1 O Memorando

Foi hoje conhecido o Memorando assinado separadamente pelos EUA e pela República Islâmica do Irão, sem sessão conjunta, o qual inclui apenas 14 parágrafos preconizando tréguas durante 60 dias (incluindo o conflito no Líbano) com o objetivo de se iniciarem negociações sobre os pontos em que as duas potências divergem: como será gerido o estreito de Ormuz após os 60 dias, promoção do apoio financeiro à reconstrução do Irão a cargo dos EUA e Estados do Golfo (300 mil milhões de dólares os quais em muito excedem o apoio previsto no acordo de Obama no valor de 1,6 milhões de dólares), promoção do fim das sanções, descongelamento dos fundos iranianos e desconcentração do urânio enriquecido existente no Irão. Como jogo de soma nula imediato, também inclui troca significativa :

  1. A favor dos EUA: durante os 60 dias, o tráfego no estreito é livre e não sujeito a qualquer pagamento embora o Irão preveja 30 dias como período de transição.
  2. A favor do Irão: os EUA cancelam as proibições relativas a exportações iranianas de petróleo e às correspondentes transações finaceiras e vão terminar com o bloqueio ao tráfego iraniano no âmbito de igual período de 30 dias.

Note-se que estas vantagens imediatas agora conquistadas pelo Irão seriam impensáveis pelo Governo americano quando estavam empenhados nos bombardeamentos o que confirma o reconhecimento pelos EUA da nova situação estratégica atingida. Compreendem-se assim as reações negativas, não só por parte de Israel, mas também de congressistas republicanos como George Wicker não só pelo valor dos apoios referidos mas também porque o objetivo de eliminar a capacidade balística do Irão no que respeita aos seus mísseis não é considerada.

Na verdade, este Memorando surge após os EUA terem iniciado, com Israel, vasta operação militar contra  o Irão incluindo atentados contra principais dirigentes na convicção de que eliminariam o poder militar iraniano e que provocariam a queda do regime. Como é evidente, nenhum destes efeitos foi conseguido e, aliás, o Memorando inclui parágrafo garantindo que nenhum dos Estados irá interferir na vida interna do outro, contrariando, assim, as promessas do Presidente dos EUA.No que respeita ao potencial em mísseis do Irão, o New York Times estimava que  este Estado mantinha cerca de 70% do seu potencial localizado em 30 a 33 bases de mísseis.

Consequentemente, evoluíu-se para uma nova situação bem descrita na Teoria de Jogos pelos contributos de Thomas Shelling, autor da famosa obra “The strategy of conflct” o qual mereceu o Prémio Nobel de 2005 pelo que importa recordá-lo.

2 O modelo de Shelling

Este autor estuda pela Teoria dos Jogos o longo período em que a dissuação nuclear entre EUA e União Soviética funcionou muito bem e, em resumo, conclui que é condição essencial para que ambos jogadores optem pelo não ataque saberem que, se decidirem pelo ataque, o outro tem a possibilidade de infringir aquilo a que chama o “second strike”, ou seja retaliar com vigor ao primeiro ataque. Explica-se, assim, aliás, o investimento nos meios nucleares disponíveis para esta resposta, em especial, submarinos nucleares.

Ora, ao contrário das expetativas americanas que supunham aniquiliar tais meios iranianos, aconteceu o contrário, ou seja, ambos têm poderosos meios de contra-ataque:

  1. EUA: novos bombardeamentos e bloqueio no estreito ao tráfego iraniano
  2. Irão: bombardeamentos a bases americanas através dos seus míssseis  e bloqueio ao tráfego não iraniano no estreito de Ormuz.

Estas duas capacidades são bem importantes, tendo a segunda maior impacto na Economia mundial, pelo que regressámos ao modelo estudado por Shelling o qual conduz…à continuação das trèguas! Na verdade, este ponto é estável pois ambos os jogadores perdem se saírem deste equilibrio.

Note-se que surge agora um fator de perturbação que se chama Israel pois, neste caso, trata-se de conflito no Líbano continuado no tempo, mantendo-se as decisões de ataque das duas partes embora  com supremacia militar de Israel. Eis porque a estabilidade referida anteriormente é ameaçada por este outro conflito o que significa que importa externalizá-lo face ao modelo anterior. Ora os EUA já iniciaram esta externalização distanciando-se de Israel pelo que importa que o Irão siga esse exemplo.

3 O cenário mais provável

Admitindo que o Irão compreende bem os enormes beneficios deste excelente equilibrio alcançado é natural que também contribua para  a externalização do conflito no Líbano, permitindo assim manter-se o equilibrio atual o qual é o mais vantajoso para ambos. Relativamente à obtenção dos acordos adicionais previstos no Memorando, a sua probabilidade de ocorrência é mínima bastando recordar que devolver ou desconcentrar o urânio enriquecido é quase inivável devido à sua localização e que as sanções em vigor incluem deliberações da Nações Unidas.

Em suma, é provável que este equilíbrio se mantenha, não por 60 dias, mas por período bem mais longo e que as negociações apenas consigam melhores resultados no jogo de soma nula entre pagamento de portagens ao Irão pela passagem no estreito versus apoio financeiro à sua reconstrução.

Em termos da Economia internacional, irá iniciar-se o processo de normalização dos mercados energéticos após os referidos 30 dias, embora a ritmo muito lento, também devido à extensão das perturbações ocorridas, estabilizando ou reduzindo o preço do petróleo o que se irá constituir em  mais um  fator negativo para as frustradas ambições de Moscovo na Ucrânia.