Agora que o liberalismo está em crise, o mesmo liberalismo vilipendiado pela esquerda e pela direita entre nós, toda a gente lhe chora o desaparecimento. Na cultura política portuguesa, o liberalismo foi primeiro associado, pelo Estado Novo, ao caos e ao terrorismo da Revolução francesa e da sua bisneta bastarda, a Iª República. Depois, quando veio o fim do regime de Salazar, houve propostas para todos os gostos, desde a inevitável predilecção pelo campo de concentração estalinista ou maoísta até às vertentes tão modernas da “social-democracia”. Mal sabiam os novos revolucionários dos anos 70 que todas as ideologias a que faziam apelo, dos marxismos-leninismos ao socialismo “democrático”, passando pela envergonhada democracia-cristã, estavam à beira do fim. De liberalismo é que ninguém lhes podia falar.

Era mais ignorância do que qualquer outra coisa. O liberalismo foi pura e simplesmente a mais poderosa e transformadora filosofia política que o Ocidente concebeu. Transfigurou radicalmente as condições de existência e os valores morais, primeiro, do Ocidente, e, com a expansão deste, o resto do mundo. Com a excepção da fundação das novas religiões – o Cristianismo e o Islamismo –, não houve nada que se lhe tivesse comparado.

Era uma questão de tempo, e de amor à sobrevivência, que aqueles que tão grandiloquentemente dispararam contra o liberalismo, contra o neoliberalismo, contra os prefixos que se inventassem, estivessem-lhe inteiramente sujeitos. À esquerda, a falência intelectual e política do marxismo deixou os seus partidos sem programa, nem linguagem que não fosse liberal. A transformação da política rumo a uma sociedade sem classes foi discretamente substituída pela intervenção do Estado no mercado, pelo amor religioso ao “Estado social” e, de um modo hiperbólico que ultrapassou os liberais pelo hiperliberalismo, pela linguagem dos direitos. Os partidos da esquerda democrática salvaram-se tornando-se liberais.

Sucede que todos estes triunfos, todo este consenso político que organizou a vida política nas democracias ocidentais entre um liberalismo de esquerda e um liberalismo de direita, estão agora a ruir. Desde a proclamação confusa de uma “democracia iliberal” presumivelmente em ascensão, até ao desvanecimento abrupto da ordem internacional regrada pelas instituições e pelo direito, passando pelo esmorecimento do entusiasmo com a globalização económica, o liberalismo, ainda que vitorioso sobre os socialismos (todos) e em disputa com um conservadorismo a braços com a sua própria crise intelectual, aparece agora a bater em retirada.

Porquê esta crise? É fruto dos tempos? Ou é mais profunda? Não há dúvida que nos últimos 15 a 20 anos assistimos à aceleração de um conjunto numeroso de processos sociais, políticos e espirituais cuja trajectória conspirava para pôr em causa as proclamações e as certezas dos liberais. Mas, de um lado ou de outro, é impossível não discernir uma coincidência. O ponto central que fez nascer o liberalismo, que lhe deu força e o conduziu ao poder, que lhe proporcionou os seus gloriosos triunfos na causa da liberdade, surge igualmente como a barreira ou o limite às suas possibilidades no nosso tempo.

Que ponto central é esse? Qual é o dogma central do liberalismo? Desde finais do século XVI, quando os proto-liberais puseram em marcha a construção difícil e conflituosa desta filosofia política, até aos liberais dos nossos dias ocupados a apanhar os cacos, o dogma estabelecido em torno do qual tudo gravitou foi a soberania do indivíduo sobre si mesmo. A sua definição de liberdade não era mais do que esta formulação. Contudo, a soberania do indivíduo sobre si mesmo foi desdobrada até às suas últimas consequências. E essas últimas consequências começaram a operar como dissolventes da própria ordem política. A mesma ordem política sem a qual as liberdades do indivíduo soberano são impossíveis. É esse o drama actual do liberalismo. Foi essa a sua fortaleza que, ao longo de séculos sucessivamente desdobrada até se converter em fraqueza, é agora apontada pelos seus críticos e pelos seus inimigos como fractura e como crime. Resta saber se o liberalismo ainda vai a tempo de ser reinventado para refundar, nos seus próprios termos, a causa da liberdade liberal.

A ordem liberal triunfou ou foi um fracasso? — Debate