E se olhássemos para trás? Se parássemos, descansando dos dias frenéticos que são os nossos, e reflectíssemos sobre a melhor forma de educar bem os nossos filhos?

E se olhássemos para trás, para o tempo em que éramos crianças e ninguém tinha ainda morrido, em que os olhos com que olhávamos os brinquedos que nos davam só viam futuro, e com ele a esperança de uma vida feliz e plena? E se, ao fazê-lo, aprendêssemos a ensinar às nossas crianças o sentido de fruir plenamente o que têm, sem alimentarmos nelas, como tantas vezes fazemos, a ambição por aquilo que nos motiva a nós, sempre mais, mais coisas, mais jogos, mais coisas, mais televisão, mais coisas, mais dinheiro, mais mais mais?

Carpe diem, diziam os antigos. Mas para a geração dos “baby boomers”, como ainda para a “geração X” – entre 35 e 50 anos em 2015 –, o dia de hoje é quase sempre o de antes do de amanhã, onde estão as coisas novas, melhores, as coisas materiais que ambicionamos, a promoção a que aspiramos, o reconhecimento que há muito nos é devido. E ao fazermos anos, um ano mais, outro ainda, desfolhando no livro da vida as páginas que nos contam, é sempre a ambição do amanhã que nos anima; a olhar para nós dos pés da cama, erigida em cartaz das nossas aspirações, a frase: amanhã triunfarás.

Houve um tempo em que festejavam os meus anos e eu era feliz. Não era eu que pagava o bolo de aniversário, nem tinha de decidir os amigos a convidar, não me preocupava com os pormenores, se tudo estava no lugar, se não teria esquecido alguém. Nesse tempo, “o tempo em que festejavam o dia dos meus anos, Eu era feliz e ninguém estava morto”.

Mas eu não sabia que era feliz e ainda menos, ainda menos, que os que festejavam o dia dos meus anos, sem pensar em si mas em mim, esses que festejavam a “tradição de há séculos” que era “eu fazer anos”, esses, seguiam uma “religião qualquer”, com uma alegria, deles e minha, que “estava certa”. E se eu não sabia que era feliz, ainda menos adivinhava – nem nisso pensava – que aqueles que assim festejavam o dia dos meus anos um dia estariam mortos.

“Eu era feliz e ninguém estava morto”. Na casa antiga, nesse tempo, eu tinha a “saúde de não perceber” nada, era feliz na minha ignorância de que eles, os que assim festejavam o dia dos meus anos, com uma alegria que “estava certa como uma religião qualquer”, tinham esperanças por mim, as mesmas que eu não tinha para mim porque não pensava nisso e, por isso, era feliz. Um livro, um beijo de mãe (e como ela celebrava o dia dos meus anos, mais do que o dela própria), o cheiro da casa velha e um bife com ovo a cavalo que era ali e então, e para sempre, o prato mais saboroso do mundo.

No dia em que festejavam o dia dos meus anos, os políticos eram todos honestos, as nossas guerras todas justas, os nossos heróis impolutos e simples. Mas isso era dantes, hoje apercebo-me já não ser o que fui “de suposto a mim-mesmo”, “o que fui de coração e parentesco”, “o que fui de amarem-me e eu ser menino”; já não o ser demonstra-o o cinismo destas palavras que escrevo, dando a entender que era assim porque eu era pequeno, e amado, e menino, mas sabendo que é mais do que isso, é porque me tiraram, porque nos tiraram, a chã confiança em nós próprios, em mim próprio. Deram cabo da minha boa-fé. Destruíram as esperanças que eu não sabia que tinha de poder viver cada dia plenamente – carpe diem, filho – sem estar à espera de um futuro melhor, sempre melhor, redentor na glória dos amanhãs gloriosos que me resgatariam. E que as coisas que podia acumular, se as acumulasse, não substituiriam nunca os dias perdidos à espera dos dias por vir.

