No mundo contemporâneo, Cristiano Ronaldo é, de longe, quem mais elevou a reputação do mérito português. A nossa melhor emigração — encarnada num atleta excecional — exportou uma ética de exigência implacável. Ronaldo elevou a fasquia de boa vontade e de expectativa positiva sobre os profissionais portugueses em qualquer setor e em qualquer lugar do mundo.

A reação mundial imediata prevalente sobre os portugueses nas últimas duas décadas reflete, consciente ou inconscientemente, um padrão mental associado à personalidade e aos feitos de Ronaldo: trabalho obsessivo, disciplina implacável, resiliência sobre-humana e uma entrega total à excelência, com o correspondente alcance de resultados imbatíveis e liderança do mundo na respetiva área profissional.

Não se trata de desmerecer as gerações anteriores de emigrantes portugueses, onde vários chegaram a CEOs de grandes companhias, como por exemplo no Lloyds, Stellantis ou Kraft-Heinz. Curiosamente, antes da era Ronaldo, poucos portugueses chegavam a CEOs mundiais. Não temos dúvidas do valor intrínseco individual dos portugueses que alcançaram esses e outros postos de liderança pelo mundo, mas com certeza que o efeito Ronaldo, gerador de expectativa mundial positiva sobre os portugueses, não os prejudicou. A nós, portugueses, só nos beneficiou ter um novo estereótipo positivo com esta força, praticamente desde o início do século XXI.

Desde Ronaldo, dizer “sou português” em qualquer ambiente de alta competição, incluindo o empresarial, deixou de gerar o mero aceno cortês sobre subsídios, praias e vinho verde (ou pior) ligado à fraca qualidade e aos maus resultados dos políticos “brilhantes” que tivemos e exportámos. Felizmente, a maior parte do mundo desconhece a nacionalidade de Guterres, Costa ou Barroso, mas vários milhares de milhões de seres humanos sabem bem que Ronaldo é português.

Os emigrantes portugueses sempre foram reconhecidos pela sua extraordinária ética de trabalho. Contudo, na ausência de uma figura de proa global que encarnasse esses valores no topo da pirâmide, esse reconhecimento ficava frequentemente no estrangeiro circunscrito a setores manuais e de construção civil. Para quem, como nós, trabalhou desde os anos 90 nas sedes globais das melhores multinacionais americanas — da Procter & Gamble em Cincinnati à Genzyme em Boston — e foi admitido em universidades como Harvard e Oxford, a exigência de prova individual para conquistar a simpatia inicial era, antes do efeito Ronaldo aparecer, desproporcionalmente maior. Dantes, ser português não abria portas de boa vontade executivas ou académicas nem garantia simpatia inicial. Hoje, de Nova Iorque a Los Angeles, em conferências corporativas ou no ambiente escolar e académico dos nossos filhos nos EUA, a atitude geral dos americanos – de todas as idades e em qualquer lugar – é de empatia imediata a nosso favor, brincando com o facto de todos sermos “primos” do Ronaldo. É um efeito real que se repete com certeza com milhões de portugueses, em milhares de contextos, em Portugal e por esse mundo fora ao longo das nossas vidas. A marca Portugal melhorou devido a Ronaldo.

Há quem, infelizmente, escolha desdenhar da figura de Ronaldo e menorizar quem invoque o seu impacto nacional e mundial; agora ainda mais porque ele teve dificuldade em transitar para liderar de outra forma. Esses com certeza não percebem a força de um preconceito velado e, por isso, não alcançam — nem quando isso os beneficia pessoalmente — a transformação brutal que o efeito Ronaldo operou na perceção global sobre os portugueses. Para os céticos, associar o prestígio do país a um atleta parece-lhes uma leviandade. Desconhecem os efeitos dos atletas de topo desde as cidades-estado da Grécia Clássica. Não alcançam que, num mundo altamente competitivo, Ronaldo foi substituindo a condescendência internacional por um respeito genuíno pela determinação e ética de trabalho de qualquer português.

