do Partido Popular, poderão preferir não se entregar às promessas que o PSOE e os «esquerdistas» terão igualmente a maior dificuldades cumprir perante as maiorias regionais espanholas.

E com esta última observação, é hora de remeter os leitores portugueses para as profundas divergências regionais – ou «nacionais», «culturais» e «linguísticas», como muitos crêem e desejam – entre várias das grandes regiões históricas espanholas como o País Basco e a Catalunha, mas não só. A Galiza também e até a Andaluzia a seu modo. Quanto a Portugal, também foi sujeito mais de uma vez às pretensões unificantes de Espanha. Não é hora, pois, de entrar neste último aspecto de uma «unificação ibérica» que a Inglaterra nunca quis e não deixou implantar até à actual «União Europeia»…

Se a literatura portuguesa não é escassa a este respeito e temos sido muitos, ao longo dos séculos, a sentirmo-nos «parte» da história da Península Ibérica, não o é menos a literatura espanhola que falou – pró-bem e pró-mal –ontem, hoje e porventura amanhã voltará a fazê-lo, acerca das sucessivas «Duas Espanhas», brilhantemente comentadas por escritores como Ortega y Gassett e que o falecido Santos Juliá há pouco tempo aprofundou.

«Duas Espanhas» ora históricas, ora progressistas; ora reacionárias, ora revolucionárias; ora pacíficas, ora não só turbulentas, como levadas à guerra civil (1936-1939), que toda a gente em Espanha prefere não ter em mente… Neste sentido, não se trata portanto de uma mera votação nem do governo que venha a sair de uma próxima tentativa: vai muito mais longe do que isso.