Não deixa de ser irónico que um mandato marcado pela proximidade e política de afetos tenha como verdadeiro teste à sua consistência uma doença em que a proximidade e o excesso de afetos são dois dos principais motivos de contágio. Talvez por isso o Presidente da República não tenha sido capaz de antecipar um conjunto de erros de avaliação política e de comunicação, os quais vão ter consequências na sua popularidade e talvez até no previsível passeio no parque que seria a sua reeleição.

Tudo tem corrido mal ao Presidente da República no que ao tema COVID-19 diz respeito. A começar por considerar excessiva a recomendação da Direção-geral da Saúde de distanciamento social, garantindo não ver motivos para cancelar eventos e a agenda da presidência.

Isto no início de março, já depois de diagnosticados os primeiros casos de COVID-19 em Portugal. “Não vi razão até agora para alterar o essencial do comportamento. Não se pode dizer que não há alarmismo, e multiplicar a prevenção e causar alarmismo”, disse aos jornalistas após um evento no palácio de Belém.

Azar dos Távoras: num desses eventos participaram alunos de uma escola do norte do país, na qual surgiram casos confirmados de infeção pelo novo coronavírus. E talvez aí o Presidente da República tenha percebido que este vírus era um perigo real, até mesmo para a mais importante instituição do país.

Numa tentativa de alterar a perceção do público sobre o seu comportamento contraditório com as recomendações das autoridades de saúde, percebendo o crescente temor da população com o coronavírus, Marcelo Rebelo de Sousa decide depois vestir o papel de cidadão exemplar e isola-se numa quarentena autoimposta. Novo erro.

Passemos por cima do fato de ser testado para uma possível infeção pelo novo coronavírus quando não cumpria critérios para tal. Afinal, Presidente da República é Presidente da República.

Passemos também pela cena algo patética de declarações aos jornalistas a partir do terraço da sua casa. Sim, essas mesmo!, em que anuncia o resultado negativo do teste a que se submetera (já voltaremos a esse assunto), dá conta de que aproveitará para lavar a loiça, pôr a roupa a lavar e fazer refeições, havendo ainda tempo e espaço para uma previsão de que o coronavírus não será motivo para um orçamento retificativo (mais um erro de análise!).

Tudo de forma atabalhoada e muito pouco profissional, ficando para a posterioridade um conjunto de vídeos caseiros de má qualidade, sob a forma de entrevistas e de uma declaração ao país. O que, mesmo numa presidência que vive de um permanente “one-man show”, não é aceitável no contexto de pré-emergência que à época já se vivia.

Regressemos agora à decisão de manter uma quarentena autoimposta após um resultado negativo do teste ao coronavírus. Qual a intenção do Presidente da República?

Imagino que seria um misto de hipocondria e de querer explorar aquilo que numa política de afetos é fundamental: mostrar que se é um cidadão igual aos outros.

Mas o Presidente da República não é igual aos outros cidadãos. De um Presidente da República espera-se que não se entrincheire quando nada o justifica, espera-se capacidade de liderança e de capacidade de análise dos acontecimentos, da situação política e social do país.

Numa altura em que o temor do país crescia exponencialmente face à ameaça do vírus, onde estava o Presidente da República? Em casa, saudável.

Com o evoluir da situação em Portugal e no resto do mundo, do número de infeções confirmadas, com os vários responsáveis políticos a tomarem medidas que se impunham, Marcelo Rebelo de Sousa percebe finalmente o erro que cometera, que teve como resultado a perda de capacidade de liderança política e de marcação da agenda do país. Anunciado o fim do recolhimento presidencial – justificado, sem que a comunicação social questione devidamente essa justificação, com a realização de um segundo teste, que vem confirmar o resultado do primeiro – há que o fazer em grande estilo: sacando de uma das bombas atómicas disponíveis no arsenal do Chefe de Estado, a declaração do estado de emergência.

Que melhor forma para mostrar que se está atuante do que anunciar com a devida antecedência a realização de um Conselho de Estado para tomar essa decisão? Nada mal para quem uns dias antes havia dito não querer “causar alarmismo”.

Sejamos objetivos: o governo tomou as medidas que achou adequadas em cada momento, não sendo para isso necessária a declaração de qualquer estado de emergência. Prova disso mesmo é a forma exemplar como a generalidade da população acatou as recomendações feitas e se adaptou às limitações que as medidas governamentais trazem ao seu dia-a-dia.

A declaração do estado de emergência é assim completamente inócua. Ainda assim, nenhum dos partidos políticos a ela se opôs abertamente, porque as emoções da população estão à flor da pele e nessa coisa da alta política há que saber estar atento às emoções dos eleitores.

Nem nenhum órgão de comunicação social questionou devidamente os fundamentos e real necessidade da decisão presidencial. Porque isto de ir alimentando os media com telefonemas para este e aquele programa televisivo, dar entrevistas caseiras via skype (ou até no terraço) para os principais canais informativos e mostrar uma disponibilidade permanente para debitar declarações para qualquer microfone que se estenda tem um ganho óbvio: não se questiona verdadeiramente, não se critica (salvo raríssimas exceções) o Presidente da República.

O próprio governo, na pessoa do primeiro-ministro, assumiu não haver necessidade desta decisão presidencial. Ainda assim, não a obstaculizou.

O governo não quer tirar o tapete ao Presidente da República. Fez bem: a legislatura vai ser difícil e há que ter alguns cromos para trocar no futuro com Marcelo Rebelo de Sousa.

As medidas que o governo tomará no combate à pandemia serão seguramente as necessárias e adaptadas ao evoluir da situação. Com a devida ponderação, para que não matemos a economia com a cura para o vírus.

Pelo menos é isso que se espera. Espera-se também, daqui para a frente, um Presidente da República à altura dos desafios que teremos de enfrentar.

Consciente disso, o Chefe de Estado fez um discurso muito inteligente aquando do anúncio da declaração de estado de emergência. Inteligente porque colocou a tónica no interesse nacional e no normal funcionamento da democracia, matérias inquestionáveis e acima do debate político.

Como estamos todos demasiado ocupados e preocupados com esta autêntica situação de emergência, o Presidente da República lá vai sobreviver aos vários erros de análise cometidos no âmbito da crise provocada pelo COVID-19. Mas este foi um momento determinante para a revelação do verdadeiro caráter do Chefe de Estado.

É que não é no meio de beijos, abraços e demonstrações de afeto que se mostra de que são feitos os líderes. Mas sim nas situações difíceis como aquela que hoje vivemos.