Na política, a oratória é sem dúvida, uma das qualidades mais importantes para quem ambiciona um cargo público, e deseja conquistar um eleitorado. Alguns possuem este dom de forma natural, outros não. Podemos ter ideias fantásticas, mas se a capacidade de as comunicar for nula, mais vale esquecer a carreira política e tentar ser escritor ou seguir outra via que nos permita partilhar o que temos para dizer.

Nos recentes debates presidenciais na TV, tem ficado patente que, apesar da maior ou menor qualidade da oratória de cada candidato, as ideias e a argumentação apresentada soam a algo estafado, gasto, um “déjà vu” vindo diretamente das legislativas anteriores. Confesso que, por vezes, já nem percebo que tipo de eleições estão a ser disputadas, tal é o diz que faz de cada um dos candidatos. Os moderadores, confesso que também não ajudam, com perguntas sem nexo, às vezes provocatórias ou sem qualquer interesse esclarecedor para o eleitor normal.

Ora, o nosso sistema político é semipresidencialista, o que significa que o poder executivo reside no Governo e que o Presidente da República, para além da “Bomba Atómica” em termos governativos , é, sejamos realistas, um mero corta-fitas. Relevo, contudo, o facto de ser o maior e mais legítimo representante da Nação. Dito isto, quando observamos candidatos à Presidência,  não terem uma opinião clara sobre a humilhação que o Estado Português sofreu recentemente em Angola, com a presença do nosso PR como convidado “Especial”, ficamos a pensar se não deveria haver, também, uma “Bomba Atómica” que pudesse ser exercida sobre o próprio Presidente?

Um País que renega a sua História não tem futuro. Nós, Portugueses, temos uma História única no mundo, seja ao nível dos Descobrimentos, seja ao nível da Colonização, da qual nos deveríamos orgulhar e ser sempre seus defensores. Um Presidente da República eleito não pode ser dúbio em relação a estas questões.

Só é piloto de corridas quem tem qualidades inatas para tal, tendo dado provas e conseguido resultados para convencer os sponsors. Estes arriscam e investem, pensando no retorno, quer no prestígio da marca que representam, quer nas vendas associadas. Também na política, os políticos, através dos votos que conseguem, garantem uma das coisas mais difíceis: os sponsors, que somos todos nós, os eleitores. Só que, ao contrário das corridas, os candidatos não produzem qualquer resultado prévio que possamos avaliar. É por isso que a oratória é primordial e importante; é ela que nos leva a escolher e a apoiar este, em vez daquele candidato.

Os Estados Unidos são um exemplo proeminente do mundo ocidental, onde actores e empresários se transformam em políticos, virando Governadores de Estado ou até Presidentes, como no caso de Ronald Reagan, que muitos destacam como um dos melhores Presidentes Americanos. Têm poder de oratória, boa aparência física, dentes perfeitos, cabelo farto e, no mínimo, capacidade para decorar um papel em que os eleitores acreditem o suficiente para os eleger. O resto traduz o jogo político e económico de interesses que regem as actuais opções feitas pelo partido vencedor. Na Europa, apesar de o paralelismo poder ser censurável por muitos, observamos que cada vez mais nos aproximamos desta cultura de fast-food do talento político. Há candidatos que desvalorizam algumas destas condições, uns porque não as possuem, outros porque não as conseguem ter, mas na prática lá como cá o resultado acaba por ser o mesmo.

No mundo de hoje, em que a grande maioria dos eleitores forma a sua opinião por aquilo que vê e escuta através dos meios audiovisuais, a aparência é a primeira impressão para a escolha: se continuamos a ouvir ou se “passamos à frente”. Daí, muitos optarem por chocar-nos para captar a atenção, ganhando vantagem sobre conteúdos melhores, mas que desconhecem o quanto importante é esta condição de visibilidade. Assim, além da oratória, não podemos dissociar da política todos estes parâmetros, que são cada vez mais determinantes na nossa decisão. Fico com a impressão que cada actor político escolhe um papel a decorar, e que da forma como o  interpretar ao longo de todo este processo eleitoral, ditará a nossa perceção e escolha no dia das eleições. Na verdade,  pelas ideias que apresentam, não há qualquer novidade que justifique maior destaque de um sobre os outros. No final, tudo se resume a sermos convencidos de que a oratória de um candidato é mais penetrante  e consistente do que a dos adversários. Feita a escolha, voltamos para casa com a sensação do dever cumprido, e de termos dado o nosso contributo democrático. Porém, na realidade, essa escolha raramente é baseada numa análise racional e profunda, mas sim influenciada por factores externos que, frequentemente, nem sequer estão alinhados com as nossas verdadeiras crenças e convicções.