“Se eu substituir todas as componentes, uma por uma, de um objeto, será ele o mesmo objeto no final? Ou algo completamente distinto?”

Este paradoxo – não do barco, mas do Partido de Teseu – permanece sem resposta por parte do atual centro político português: após anos de mudança de paradigma, será o meu partido de eleição o mesmo dos meus líderes históricos?

De início, a resposta parece-me bastante fácil. A metamorfose política dita que o ontem e o hoje podem ser – mais do que apenas no sentido literal – noite e dia, e que, se assim é, o partido do amanhã não será o mesmo; “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. Quem nega isto é, fundamentalmente, contra a evolução conceptual como somente os comunistas, quadrados nas suas crenças e organização partidária, sabem ser. Daí, aliás, que este problema afete desproporcionalmente o centro político, mais do que os extremos.

A caixa de Pandora que se abre com este paradoxo, no entanto, não é relativa estritamente à evolução ideológica dos partidos, tanto quanto é da razão da organização política em forças partidárias e da sua importância no sistema político de virtualmente todas as democracias:

A evolução dos partidos tende exatamente para a diminuição gradual da sua carga ideológica. Quer isto dizer que, grosso modo, o partido imaginado e construído por Sá Carneiro não é o PSD atual, da mesma forma que o PS de Mário Soares não é o PS atual. A razão pela qual continuamos a utilizar os mesmos nomes, a reproduzir os mesmos símbolos e a exaltar as mesmas figuras históricas tem a sua razão de ser profundamente enraizada na legitimação política, na qual o poder de ação política é transferido do eleitorado para os eleitos.

Para isto, a máquina mantém-se virtualmente inalterada. No decorrer destes cinquenta anos de democracia, as conjunturas nacional e internacional alteraram maioritariamente não o poder político, mas o carácter das pessoas que o compõem. É perfeitamente possível (embora improvável) que o PSD volte a ser, como em tempos, um partido à Sá Carneiro, assim como é teoricamente possível que o PS volte a ser um partido à Soares. Esta possibilidade apenas terminará no momento em que morrer o último militante que advogue pelo sá-carneirismo, pelo cavaquismo, ou pelo soarismo. Não quer isto dizer, no entanto, que os partidos de poder em Portugal não têm direito às suas respetivas histórias, conquistas e legados. Quer dizer apenas e só que esse retorno não tem sido, política ou ideologicamente, uma prioridade dos partidos, tanto quanto o é a sua utilização para os mais variados fins.

A resposta – mais difícil do que esperava – ao paradoxo é esta: na prática (que a teoria pouco ou nada importa no dia-a-dia), o uso contínuo da mesma máquina, símbolos, figuras e história torna os partidos em conceitos intemporais; em teoria (que a prática pode ser francamente aborrecida), no entanto, a mudança e constante evolução traz um novo ator político a cada ciclo que passa, já que posso ser descendente de Carlos Magno sem pretender o trono do Reino dos Francos.