Faz-me confusão a ideia de que pode ser justificado o uso de violência como mecanismo para acabar com certas ideias e que alguém merece morrer por pensar de forma diferente. Tenho ouvido muito estas narrativas nos últimos tempos, mas acho que nenhuma foi tão evidente como o assassinato de Charlie Kirk.
Quero começar por afirmar que eu não sou fã de Charlie Kirk e não concordava com a maior parte das suas ideias (ou pelo menos das que mais viralizaram nas redes sociais). Esta crítica talvez esteja mais focada para uma certa parte da esquerda, mas poderia perfeitamente estar focada para uma parte da direita, pois a hipocrisia e o aproveitamento político existem nos dois lados.
Como já referi, eu não sou fã de Charlie Kirk (até pelo contrário), mas não consigo aceitar que alguém seja morto a tiro por debater ideias. Podemos achar as suas opiniões controversas, bárbaras, extremistas ou até pior (muitas até serão), mas Charlie nada mais fazia do que debater ideias em várias universidades nos Estados Unidos. Qualquer pessoa poderia debater com ele. Podemos argumentar que ele aproveitava-se dos estudantes pouco preparados para conseguir ter bons “takes” para as redes sociais e com isso propagar as suas ideologias, mas de facto ele debatia as ideias e isso não é crime nenhum.
Posso reconhecer a ironia da sua morte, pois o mesmo afirmava que certas mortes por arma de fogo valiam a pena para poder manter a Segunda Emenda da Constituição dos Estados Unidos. Contudo, concordar ou até mesmo celebrar a morte de Charlie é tão ou mais cruel que a sua visão do mundo. Não espero tristeza ou até mesmo empatia quanto a este caso, mas pelo menos o mínimo de decência humana, pois acho que muitas pessoas não entendem o grave que isto é. Se se provar que o assassino (talvez chamá-lo terrorista até seja mais indicado) tinha motivações políticas, estamos a abrir as portas para mais guerras culturais e a deixar que figuras como Donald Trump usem esta tragédia para aproveitamento político.
Ódio não se combate com ódio, isso já mostrou não funcionar, mas para certas pessoas há de facto um “odio de bem”, um ódio que justifica a violência e que acredita que o agressor está a fazer o bem e que o agredido é o “mal” que deve ser derrotado a qualquer custo (qualquer custo mesmo). A única maneira eficaz de combater as ideias de Charlie é debatendo. Quando Charlie debatia com professores ou com estudantes bem preparados, podíamos ver o quão fraca era a sua argumentação muitas vezes. Com mais debates justos poderíamos de forma eficaz combater certas ideias.
Eu não desejava a morte de Charlie Kirk ou de alguém que pense diferente de mim, gostava de acreditar que pessoas como ele podem mudar de opinião, mas muita gente não concorda comigo e acha que violência é a solução. Charlie uma vez disse: “Quando as pessoas deixam de falar, coisas realmente más acontecem … quando deixamos de ter uma conexão humana com alguém com quem discordamos, torna-se muito mais fácil cometer violência”. Aparentemente ele estava certo.
Muita gente acha que está do lado certo da história, mas talvez um dia estejam num lugar ou num tempo onde as vossas opiniões já não serão consideradas populares ou até mesmo senso comum, e que nesse tempo ou nesse lugar as vossas opiniões não são bem-vindas. Imaginem vocês, os vossos queridos, alguém que admiram ou que simpatizam serem punidos, e tudo por uma opinião. Não mataram ninguém, não maltrataram ninguém e não incentivaram à violência, simplesmente pensam diferente e decidiram exprimir a vossa opinião.
Este cenário é hipotético, mas infelizmente não é irrealista, acontecimentos como este acontecem em todo o mundo, pena que aconteçam também em supostas democracias liberais e apoiadas por supostos amantes da democracia.
O vosso ódio de bem de democrático nada tem.