Enquanto a política francesa não nos brinda com mais uma ameaça económica séria, é preciso perceber que a sorte das economias europeias mudou consideravelmente desde o choque dos confinamentos provocados pelo COVID. Na perspectiva do Norte da Europa e da sabedoria convencional, até então as economias do Sul eram como que doentes em recuperação, depois de vícios que as tinham atirado para um estado comatoso. Depois do desastre grego e português, por ordem decrescente de gravidade, e, em menor escala, depois dos reveses na Irlanda, Espanha e Chipre, o quinquénio que antecedeu os confinamentos foi de recuperação depois da terapia. É verdade que a Grécia teria de esperar mais 3 ou 4 anos por essa recuperação – Portugal, Espanha, Irlanda iniciariam a sua recuperação por volta de 2013, a Grécia apenas em 2017. Mas por esse sofrimento acrescido devemos agradecer ao governo suicida do SYRIZA, ao incendiário Varoufakis que tanto apaixonou a nossa extrema esquerda e muitas almas errantes do PS, e ao infeliz Tsipras com quem António Costa, mal chegou a Primeiro Ministro, foi a correr assinar pactos “anti-austeridade” de que agora já ninguém se lembra e que na altura foram celebrados pelas inteligências do costume como descobertas de um novo continente.
Sucede que, depois do COVID, uma vez estabilizadas as economias europeias do colapso da produção, e do subsequente ressalto quando a actividade normal regressou, a trajectória das economias europeias passou a ter um aspecto diferente. No leste europeu, o crescimento extraordinário de algumas economias – mas não de todas – prosseguiu com destaque para a Polónia que paulatinamente se vai convertendo num dos principais pólos industriais do continente e na sua principal potência militar não-nuclear. Mas a novidade não estava aí. Estava na inversão do desempenho na polarização Europa do Norte/Europa do Sul. Subitamente, todos perceberam que a Alemanha estava a braços com uma estagnação interminável, agravada pela invasão da Ucrânia pela Rússia que ocorreu logo no início desse período pós-COVID. À exaustão alemã junta-se a França com uma dinâmica económica que, apesar de menos paralisada do que a da sua vizinha, se vê agora num impasse financeiro de dificílima resolução num contexto de fracturas sociais profundíssimas.
Do Sul vieram notícias contrárias. O crescimento económico não tem sido fulgurante, é certo, mas, por padrões deste século, e em comparação com a estagnação alemã, tornou-se até inspirador, tal é a situação de expectativas deprimidas com que a Europa hoje vive. Todos os países de quem dez anos antes se dizia terem as suas economias doentes (Espanha, Portugal, Grécia, e, em menor medida, a Croácia) exibiam agora taxas de crescimento do PIB bastante superiores às da Alemanha, por exemplo, e da maioria dos países do Noroeste europeu. No caso de Croácia, Espanha e Grécia essas taxas de crescimento chegaram quase a ser impressionantes – em média, acima dos 3%. Portugal ficou-se por um registo mais modesto em torno dos 2%. E, num momento de triunfo emocionado, os meridionais julgaram que chegara o se, depois de anos de humilhação. Há não muito tempo, o Primeiro Ministro grego ousou dizer o impensável – que a Grécia podia dar algumas recomendações à Alemanha para ajudá-la a sair do marasmo económico interminável, nomeadamente optar por “reformas mais radicais”.
A reacção dos meridionais é compreensível, sobretudo depois de anos a ouvir ralhetes e opiniões, nalguns casos acertados e indispensáveis, mas noutros casos insensatos e desinformados. Convém, no entanto, não deixar o entusiasmo substituir a racionalidade. Afinal de contas, Portugal, Espanha, Croácia e Grécia têm visto o seu crescimento económico nesse período, e até ao final deste ano (previsivelmente até ao final de 2026), depender de fenómenos irrepetíveis.
Em primeiro lugar, uma explosão do turismo na zona sul da Europa. Com consequências no emprego, no desenvolvimento de regiões historicamente deprimidas e na atractividade geral destes países como destino não apenas de férias, mas de residência e de investimento, a explosão do turismo não é repetível. Isto é, não poderá continuar com as taxas de crescimento que todos no sul da Europa tiveram nestes últimos 4-5 anos. Não que a procura do mundo inteiro vá regredir no futuro. Há turismo novo como o americano e o árabe do Golfo Pérsico que há muito era cobiçado. Mas é preciso reconhecer que há limites físicos ao acolhimento de mais volume turístico às taxas de crescimento anteriores, com a consequente reacção negativa das populações autóctones, queixando-se dos vários congestionamentos e do aumento dos preços, em particular da habitação. De resto, a subida na cadeia de valor da actividade turística tem sido realizada a uma velocidade estonteante nestes países começando a tocar também neste aspecto nos limites ao crescimento exuberante. Em Portugal, o turismo foi responsável por cerca de 40% do crescimento económico geral. Nos países aqui em análise a proporção tem sido mais ou menos a mesma, talvez um pouco mais baixa em Espanha e um pouco mais elevada na Grécia. Em 2024, no crescimento português de 2,1%, o turismo provavelmente ainda respondeu por 0,4-0,5 pontos percentuais. Não é coisa de pouca monta.
Em segundo lugar, o PRR. O generosíssimo financiamento massivo do Sul da Europa pelo Norte da Europa decidido em 2021 tem sido avassalador para qualquer um destes quatro países. Executar o PRR – mal ou bem, de preferência bem – tem tradução directa e indirecta no crescimento económico. Em 2024, 2025 e previsivelmente 2026, o PRR valerá, em média, cerca de 0-6-08 pontos percentuais de crescimentos do PIB que andarão à volta dos 2% nos países do Sul – a Croácia continuará, segundo as previsões, acima dos seus pares com crescimentos do PIB mais próximos dos 3%.
Finalmente, neste período, e em proporções não exactamente idênticas, mas suficientemente parecidas, os quatro países sofreram um afluxo enorme de imigrantes, que, por força, do aumento da força de trabalho teria sempre impacto positivo no crescimento do PIB. Ao contrário do que tantos têm dito sem qualquer ponderação económica – nem de qualquer outra estirpe –, o afluxo de imigração, que nos modelos económicos se traduz pelo aumento da quantidade de L, aumenta forçosamente o PIB, mas não aumenta forçosamente o PIB per capita, que é, de entre os dois, o verdadeiro e único indicador da prosperidade dos povos. Seja como for, nenhum destes países tem quaisquer condições para fazer perdurar fluxos migratórios ao ritmo a que estes ocorreram nos últimos 4 a 5 anos – o caso menos patente seria o da Grécia, que introduziu restrições mais cedo, reduzindo os fluxos, porque politicamente o assunto é mais antigo por lá, tendo em conta que o país se situa na fronteira dos fluxos migratórios para a Europa provenientes da Ásia e do Médio Oriente.
Resta agora saber como é que as ditas economias vão manter o seu desempenho depois de esgotados os efeitos económicos destes choques irrepetíveis. Portugal, Grécia e Croácia aproveitaram para se desendividar – nas contas públicas e nas contas externas. Mesmo admitindo erros e excessos neste processo, fizeram globalmente bem. A Espanha sob Sanchez seguiu o caminho inverso. Os Espanhóis arrepender-se-ão em breve. Contudo, é do aumento geral da produtividade dos factores que dependerá o desempenho económico depois de 2026. Se cuidarmos das nossas instituições, com políticas económicas reformistas e financeiramente prudentes, em condições de coesão social e cultural, o sul da Europa poderá deixar para trás o estigma de estagnação que, em grande parte por sua responsabilidade, adquiriu para si. Mas é um grande “se”.