A 25 de Fevereiro de 2024, soldados das forças armadas invadiram dois locais, levando a cabo uma operação militar que resultou no assassinato de 223 civis, entre os quais 56 crianças e 4 mulheres grávidas, tendo estes dados sido confirmados pela Human Rights Watch. Este massacre foi considerado um dos piores abusos perpetrados por militares ao serviço de um Estado no século XXI, mas não foram notícia, não deram origem a manifestações ou indignações, nem à criação de milhares de tweets no X. O motivo desta ignóbil reação é simples: este massacre não foi em Rafa ou Ramalá, mas sim em Nondin e Soro no Burkina Faso.
Quando grupos de estudantes se erguem na Europa ou nos EUA por causas distantes, ganhando a cobertura mediática de uma classe jornalista complacente e conivente, quantas vezes o fazem por África? Quando universidades coloridas se inflamam em gestos solidários, quantas vezes apontam para conflitos africanos, genocídios étnicos ou fome estrutural? Quantos “coletivos” de esquerda radical se indignam pelo massacre de crianças de pele negra? A resposta é simples: nunca!
Quando uma criança morre de fome no Sudão e ninguém se indigna, o problema não é a distância: é o desprezo.
A guerra, que eclode de forma brutal no Sudão, entre o exército e a RSF já custou mais de 150 000 vidas em apenas dois anos, e colocou 11 milhões de pessoas deslocadas, num conflito definido como um dos piores desde Darfur, hoje, literalmente, trancado no silêncio global. E se o silêncio é gritante nesta guerra, que dizer da barbárie no Tigré, Etiópia, onde foram mortas centenas de milhares de pessoas e onde mães desesperadas tiveram que alimentar os filhos com folhas de árvores na tentativa de mantê-los vivos, para morrerem às mãos das armas no momento seguinte. Tudo isto sem que existisse qualquer onda de solidariedade estudantil ou ativista nos campus universitários ocidentais.
Fosse Gaza e inventariam-se hashtags, marchas de protesto e boicotes, mas quando o massacre passa por Khartoum, por Axum ou pelos campos de Darfur, reina o silêncio. Os jornalistas, doutrinados, criam narrativas de “guerras tribais” e “crises africanas típicas”, num brutal racismo editorial e ativista: as vidas negras são banais, as vidas brancas valem protesto.
Desigualdade noticiosa e ativismo sectário
O Global Peace Index, um relatório que mede e classifica o nível de paz em diferentes países do mundo e considerado o principal indicador global de paz, confirma o que todos nós sentimos: conflitos africanos, mesmo com dezenas de milhares de mortos, são ignorados pelos jornalistas, registando reportagens residuais e raras em países ocidentais ou geopolíticamente estratégicos. Quando durante a Guerra do Biafra, onde morreram, entre um a dois milhões de pessoas, o Mundo se mobilizou e criou os Médicos Sem Fronteiras, isto resultou no facto de ter sido uma das primeiras guerras a passar na televisão. Imagens de crianças em sofrimento mobilizaram a opinião pública e o Mundo respondeu. Porém, assistimos a conflitos contemporâneos no Sudão ou no Congo onde milhões morrem silenciosamente, sem que o mesmo mundo organize concertos, intervenções, hashtags ou marchas globais. Esta atitude têm a consequência de perpetuar estas mortes e leva-nos à conclusão que não é só a fome que mata em África, é, acima de tudo, o silêncio.
Quando afirmo que “O Ativismo é Racista”, não é uma provocação estética, é uma constatação. As plataformas sociais e partidárias, as marchas ou as universidades que dizem lutar por justiça ignoram sistematicamente África. As vidas africanas, negras e fora das normas das sociedades modernas, são secundárias, ou mesmo terciárias. Quando se clamou por Darfur, usaram-se celebridades. Onde estão essas mesmas vozes perante os massacres atuais? Lamento a brutalidade das palavras, mas isto não é ausência, é discriminação.
O que vimos sobre o genocídio de Tigré? Pouco eco na imprensa. O que foi escrito sobre o desespero no Sudão? Alguns artigos e poucos tweets. O que é exibido sobre as mortes ocorridas entre tribos no Congo, no Mali ou no Burkina? Nada, são totalmente invisíveis para as televisões ocidentais. Mas quando a tragédia passa pela Europa ou pela Palestina, os grupos ativistas “profissionais” revoltam-se, ruas enchem-se de lenços e tarjas, parlamentos são inundados por debates acesos e ideológicos, e discursos inflamados, e altamente xenófobos, ecoam nas praças e telejornais.
E porquê este comportamento? Porque noticiar a tragédia africana exige compromisso e desconforto. Exige assumir que o sistema atual, onde jornalistas, instituições e ativistas, apresentam um comportamento seletivo e racista. É mais fácil criar uma onda solidária com o que nos parece próximo ou contra um inimigo ideológico na busca por uma nova “guerra de classes” e implementação de uma ideologia. A solidariedade ou é universal, ou é propaganda e devemos exigir coerência. Por isso pergunto: Quantas mortes africanas são precisas para valer uma manchete ou uma manifestação?
Se o mundo chora por Gaza e marcha por Kiev, mas cala-se por Darfur e Tigré, então a solidariedade deixou de ser humana, passou a ser seletiva e racista.
Talvez o título pretenda chocar consciências. Quem celebra a liberdade de expressão, mas nada diz sobre Khartoum, não é coerente. Quem brada contra o imperialismo, mas fica em silêncio sobre os crimes de guerra na África subsaariana, está a trair a sua própria retórica.
É tempo de levantarmos a voz por África, não de forma hipócrita, sazonal ou instrumental, mas no âmago das nossas convicções. Que esta provocação sirva de alerta: o ativismo é racista se escolher a quem dá voz. E isso é tão grave quanto qualquer massacre que fingimos não ver.
Para quando uma sessão na Faculdade de Letras sobre a crise humanitária no Mali? Uma petição universitária pela suspensão de armas ao RSF no Sudão? Uma campanha de sensibilização real para a fome esquecida da África Ocidental? A urgência exige ação e a hipocrisia exige denuncia. Temos o dever moral de sair do conforto da indignação seletiva e avançar no terreno, mesmo que incómodo, mesmo que nos faça sentir culpa.
Quem levanta cartazes e pinta paredes, mas fica em silêncio por África, está a perpetuar a maior injustiça global: negar humanidade a quem morre em silêncio. O ativismo só tem valor quando é universal. Quando não escolhe famílias por cor, países por latitude e pessoas por visibilidade mediática.
Se o título o chocou, que ele sirva de ponto de partida. Que não fiquemos indiferentes à negação quotidiana da tragédia africana. E que o ato mais ativista que possamos fazer, antes de marchas ou hashtags, seja abrir os olhos, abrir os corações e fechar as agendas ideológicas, e que o façamos até que cada morte em África seja percebida como única, injusta, urgente e digna de luta global.
Termino com um dos mais poderosos provérbios africanos: “quando a morte o encontrar, que o possa encontrar vivo”. Este grito popular que encoraja à vida é destruído por um sistema onde o mundo, na sua pior versão egoísta e racista, condena um continente à morte, mesmo quando esta ainda não chegou. Que tenhamos isto muito claro e que nos mova, fechar os olhos pela cor de pele ou local de origem é racismo e isso é algo que manifestações e lencinhos ao pescoço nunca irão apagar.