Precisamente por isso, o recente e intempestivo ato de Ronaldo abandonar  o estágio da Seleção Nacional é um episódio tão amargo quanto pedagógico.

Pondo de lado, momentaneamente, o futebol, para não personalizar o peso da idade em Ronaldo: o pico dos sprinters de 100 metros costuma ocorrer entre os 23 e os 27 anos, com os recordes mundiais a serem estabelecidos dentro dessa faixa etária. A última medalha de ouro de Usain Bolt foi aos 29 anos. Os futebolistas têm uma longevidade no topo de cerca de 5 a 10 anos a mais, mas também aí chega uma altura em que a grandeza não está em derrotar a biologia, mas em saber transformar experiência em liderança quando a biologia finalmente vence. Felizmente, em atividades de liderança que não exijam esforço físico intenso, os seres humanos têm muito mais longevidade no auge e aí Ronaldo devia congratular-se por ainda ser um jovem com muito potencial para liderar sem precisar de superioridade física.

A grandeza de um líder mede-se pelo seu auge numas funções, mas consagra-se na sua transição para outras funções, onde pode crescer ainda mais. No mundo empresarial e executivo, os maiores CEOs e fundadores de empresas não são aqueles que tentam correr os 100 metros rasos aos 40 anos com o mesmo tempo dos 20; são aqueles que compreendem quando chega o momento de mudar de papel, supervisionar e delegar.

Quando a força física e a capacidade de carregar uma equipa inteira às costas deixam de ser fisiologicamente sustentáveis, o verdadeiro líder não se retira em frustração nem exige o monopólio do protagonismo — o Líder delega, abre espaço ao talento emergente e passa a potenciar o sucesso dos que o rodeiam.

Ao recusar aceitar a natural passagem do tempo e ao não saber dar um passo ao lado para capacitar a nova geração de talentos da Seleção, Ronaldo falhou momentaneamente no capítulo mais nobre da liderança: o altruísmo estratégico. Uma equipa de topo não se constrói à volta de uma estátua, mas sim de uma dinâmica onde o conhecimento e a mentalidade vencedora são transmitidos aos que vão continuar a carregar o testemunho.

Jorge Jesus falhou ainda mais: Tem de entender tudo isto que vai muito para além do futebol e afeta todos os portugueses direta ou indiretamente. Deve também revelar a humildade de pedir desculpas públicas a Ronaldo por não ter cumprido os prometidos minutos de jogo com a Noruega, fazendo-o regressar para liderar, intimidar os adversários e manter as excelentes expectativas do mundo sobre Portugal e os portugueses.

Jorge Jesus é um treinador com excelentes resultados e percurso, que até nos pode levar à conquista do Mundial de 2030, queira Deus. No entanto, ao contrário do que o seu sobrenome indica, não encarna, como Ronaldo encarna, aos olhos do mundo, todas as qualidades positivas de todos os milhões de portugueses em Portugal e espalhados pelo mundo. “JJ” ele próprio, com certeza beneficiou de alguma forma do farol de “Cris”, ainda mais diretamente do que a maior parte de nós porque estava no mesmo setor profissional e diretamente associado ao atleta divinal. Jesus precisa, mais uma vez, do farol de Ronaldo como exemplo, e Ronaldo precisa de um espelho para beneficiar do seu próprio farol — agora que as qualidades que deve iluminar, para si, estão em transição para a liderança fora de campo.

Portugal precisa de Cristiano Ronaldo, não como um capitão que exige jogar todos os minutos de todas as partidas a um ritmo que o corpo já não comporta, mas como o farol moral e estratégico da equipa. A sua história, o seu rigor e o seu exemplo de superação são património imaterial de todos os portugueses. Desejamos, por isso, o seu regresso rápido à Seleção Nacional!