Transportes Públicos

O Paradoxo do Privilégio aplicado aos transportes /premium

Autor
  • José Diogo Quintela
475

É óbvio que Matos Fernandes não faz a mínima ideia do estado dos transportes, pela simples razão que não os utiliza. Mas, sejamos justos, não é caso único entre os decisores políticos e comentadores.

Na semana passada, Matos Fernandes garantiu que não há caos nos transportes públicos. Tem andado a dormir. Se calhar, em vez ministro do Ambiente, é ministro do Ambien. Percebe-se agora porque é que recomendou aos portugueses mais pobres que baixem a potência da electricidade: se tiverem de optar por usar a máquina da loiça em vez da televisão, pode ser que deixem de assistir, no telejornal, às bacoradas do ministro quando fala das suas vidas.

É óbvio que Matos Fernandes não faz a mínima ideia do estado dos transportes, pela simples razão que não os utiliza. Mas, sejamos justos, não é o único. Aliás, de entre todos os decisores políticos e comentadores que opinam sobre as suas decisões, quantos é que utilizam transportes públicos?

Nota: quando eu digo utilizar, é utilizar diariamente e por necessidade. Não são aquelas pessoas que usam porque dá mais jeito, têm metro à porta, a não ser que a meio do dia tenham dentista, nesse caso levam o carro. Ou aquelas que, quando há greve nos comboios, podem ligar para o escritório a avisar que nesse dia trabalham a partir de casa e levam o computador para aquela esplanada que tem wifi grátis, café artesanal e uns muffins de quinoa sem glúten divinais. Ou também aquelas que, estando bom tempo, vão de bicicleta, que Lisboa tem estupendas ciclovias e só por preguiça é que as pessoas não optam pelo exercício. Ou ainda as que, se o autocarro vier cheio (o que é uma maçada, porque há gente que cheira mal logo de manhã, como é possível?), vão a pé. Chegam 15 minutos atrasados, mas não faz mal, porque a chefe é uma das melhores amigas.

Ou seja, não falo das pessoas que usam o transporte público por, naquele dia, ser a alternativa mais cómoda de entre uma vasta paleta de opções. Falo das pessoas que, todos os dias, sem excepção, ou apanham um transporte degradado, sobrelotado e atrasado, ou, como alternativa, apanham outro transporte degradado, sobrelotado e atrasado. A terceira hipótese, claro, é perder o emprego. Porque são pessoas cujo trabalho é presencial (ainda não dá para lavar escadas ou servir cafés a partir de casa, por wifi) e começa impreterivelmente à hora certa. Pessoas que trabalham 8 horas de pé e que a última coisa que lhes apetece é passear de bicicleta.

Portanto, repito: de entre todos os decisores políticos e comentadores que opinam sobre as suas decisões, quantos é que utilizam transportes públicos? Aposto que nenhum.

Eu não, de certeza. Não ando de transportes, a não ser quando vou ao Estádio de Alvalade de metro (mas volto de táxi, porque é mais confortável e assim só há uma pessoa a ver-me chorar por causa do resultado). Trabalho em casa, sem horários, tenho garagem e, geralmente, desloco-me a sítios onde há garagem. Tudo o que sei sobre o estado dos transportes foi-me contado pela minha empregada.

Foi ela quem me contou, por exemplo, que, desde que entraram em vigor os novos preços dos passes sociais, os comboios continuam a vir com menos carruagens do que antigamente, mas agora andam ainda mais cheios, de maneira que começou a ouvir mais vezes “ó preta, vai para a tua terra!” Também me contou que, por causa das supressões, às vezes atrasa-se a ir apanhar a filha à escola e tem de pedir a uma vizinha que a vá buscar. Ou que, como na estação de Sete Rios o comboio já vem a abarrotar, ela apanha o comboio na direcção contrária, sai duas ou três estações à frente, para então apanhar o comboio certo com lugar para se sentar, pois está cansada. Mas não é só sobre o estado dos transportes, também aprendo sobre o SNS. Foi ela quem me contou que, devido às listas de espera no Amadora-Sintra para operar a filha, marcaram-lhe a cirurgia para Bragança.

