Hoje as pessoas sem fé estão a viver a possível chegada do fascismo com mais pânico do que eu, evangélico intenso, vigio a chegada do Anticristo. Sem dúvida que os tempos são interessantes. Como Alec Ryrie escreveu: vivemos mesmo na Era de Hitler (mencionei o livro dele aqui há uns meses). O Ocidente como um todo pode ter-se secularizado a ponto de deixar de acreditar no Diabo, mas o fantasma do Führer está mais encarnado do que nunca.

Vamos por partes para comparar as tradicionais expectativas apocalípticas do cristianismo com a alternativa secularizada que surge quando ele foi abandonado. Para os cristãos, a Segunda Vinda de Jesus funciona também como um exame porque é suposto ele separar quem lhe pertence de quem não lhe pertence. A esse momento chamamos o Dia do Juízo Final. De um lado ficarão as ovelhas, do outro os bodes: os primeiros nos novos céus e na nova terra, os últimos no Inferno. Assim, muito simplificadamente, é como funciona.

Mais ainda: de acordo com grande parte da interpretação clássica, o cristão ainda antes da Segunda Vinda deve dispôr-se a um tipo de pré-exame que é resistir ao Anticristo. O Anticristo vem antes de Cristo aldrabar as pessoas para julgarem que o Messias é ele. A marca da besta funciona como a prova de quem foi enganado e aceitou a versão de contrabando no lugar da original.

Novamente simplificando muito, isto significa que temos dois exames: o primeiro é denunciarmos o Anticristo para não o tomarmos como o Messias, e o segundo é, por conta da nossa resistência fiel ao impostor, sermos reconhecidos por Cristo. O primeiro exame é a preparação do segundo que é o Dia do Juízo Final. No fundo, a pessoa que acredita no Dia do Juízo tem de andar preparada diariamente para saber reconhecer já hoje possíveis Anticristos.

E é aqui que podemos notar que esta ansiedade não é exclusiva dos cristãos ou de outros religiosos. Hoje até as pessoas não-religiosas vivem em ansiedade apocalíptica. Talvez dê até para dizer que as pessoas não-religiosas vivem no mundo Ocidental esta ansiedade apocalíptica de um modo mais público do que as religiosas. Como? No exercício constante de se detectarem Anticristos, ainda que não de forma religiosa mas sobretudo política.

E é aqui que se estabelece um paralelo entre o universo religioso e o político. Eric Voegelin escreveu na década de 30 do século passado que fascismo, nazismo e comunismo eram sistemas que substituíam a religião na sua necessidade de um projecto para o fim dos tempos: ideologias puramente escatológicas (do grego eschaton). De outro modo, Hannah Arendt mencionava como uma sociedade secularizada lidava com o fascismo com um medo até então reservado ao mal cósmico e espiritual. Ou seja, os grandes vigores ideológicos do Século XX, da esquerda à direita, usavam os moldes apocalípticos da religião cristã.

Já Theodor Adorno apresenta na “Dialéctica do Iluminismo” o fascismo como uma ameaça permanente ao ponto de que o cidadão dever permanecer vigilante. O perigo maior não é ele surgir de cornos na cabeça, cauda comprida e tridente na mão; é surgir apetecível, razoável e com soluções para os nossos problemas. Adorno enfatizava: “a prioridade na educação é que Auschwitz nunca mais aconteça”. A insistência em vigiarmos constantemente o regresso do fascismo não é assim tão simbolicamente diferente do papel que o Anticristo ocupa na escatologia cristã.

Dá-se, portanto, o inesperado: sobretudo entre os mais burgueses e estudados surge um sobressalto que não me parece apelar menos ao pânico do que a literatura evangélica mais sensacionalista fazia com adolescentes crentes impressionáveis como eu nos anos oitenta. Hoje os meus companheiros descrentes estão mais certos da chegada iminente do fascismo do que eu do Anticristo. De repente, viro eu, o fanático religioso, o céptico.

Há mais neste satanic panic: se há trinta anos os evangélicos descobriam o número da besta em códigos de barras, a elite secularizada exige agora sacramentos visíveis a quem não se dobrará à adoração do Anticristo fascista. Quem não reconhecer que está diante do Armagedão é impuro. Vivemos já em pleno pré-exame do Juízo Final em que se separam ovelhas de bodes.

O problema é que o Diabo está sempre nos detalhes. Sim, os cristãos vigiam para que o Anticristo não lhes dê a volta. Mas em último grau quem separará os bons dos maus terá de ser o examinador final: não serão os cristãos que o farão mas o próprio Messias regressado. Os novos anti-fascistas querem tomar nas mãos a tarefa divina. Quem diria que em 2026 eu, o velho fanático evangélico, poderia tornar-me na pior espécie de bode, pasto alegadamente tenro para o reino do Anticristo fascista? Espero que não mas nunca se sabe. Consola-me saber que no Juízo Final terei outro examinador.