(…) Moutinho ganha a bola na raça a Griezmann e o ressalto cai para o lado de William. Daí para Quaresma, de primeira para Moutinho, de primeira para Éder. Lindo. De costas para a baliza, o 9 liberta-se de Koscielny, enquadra-se com a marcação à zona de Umtiti e toma lá disto ò Lloris. Sai-lhe um remate forte, com a bola a curvar para fora. O capitão francês estica-se todo. Em vão. É o delírio da (escassa) massa associativa. Portugal acaricia o título de campeão europeu, ao 30.º minuto de Eder em campo.

E antes?

ISLÂNDIA, 1-1

A sorte bate-nos à porta no sorteio do Euro-2016 com um grupo acessível: Islândia (0), Áustria (1) e Hungria (2) não têm sequer metade das nossas sete participações. O caminho está aberto. Ou talvez não. Sem Danny, Coentrão e Bernardo, todos lesionados, os 23 de Santos merecem escassa ou nula discussão. O grupo está unido. Vamos lá cambada, todos à molhada, qu’isto é futebol total. Errrr, atenção, muita atenção, isto vai começar assim-assim. Saint-Étienne, 14 Junho. Aos três minutos, Pepe vai mole a uma bola na linha lateral e deixa-se ultrapassar por Sigurdsson. O remate do islandês é parado por Rui Patrício. Anima Portugal e ganham-se um, dois, três, quatro cantos seguidos. O golo está aí. E aparece mesmo, aos 31’. Lance entre André Gomes e Vieirinha, conclusão de Nani. Fixe bem este momento, é um dos raros de todo o Europeu em que a selecção está em vantagem. Até aos 50’, altura em que Carvalho avança, Pepe idem idem e Vieirinha aspas aspas. Aproveita Bjarnasson, 1-1. O empate deixa-nos um sabor amargo. Deixa lá, vem aí a Áustria.

ÁUSTRIA, 0-0

Santos muda o esquema e aposta em 4-3-3, com o capitão Ronaldo a 9. Do primeiro jogo com a Islândia, duas alterações: William por Danilo (o FC Porto perde o seu único representante) e Quaresma por João Mário. A Áustria é incompetente em todos os sentidos e nem sabe sair para o ataque, a avaliar pelo chouriço do guarda-redes Almer contra o corpo do central Hinteregger aos 19′ a resultar no sexto canto para Portugal. A avalanche continua em ritmo non-stop e é confrangedor ver o 0-0 ao intervalo, sobretudo depois de Nani ter acertado em cheio uma bola no poste de esquerdo de Almer, aos 29′. Na segunda parte, é pior ainda. Dos quatro remates de Ronaldo à baliza, três só não entram por obra e graça do afoito Almer, em noite siiiiiiiiiiiiiim. O outro é aquele penálti. O lance até é bem típico (bola para um lado, guarda-redes para o outro), o problema é que se intromete ali o poste. A última vez que tal acontecera num Europeu é em 2000, com o holandês Kluivert vs Itália. Porca miseria.

HUNGRIA, 3-3

De volta ao ponto de partida. Então? É assim mesmo, o nosso primeiro jogo com a Hungria, em 1926, também acaba 3-3 no Ameal (Porto). Na altura, é só um particular – que, nesse tempo, o da outra senhora, designa-se amigável. Quis o destino juntar Portugal e Hungria em Lyon na definição do grupo. Santos volta ao 4-4-2 do jogo com a Islândia e só faz uma troca à esquerda: Eliseu por Guerreiro. A Hungria, líder do grupo, dá o mote com um golo sensacional de Gera. O empate chega antes do intervalo, pelo pé esquerdo de Nani, após abertura magistral de Ronaldo. Segue-se a segunda parte e é de loucos. Quatro golos dos capitães e em 15 minutos. Dszudszák abre a torneira de livre directo, Ronaldo iguala de calcanhar, Dszudszák desempata às três tabelas, Ronaldo fixa de cabeça. Três jogos, três pontos. Com a confirmação do 2-1 da Islândia sobre a Áustria nos descontos, a selecção cai para o terceiro lugar, evita a Inglaterra em Nice e salta para o bloco de cima da tabela de jogos, sem a presença dos quatro campeões (Espanha, Itália, Alemanha e França).

CROÁCIA, 1-0

Cuidado, isto vai acabar bem, muuuuuuuuito bem. Começa o outro Euro, o da fase a eliminar. Vai daí, Santos revoluciona o onze com as entradas de Cédric, Fonte e Adrien para os lugares de Vieirinha, Carvalho e Moutinho. O meio-campo do Sporting ganha forma, que se cuide a Croácia, líder-surpresa do grupo da Espanha. Ou então não, o jogo é uma lástima. Até aos 90 minutos, cerca de zero remates à baliza. Zero, isso mesmo. No prolongamento, mais do mesmo. Que marasmo. Aos 116 minutos, a Croácia aventura-se e , imagine-se, Patrício desvia um remate de Perisic para o poste. Acto contínuo, Ronaldo rouba a bola para iniciar o contra-ataque mais surpreendente da história. A bola sobra para Renato, depois Nani. O remate deste é torto e vai parar ao segundo poste, onde Ronaldo atira sem marcação para defesa incompleta de Subasic. Na recarga, o suplente Quaresma só tem de encostar, de cabeça, quase em cima da linha de golo. Siiga, vemo-nos em Marselha, vs Polónia.

