No passado domingo, os portugueses elegeram um novo presidente da República depois de na primeira volta das eleições nenhum candidato ter obtido maioria absoluta. A eleição de António José Seguro, além de expectável, é inequívoca, mas os resultados eleitorais exigem uma reflexão política mais profunda.

A mais evidente ilação que podemos retirar deste processo eleitoral é que os portugueses rejeitaram os extremos. Na primeira volta, a extrema-esquerda nem 5% dos eleitores conseguiu convencer, enquanto em ambos os sufrágios mais de dois terços dos eleitores enjeitaram a extrema populista.

A segunda volta é particularmente ilustrativa desta rejeição, uma vez que foi a primeira vez que os portugueses foram forçados a escolher entre um candidato moderado e o líder da extrema demagógica nacional, André Ventura. E perante este dilema, o eleitorado foi cristalino a rejeitar o último. Aliás, uma grande parte dos cidadãos que não votaram em António José Seguro na primeira volta e que certamente não partilham o mesmo espaço no espectro político nacional confiaram-lhe o seu voto no segundo sufrágio, de tal modo que Seguro bateu o recorde de votos que Mário Soares obteve na segunda volta das presidenciais de 1986. A este propósito, contesta-se que o número de eleitores inscritos era muito inferior em 1986 do que em 2026. Ainda que isto seja verdade (7,612,733 eleitores em 1986 contra 10,948,658 em 2026), o número de votos contados nas duas eleições é mais aproximado (5,937,100 há quarenta anos e 5,484,477 este ano).

Em suma, a mensagem dos cidadãos nacionais foi clara e retumbante: é preferível um moderado mediano a um extremista excelente.

Assim, ao contrário do que diz o líder do Chega, o resultado eleitoral não traduz uma pretensa aliança de um alegado sistema (que Ventura nunca concretizou em que consistia) contra si e o seu partido, mas sim a denegação da sua política, da sua forma de fazer política, das suas evocações suspeitas ao tempo da outra senhora e do seu completo vazio de ideias realistas para reformar o país e melhorar a qualidade de vida dos cidadãos. Aliás, ao forçar a narrativa do conluio do sistema, o próprio ex-candidato presidencial ofende a inteligência do povo que diz defender e representar quase em exclusivo, ao insinuar que 3.5 milhões de cidadãos portugueses se deixaram manipular todos por uma máquina política conspirativa, à semelhança do que acontecia nos tempos da monarquia.

Por outro lado, André Ventura entra em contradição consigo próprio e com a narrativa do sistema ao se lamuriar que a Esquerda e a Direita se uniram contra si para logo a seguir se afirmar como líder da Direita em Portugal. Bem sei que a adesão do presidente do Chega à realidade e à verdade é intermitente, mas para aqueles cidadãos que ainda se regem por princípios mínimos de lógica e de credibilidade aquela incoerência não pode deixar de ser notada.

Na verdade, Ventura não pode ser líder da Direita, porque Ventura não é de Direita. Em termos de conteúdo programático e de medidas defendidas, a ideologia do Chega é a demagogia e o populismo, saltitando entre propostas que parecem ter saído do comité central de um qualquer partido comunista (e.g., salário e pensão mínimos nos 1,150 euros, reforço do sector empresarial do Estado e mais recentemente a sua oposição à necessária reforma laboral proposta pelo governo) e estratégias que envergonhariam o mais anarquista dos libertários (vid. programa eleitoral de 2019) ou o mais anacrónico dos conservadores (oposição ao aborto, às comunidades LGBT, aos migrantes). Mesmo as suas posições ultranacionalistas, que tratam a História como um instrumento de propaganda e não como uma ciência, não encontram respaldo na Direita portuguesa.

Além disto – e na minha opinião, mais relevante – a sua forma de fazer e de estar na política encontra-se nos antípodas de qualquer um dos líderes e principais protagonistas da Direita em Portugal desde o 25 de Abril. Com todos os seus defeitos e limitações, políticos como Pinto Balsemão, Cavaco Silva, Passos Coelho ou – na Direita mais conservadora – Freitas do Amaral, Lucas Pires ou Paulo Portas nunca desceram ao nível em que André Ventura consistentemente intervém na política.

Ser de Direita (mesmo da mais conservadora) é defender determinadas ideologias sem ser maniqueísta e sem acusar os adversários de ser anti (ou do sistema). É debater sem procurar semear o ódio ou a divisão entre grupos da mesma comunidade (os portugueses de bem contra, presumivelmente, os portugueses de mal). É apresentar propostas de forma assertiva, apaixonada e contundente sem ser descortês ou grosseiro. É discutir com factos e sem recorrer consistentemente à mentira, confundindo abusivamente perceções com dados objetivos, ou instigando rumores sem fundamentação. Por estas razões, Ventura e o Chega não são de Direita, pertencendo sim ao espaço político do extremismo heterogéneo e populista.

Neste sentido, o resultado das eleições presidenciais de 2026, a vitória da política moderada, não pode deixar de ser animador. Contudo, o desafio persiste e passa por impedir que se legitime a inclusão do Chega na Direita e que se normalize o chauvinismo, o cataventismo ideológico, o conflito social artificial, a grosseria e a mentira como componentes do debate político.