Pedro Nuno Santos (PNS) gaba-se de ter metido a TAP a dar lucro quando ninguém mais o conseguiu fazer – o “milagre TAP”. Olhemos então as coisas de uma forma séria, através da verdade dos números e dos factos, para vermos se foi mesmo isso que aconteceu.
1.º: o preço dos bilhetes. O preço das passagens aéreas (quase que) duplicou em todas as companhias aéreas na Europa! Por exemplo, antes da pandemia, eu conseguia viajar direto (em hora de ponta) para Bruxelas por valores a rondar os 200~250€ (ida e volta) comprando a viagem 1~2 semanas antes; atualmente (e já foi assim durante 2023) é impossível comprar um bilhete a menos de 350€, mesmo que adquirido com bastante antecedência. Para os países nórdicos, a viagem custava ~400€ e, hoje em dia, paga-se 500~700€. E, como o preço aumentou em todas as companhias aéreas, inclusive nas ditas low-cost, a TAP não tem de baixar o valor das passagens porque toda a concorrência subiu os preços também.
Havia duas maneiras de resolver o problema da sustentabilidade do transporte aéreo na Europa no pós-pandemia: os Estados seguiam a financiar o sistema (modelo subsidiado) ou os utilizadores pagavam mais (modelo utilizador-pagador). Alguém, na Europa, tomou a decisão de que o modelo a seguir seria o do utilizador-pagador e todas as companhias de aviação o implementaram – a partir daí, todas as companhias aéreas na Europa começaram, como que por magia, a apresentar lucros fantásticos (não só a TAP, e.g. a Lufthansa mais do que triplicou os lucros nos primeiros nove meses de 2023). Notavelmente, PNS socorreu-se de um modelo que não aquele que defende (e implementou) para a generalidade dos outros transportes públicos no país, largamente subsidiados pelo Estado português. Nota: seria interessante de analisar, do ponto de vista da defesa do consumidor, esta subida dos preços, em todas as companhias aéreas na Europa, ao mesmo tempo e para valores iguais entre si…
2.º: o serviço prestado. A redução da qualidade do serviço prestado pela TAP tem sido vertiginosa! Tomemos o exemplo das refeições a bordo na classe económica dos voos de médio curso na Europa: há muitos anos era dado um tabuleiro com comida “a sério” (tipicamente contendo uma porção de carne ou massa); depois passaram a dar um wrap (e queijo e bolachas); depois uma pequena sandes (e às vezes um pastel de nata); e, finalmente, na pandemia, deixaram de oferecer refeições ligeiras (“snacks”) e até bebidas e, agora, é tudo pago (minto, o copo de água não é pago!). Para além de acontecer, com regularidade, não ser servida refeição alguma por, diziam-me, estarem a operar com tripulação reduzida – pagava-se por um voo com refeição (mesmo que ligeira) e o serviço não era prestado.
A justificação da companhia: “estamos a seguir uma tendência generalizada na indústria da aviação” que é o equivalente corporativo para a máxima bem portuguesa “é assim em todo o lado” que justifica tudo o que é mau neste país! Quando viajo noutras companhias aéreas, de países equivalentes (em dimensão e economia) a Portugal, não é nada assim: por exemplo, a grega Aegean serve uma refeição completa tal como servia a TAP em tempos longínquos. A verdade, todos a sabemos: foi (é) preciso cortar nos serviços (aos passageiros) para a TAP dar lucro – a TAP de PNS é uma espécie de low-cost com preços (de bilhetes) high-cost o que vai contra tudo aquilo que PNS apregoa para serviços públicos de qualidade. Nota: Eu até prefiro pagar pela refeição a bordo – posso escolher o que quero comer; não posso é pagar bilhetes a preço máximo e ter serviços mínimos!
Para já não falar no cancelamento e atrasos generalizados de voos. O cancelamento de voos TAP foi uma prática comum durante a tutela de PNS, que me afetou por diversas vezes. Para lidar com o cancelamento de voos, sem ter de indemnizar os passageiros, a TAP engendrou uma solução simplesmente inacreditável: ao invés de mudarem a passagem para voos posteriores (o que implicaria pagar as compensações previstas no regulamento europeu do Direitos dos Passageiros por atraso do voo) começaram a alterar as passagens para voos anteriores, inclusive para dias antes (que o regulamento não prevê e assim não há direito a compensação) dando opção de cancelamento do bilhete sem custos. Aconteceu-me isto num voo Funchal-Lisboa em Janeiro de 2021 (remarcado automaticamente para 2h30 antes) e num outro Dublin-Lisboa em Julho de 2022 (remarcado automaticamente para o dia anterior) – cancelei, em ambas as vezes, a passagem na TAP, e remarquei noutra companhia aérea, literalmente Take Another Plane (TAP)!