POLÓNIA, 1-1

Marselha, essa cidade maldita. No Euro-84, o Velódromo assiste à eliminação de Portugal aos pés da França com um golo de Platini em cima dos 120 minutos. Agora, outro galo cantará. Ou não? O começo é o mais desastroso possível: Cédric escorrega e abre uma autoestrada para a conexão entre Grosicki-Lewandowski, 1-0. Como é seu timbre, Portugal de Santos responde à altura. Renato tabela com Nani e enche o pé esquerdo para o golo (pormenor delicioso: na jogada anterior, Nani não devolve a bola e Renato chamara-o a atenção para esse facto). Daí para a frente, joga-se futebol sem balizas. A angústia prolonga-se até aos penáltis. Aí, somos reis e senhores com 100% de aproveitamento, algo que nos acontece pela primeira vez num desempate em fases finais: Ronaldo, Renato, Moutinho (este incentivado pelo capitão com o célebre “tu bates bem pá, tu bates bem”), Nani e Quaresma. No lado polaco, Blaszczkowski atira para o lado esquerdo de Patrício e o guarda-redes português adivinha-lhe o intento. Sobra o remate de Quaresma e o número 20 é o herói do jogo pelo segundo jogo seguido.

GALES, 2-0

A história de Gales é secular. Os rapazes jogam (entre o mal e o assim-assim) desde 1876. É a terceira selecção mais antiga do mundo, a seguir à inglesa e à escocesa – só para se perceber bem a distância de uma realidade para a outra, a primeira equipa nacional de Portugal remonta a 1921, quase meio século depois. De participações em fases finais, só uma: o Mundial-58 – só para entender bem a distância de uma realidade para a outra, Portugal acumula 13. Este Gales tem Bale e Ramsey. Um marca três golos na fase de grupos (dois deles de livre directo em jogos seguidos, algo inédito na história dos Europeus), o outro vê amarelos e está fora de cena. Aproveita Portugal para selar a única vitória do Europeu em tempo útil, cortesia Ronaldo e Nani. Sobretudo Ronaldo. Aquele voo para o 1-0 é algo de extraordinário (que o diga Chester, batido sem apelo nem agravo) e é também seu o remate de fora da área para a emenda perfeita de Nani. Tanto um como outro, somam três golos no Europeu e indicam o caminho para a final do Stade de France. Siiiiiga.

FRANÇA, 1-0

Que noite, que magia, que encanto. Portugal é campeão da Europa, graças a um golo de Éder, numa noite em que o capitão Ronaldo é substituído aos 28 minutos, por falta imprevidente de Payet. A anfitriã França carrega très bien e até poderia ter evitado o prolongamento, não fosse Patrício com quatro defesas do outro mundo e ainda o poste, num remate de Gignac em cima dos 90′. De suplente para suplente, Éder tem a palavra. Um minuto depois de Guerreiro acertar uma bola na trave, de livre directo, o número 9 português domina, afasta Koscielny e atira com o pé direito, bem de longe. Lloris reage tarde, Portugal celebra até às tantas. Que noite, que magia, que encanto. Islândia, Áustria, Hungria, Croácia, Polónia, Gales e França. Nenhuma derrota em sete jogos, três deles com prolongamento e um dos quais resolvido nos penáltis.

Eis o meritório percurso da selecção portuguesa, rumo ao inédito título de campeão europeu. Patrício acaba o Europeu sem sofrer qualquer golo nos últimos 328 minutos. À sua frente, o quarteto só se define a partir dos oitavos-de-final com Cédric e Raphaël nas alas mais Fonte e Pepe no meio. À sua frente, William bem ajudado por Adrien, João Mário e Renato. No ataque, Ronaldo defende mais que nunca e Nani faz de 9. Os suplentes Quaresma e Éder saltam do banco para evitar os penáltis vs Croácia e França. Somos campeões. A Europa é nossa, já só falta o Mundo.

Antes do assalto ao Mundial-2018, na Rússia, ainda na zona mista do Stade de France, alguém descobre uma brecha no sistema. ‘Não há seguranças, podemos entrar no relvado’. Whaaaaaat? C’est pas posible. Pernas para que te quero. Ele é portáteis e credenciais a voar. Quando nos aproximamos de uma porta de acesso à pista, vemos zero pessoas. Zero. E o relvado ali à mão de semear. Páro, olho, escuto. Como se estivesse numa passagem de nível sem guarda. É de nível, sim senhor. À nossa frente, a baliza da bola ao poste do Gignac. No outro lado, a do Eder. Temos de lá chegar, dê por onde der. A alegria é infinita. Nem o Usain Bolt faz um tempo como o nosso. Quando chegamos ao local do golo, vemos uma bola. Que sonho. Em vez de remates imaginários, remates reais, bem reais, à baliza do Eder. À esquerda, a taça do Euro ainda firme e hirta. Tiram-se fotografias, selfies. Junto ao banco de Portugal. Junto ao túnel de acesso ao balneário. Junto à baliza. Junto à taça. Junto a todos. E, claro, corre-se sozinho para o infinito. Como se fosse uma criança desnorteada. É o efeito Eder. De repente, aparecem dois seguranças XXL. Dizem qualquer coisa imperceptível. E saímos a correr. Disparados. E a rir a bandeiras despregadas. É o efeito Eder. De novo.