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O ano do Processo de Degradação em Curso (PDC) /premium

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No PREC os amanhãs cantavam. No PDC os amanhãs só querem voltar a ser ontens. No PDC, o "Capital" deu lugar ao "Ó Tempo Volta Para Trás/ traz-me tudo o que perdi" e assim "repor" é palavra de ordem.

O que de mais relevante nos aconteceu em 2018? O Processo de Degradação em Curso mas o Prémio Símbolo Político do Ano vai para esse enigma que é o presidente da câmara de Borba.

Símbolo político do ano: o autarca de Borba, António Anselmo.

Desde que a 19 de Novembro de 2018 ruiu a EM255 que vem em crescendo a minha curiosidade pela figura de António Anselmo, presidente da câmara de Borba.  Tenho aliás de admitir que com António Anselmo surgiu outra forma de estar na política: António Anselmo não se defende dizendo que não teve acesso aos documentos. Pelo contrário explica que os teve mas nunca olhou para eles. Estranho? Talvez mas mesmo assim não tão estranho quanto após a morte de cinco pessoas na derrocada de estrada  António Anselmo ter-se declarado “orgulhoso do Estado por o Governo ter anunciado que vai avançar com o pagamento de indemnizações às vítimas da queda da estrada 255 em Borba”.

António Anselmo não diz que desconhecia da degradação da EM255. Declara simplesmente que sabia mas que o deviam ter avisado outra vez. Sendo certo que ele, António Anselmo, terá sido avisado pelo menos duas vezes: uma primeira, pelos empresários dos mármores. E uma segunda vez numa reunião com a Direcção Regional da Economia. Estava-se em 2014. Pelo meio ainda aconteceu uma assembleia municipal em que o assunto foi tratado. Passaram quatro anos em que a Câmara de Borba não tomou qualquer medida e nem sequer fez aquilo a que se tinha proposto: organizar uma reunião entre a Direcção Regional da Economia, os autores dos estudos sobre a estrada, os empresários de mármore da zona e utilizadores da EM255.

Em Novembro de 2018, a estrada ruiu. Morreram cinco pessoas. E eis que António Anselmo declara a naquele seu particular vocabulário em que culpa e desculpa se anulam: “Ainda não olhei para esses documentos. Digo isto sem qualquer tipo de desculpa. Entretanto passou [o tempo] e mais ninguém me disse nada.” Portanto em quatro anos, o presidente da Câmara de Borba, nunca olhou para os documentos que lhe indicavam estar em risco uma estrada municipal sob sua responsabilidade? Então olhou para quê? E ainda tem o desplante de afirmar “ mais ninguém me disse nada”?

Vamos lá ao que interessa: onde nasce a tolerância para com este homem? Com ele não se incendeiam as redes sociais sempre tão inflamáveis? Não há indignações virais?  Seja qual for a explicação e até pelo facto de ninguém a ter pedido, António Anselmo é o símbolo político de 2018.

Facto político do ano: o Processo de Degradação em Curso (PDC).

No PREC os amanhãs cantavam. No PDC os amanhãs só querem voltar a ser ontens. No PREC o marxismo anunciava a futura sociedade sem classes. No PDC, o “Capital” deu lugar ao “Ó Tempo Volta Para Trás/ traz-me tudo o que perdi” e assim “repor” e “descongelar” são os novos verbos desta luta não por construir um futuro mas sim por prolongar o passado. No PDC o socialismo tornou-se situacionismo e a nova Zona de Intervenção passou da Reforma Agrária para a máquina administrativa do Estado: a terra agora é de quem calha mas o Estado tornou-se propriedade das suas corporações que há meses se engalfinham na luta pelos recursos existentes.

Mal uma reivindicação é satisfeita logo outras surgem. Todos os dias chegam anúncios de mais greves. para este início de 2019, temos as greves dos enfermeiros dos blocos operatórios, dos enfermeiros em solidariedade para com os enfermeiros dos blocos operatórios, dos guardas prisionais, oficiais de Justiça, juízes, magistrados do Ministério Público, professores… Uma consulta ao site da Direcção-geral da Administração e do Emprego Público onde estão registados os pré-avisos de greve leva-nos a uma pergunta: até quando este delírio se vai manter? E como vamos conseguir assegurar os compromissos que estão a ser firmados com os funcionários públicos? Aliás para vários ministros não parece existir outra actividade além da negociação com os sindicatos.

No Processo Revolucionário em Curso apostava-se em estatizar a sociedade. No Processo de Degradação em Curso exige-se à sociedade não estatizada que garanta os recursos para que o Estado possa gastar mais com os seus funcionários — entre 2011 e 2017, os salários médios na Função Pública aumentaram duas vezes mais depressa do que as remunerações no setor privado — e acumule camadas de burocracia

Viver um Processo de Degradação em Curso é estar permanentemente entre dois mundos: o da propaganda que nos diz que a sociedade é cada vez mais perfeita enquanto à volta tudo se vai esboroando. Que somos cada vez mais livres enquanto o patrulhamento das opiniões avança (a propósito veja-se a aplicação de uma multa pela Comissão Contra a Discriminação Racial a um deputado municipal do Porto). Que temos os melhores serviços quando eles evidentemente falham… Do PREC saiu-se através de um golpe militar. Do PDC sai-se como? E já agora para quê?

Evidência política do ano: Marcelo e António Costa já viraram a página.

Acabou o tempo do optimismo irritante do primeiro-ministro e das afectos do PR. Agora Marcelo avisa  e António Costa alerta. Aconteça o que acontecer eles serão os primeiros a não ter a responsabilidade de nada e a dizerem que em seu devido tempo avisaram e alertaram.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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