Porque, afinal, no grito do poeta que aqui tão descaradamente plagio (mas se o não plagiar, que pecado, no dia dos meus anos!), “o que fui – ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui… a que distância!…” como ele, o ele-outro heterónimo Álvaro, “(Nem o acho…)” ao “tempo em que festejavam o dia dos meus anos!”. Penso, reflicto, fico acordado à noite, a imaginar um mundo diferente, pequeno, aconchegado, agora que venderam “a casa”, e todos morreram, e eu sobrevivo “a mim-mesmo como um fósforo frio…”.

E a minha mão tecla sobre um teclado de plástico que envolve coisas misteriosas como circuitos e transístores, e recordo o tempo em que escrevia com lápis de cor e desenhava histórias bonitas, de esposos que se amavam para sempre, de empregos que eram vias abertas e desimpedidas, e da família, aqueles que celebravam o dia dos meus anos sempre à minha espera sempre à mesma esquina e para sempre, no mesmo dia de fevereiro, enchendo de bondade a mesa, saciados de amor, eles sempre à espera que eu descobrisse na vida o oculto sentido disto tudo: uma promoção, o carro novo, a casa paga a prestações. Um euro mais.

Sobrevivo “a mim-mesmo como um fósforo frio”, escreveu Álvaro de Campos naquele que é sem dúvida um dos seus mais belos poemas. E eu pergunto-me o que correu mal, ou se é só o normal correr das coisas; talvez seja. É o mal da minha geração, dos “baby boomers” em decadência, da “geração X” no auge da procura; mas talvez não dos “Millenials”, com mais de 18 anos em 2015, talvez não dos adolescentes inquietos, das crianças a crescer, talvez eles, os meus filhos, talvez os filhos de todos os meus amigos, talvez voltem a reparar nas mesas com mais lugares, “com melhores desenhos na loiça, com mais copos, O aparador com (…) doces, frutas (…) as tias velhas, os filhos diferentes” e talvez mais cedo do que eu, do que nós, quando fizerem anos, vejam tudo outra vez “com uma nitidez que” cega.

Tudo mudou. As famílias já não são o que eram, a taxa de divórcios em Portugal ultrapassa os 70 por 100 casamentos. A religião já não é o que era, o Pai Natal desaparece cada vez mais cedo. Em vez de soldadinhos de chumbo, brinca-se com playstations. Não há empregos, só estágios, não remunerados de preferência porque os outros não existem. E a política, actividade exaltante e cívica que outrora consistia em defender o interesse público, tornou-se em muitos países democráticos uma caricatura de si mesma, com muitos dos que a praticam voltados para o próprio umbigo e para as necessidades e interesses particulares dos seus clãs.

Mas há esperança: os jovens hoje sabem não poder limitar-se a esperar pelo futuro, sob pena de perderem o presente; afastam-se da cultura dos pais para construir uma existência baseada na fruição diária das coisas e pessoas que os rodeiam; estão menos virados para o consumo e mais para a relação; menos preocupados com empregos para a vida, que não há, e mais para o risco, as startup e as experiências vividas; mais para ir do que para ficar. E rejeitam a política politiqueira em prol de valores partilhados, de liberdade e dignidade humana, de uma política em nome de todos, mais justa e equitativa, que é da polis toda e não apenas de quem pode.

“Ah, que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!” em que festejavam o dia dos meus anos. Ah, pudera eu “Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!”. Que raiva tenho de “não ter trazido o passado roubado na algibeira!…”.

Abuso de Álvaro de Campos, porque ele, como Pessoa, tem razão: há esperança no futuro, porque houve um passado em que festejavam o dia dos meus anos. Hoje, ao comer esse passado “como pão de fome”, aprendi que aos meus filhos devo lembrar, sempre, que é no presente, com esperança e fome de ser, que devem viver intensamente as suas vidas.

Embora na verdade não haja tempo como o tempo em que festejavam o dia dos meus anos.