O leitor dirá que é só uma pessoa e não se pode ficar com uma ideia de como funciona um sistema inteiro tendo como única fonte apenas um testemunho. Evidentemente, o leitor tem razão. Sucede que esta única pessoa é, ainda assim, uma pessoa. A ideia que dá é que quem costuma decidir e opinar sobre transportes fala com zero destas pessoas.

Além de não andarem de transportes por necessidade, não convivem com ninguém que ande. Para já, não têm empregada doméstica. Às vezes por razões económicas, quase sempre por razões ideológicas. Têm, na imorredoira definição de Francisco Louçã, “uma senhora que vem ajudar”, normalmente a dias. Se falta por causa da greve dos barcos, compensa no dia seguinte e o patrão nunca desconfia. Até porque, como ela vem num horário em que não está ninguém em casa, nunca se cruzam, não conversam.

Os seus amigos e colegas também só usam os transportes por conveniência. A-do-ram bicicletas! Têm chefes compreensivos ou são funcionários públicos e, como trabalham 35 horas, têm tempo para esperar pelo autocarro. E falam de transportes nas redes sociais, geralmente durante o dia, provando que não têm os empregos da classe operária em que os trabalhadores não têm vagar para estar no Twitter e no FB durante o expediente. Não são patrões, não têm funcionários ou sequer subalternos de outra classe, só convivem com pessoas igualmente privilegiadas.

O contacto que têm com quem sofre as agruras dos transportes é ainda menor que o meu. É o chamado Paradoxo do Privilégio: quanto mais privilegiado alguém é (e eu sei que o sou bastante), maior o convívio com desprivilegiados e melhor noção das condições em que vivem os mais desfavorecidos. Acabei de o inventar, mas parece-me ser o tema ideal para a tese de doutoramento de um sociólogo. Basta-lhe levar o computador para o restaurante vegan, pedir um poke bowl de kale e pôr-se a investigar.

PS – Como é óbvio, pagar menos pelos transportes é bom. É preciso é ver se o que fica mais barato é o mesmo serviço, ou se o serviço piora justamente por estar mais barato e haver mais gente a usá-lo. Se dissermos a alguém que, em troca de lhe baterem com uma tábua nas costas, lhe passam a cobrar menos 30 euros por mês, a pessoa fica contente. Agora, se lhe dissermos que, por causa da diminuição do preço, a tábua vai passar a ser mais larga, mais dura e manuseada por um tipo mais forte, é possível que vacile.

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

Há uns meses o Observador fez uma escolha: uma parte dos artigos que publicamos deixariam de ser de acesso totalmente livre. Esses artigos Premium, por regra aqueles onde fazemos um maior investimento editorial e que mais diferenciam o nosso projecto, constituem a base do nosso programa de assinaturas.

Este programa Premium não tolheu o nosso crescimento – arrancámos mesmo 2019 com os melhores resultados de sempre.

Este programa tornou-nos mesmo mais exigentes com o jornalismo que fazemos – um jornalismo que informa e explica, um jornalismo que investiga e incomoda, um jornalismo independente e sem medo. E diferente.

Este programa está a permitir que tenhamos uma nova fonte de receitas e não dependamos apenas da publicidade – porque não há futuro para a imprensa livre se isso não acontecer.

O Observador existe para servir os seus leitores e permitir que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia. Por isso o Observador também é dos seus leitores e necessita deles, tem de contar com eles. Como subscritores do programa de assinaturas Observador Premium.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Serviço Nacional de Saúde

Conversa da obstreta /premium

José Diogo Quintela
138

Como é que Costa acha que vão reagir os condutores de ambulâncias quando começarem a ser agredidos por grávidas irritadas, às voltas em Lisboa à procura da urgência que calha estar aberta naquele dia?

Crónica

Amorfo da mãe /premium

José Diogo Quintela
426

O Governo deve também permitir que, no dia seguinte ao trauma que é abandonar a criança no cárcere escolar, o progenitor vá trabalhar acompanhado pelo seu próprio progenitor. Caso precise de colinho.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)