Escândalos fazem parte do dia-a-dia político, tanto quanto fazem parte da natureza humana da coscuvilhice. Quer queiramos quer não, sejam estes escândalos verdadeiros, falsos, motivados pela moralidade da justiça, pela imoralidade da vingança ou pela mesquinhez de quem deles beneficia, fazem parte do quotidiano de quem nos governa e representa. Se deveria ser assim ou assado, a mim não me compete responder, até porque está completamente fora do meu controlo. Apenas o digo como o é: escândalos fazem parte da vida política como, aliás, sempre fizeram: não se deixem enganar pelo passado virtuoso promovido por certos conservadores.

As consequências destes escândalos são, não obstante a sua inevitabilidade, um interessante estudo de caso. A eventualidade de casos e casinhos não são estrangeiros aos partidos de poder. Poder-se-á argumentar que tal é inerente ao seu caráter tanto quanto se poderá argumentar que é essa a natureza do sistema político. Em qualquer das hipóteses, o dano fica feito e o propósito do escândalo é, assim, completo – vejam-se os casos das operações Influencer e Tutti Frutti para este efeito.

Mas nem todos os partidos políticos são criados iguais e, portanto, nem todos os partidos políticos têm a mesma ação ou reação, interna e externa, quando confrontados com este tipo de situações. É esta a grande arma de arremesso dos ditos partidos “disruptores” do nosso sistema (diga-se, disruptores, sem aspas, da nossa democracia).

Falo, naturalmente, do Chega.

Porque quando o escândalo não é grande o suficiente para atrair a atenção mainstream, trata-se de uma perseguição meritória de um dedo do meio ao maldito sistema. Quando André Ventura é condenado judicialmente por ofensa à honra de índole racista, quando Pedro Pessanha é acusado de violar uma menor, ou quando Rita Matias compara imigrantes a ratos, afinal não estamos perante atos e comentários inadmissíveis ou, em muitos casos, hipocrisia ao mais alto nível. Estamos, sim, perante um sistema que prejudica sistemicamente quem se ousa diferenciar e dizer as verdades que, aliás, em termos de café, precisam mas é de ser ditas mais vezes – aparentemente, chamar uma deputada cega de “aberração” e “drogada” é apenas mais um exercício de liberdade de expressão que tudo permite, menos as consequências. Estas, receio, são mais um exercício de opressão daqueles que, na verdade, mais desejam oprimir.

Mas não é disto que este texto trata. O problema incide em quando o escândalo se torna mainstream e toma de assalto a discussão política do país.

Quando o esquema cleptomaníaco de Miguel Arruda foi descoberto e se tornou num tema megalómano, o Chega rapidamente agiu de forma a ser visto, particularmente pelos seus eleitores, como o “adulto na sala” – ao distanciar-se publicamente do deputado e, mais importante que isso, a liderar a sua perseguição de ancinho e tocha na mão, teve a oportunidade de passar a mensagem que sempre desejou passar: “nós somos implacáveis”. O mesmo fez com Nuno Pardal Ribeiro, acusado de prostituição de menores.

Claro que para nós, moderados, este teatro em pouco ou nada afeta a nossa visão do Chega. Afinal, sabemos que os crimes foram cometidos por pessoas que, muitas vezes, professam o seu contrário e até, hipocritamente, sugerem pesadas penas para os atos que eles próprios praticam. Para o eleitorado tendencialmente inclinado para o Chega, no entanto, importa não tanto o que algumas “maçãs podres” fazem dentro do sistema, mas sim a reação do partido como um todo. Para o eleitorado tendencialmente centrista, estas maçãs podres, que não são assim tão poucas, importam – são o sinal de um pomar envenenado, propriedade de um vil fazendeiro que faz das árvores o que quer.

Quer isto dizer que os escândalos funcionam de forma diferente quando o sujeito é a extrema-direita, mesmo que o predicado seja irrefutável. A verdade é esta: os escândalos só afastam quem já não ia, de forma alguma, associar-se ao Chega; e pela forma como o Chega lida com os escândalos, aproxima quem já tem tendência a se associar com o partido. É essa a sua especialidade, o seu bread and butter, a sua forma de atuar e a sua forma de se consolidar politicamente. Para o Chega, a máxima da publicidade mantém-se verdade: falem bem ou falem mal, o importante é que falem – porque a cada escândalo que passa, vão semeando a desordem e colhendo mais militantes.