3.º: o apoio à TAP. PNS injetou 3,2 mil milhões de euros e a TAP poderá dar lucro a chegar aos 300M€ em 2023 (estimo eu, por excesso)! Ora, tendo 3,2 mil milhões de euros, metendo o dinheiro a prazo – facilmente a 5% de juros – geraria ~150M€ de rendimento. Portanto, o lucro da TAP é, números redondos, 150M€. Sendo que, do total injetado, o Estado verá devolvido, no cenário mais otimista, pouco mais de mil milhões de euros (avaliação da Ernst & Young e do Banco Finantia a pedido da Parpública), teria a TAP de dar lucro a este nível durante quase 15 anos para os contribuintes verem devolvido o dinheiro. E nada disto acontecerá porque os custos operacionais vão subir (e.g. os níveis salariais e regalias foram já todos repostos) e, também, a futura alienação da TAP não incluirá a restituição do valor injetado pelo Estado português. Nota: o dinheiro injetado noutras companhias aéreas na Europa, tem vindo a ser restituído aos respetivos Estados, exceto em Portugal…
De facto, PNS injetou 3,2 mil milhões de euros na TAP, mas teve de implementar um plano de reestruturação que implicou a saída de centenas de trabalhadores (despedimento coletivo que foi recentemente declarado ilegal pelo Tribunal do Trabalho de Lisboa), cortes substanciais nos salários da maioria dos restantes trabalhadores, venda de aviões, alienação de rotas/slots, etc. – um forte emagrecimento da companhia. Interessantemente, o mesmíssimo modelo que a troika implementou em Portugal no tempo de Pedro Passos Coelho e que PNS e o PS passam a vida a abominar! E aqui, PNS, não se bateu contra Franceses e Alemães por a Comissão Europeia ter imposto uma dura reestruturação, com consideráveis impactos sociais, a fim de aceitar o apoio estatal – teve de o fazer para salvar a empresa, diz!
4.º: a TAP pública. PNS clama que os Portugueses querem a TAP, mas tal não é inteiramente verdade. Eu tenho perguntado a razão pela qual as pessoas querem a TAP e a resposta resume-se a uma simples coisa: querem sentir-se em Portugal mal põem os pés no avião! Mas quando pergunto se querem a TAP (precisando de lá injetar milhares de milhões de Euros) ou serviços públicos de qualidade, a resposta é imediata: mais e melhores hospitais, escolas e tribunais! Portanto, estamos basicamente a pagar para que uns poucos (os passageiros Portugueses da TAP) se sintam em casa umas poucas horas antes de chegarem, efetivamente, a Portugal!
Em suma, não foi PNS que meteu a TAP a dar lucro! O brutal aumento do preço das passagens aéreas e a considerável redução da qualidade do serviço prestado fizeram a maior parte do trabalho e, o programa de reestruturação, imposto pela Comissão Europeia (que nunca o PS o faria por si), tornou a TAP mais leve, mas à custa uma injeção massiva de dinheiro dos contribuintes para apoio à tesouraria, pagamentos de indemnizações para dispensar trabalhadores, regularizar pagamentos a fornecedores, etc. – grande parte do qual estará, irremediavelmente, perdido. E, não é que a generalidade dos portugueses queira a TAP; antes querem serviços públicos essenciais (saúde, educação, justiça) a funcionar adequadamente, o que não tem acontecido, de todo!
Uma mentira dita muitas vezes não se torna verdade, por muito que Pedro Nuno Santos o apregoe, a alto e bom som, com a sua retórica de “canto de tritão”. Acontece que, atualmente, numa sociedade de pessoas informadas, se apanha (muito) mais depressa um mentiroso do que um avião (da TAP). E Pedro Nuno Santos falta à verdade, acerca do tema TAP, compulsiva e conscientemente, a todos nós, a toda a hora!