Li o artigo que Cavaco Silva publicou no Expresso da semana passada, “Empobrecimento e silenciamento”. É raro uma pessoa estar de acordo, do princípio ao fim, com um diagnóstico da situação do país, mas foi o que me aconteceu ao lê-lo. Numa linguagem precisa, tornada possível por um pensamento claro, traça um retrato perfeito da nossa situação presente, sem nunca se perder no acessório ou no acidental, ou em detalhes que desviariam a atenção do essencial. Era isto que andávamos muito a precisar de ler.

Sei perfeitamente que elogiar Cavaco – ou um homem tão diferente dele como Passos Coelho, já agora – provoca em muita gente uma reacção instantânea. Eis, dizem, a velha direita no seu pior, nostálgica de um salvador providencial e sempre pronta a agarrar-se a uma figura tutelar qualquer que lhe lembre o, por regra imerecido, poder de que já gozou. Pobre e decadente direita, continuam, que não esqueceu o velho sebastianismo de João de Castro e sonha (em vão) com um encoberto que retorne para expulsar os novos castelhanos (a esquerda) do governo do país. Esta reacção é muito reveladora de uma certa visão das coisas, uma visão das coisas que subordina a atenção à realidade ao princípio de uma desclassificação moral do adversário. Os argumentos deixam de interessar a partir do momento em que se define o adversário como alguém que, por intrínseco defeito de carácter ou por inconfessáveis interesses, deseja ardentemente o retorno do passado, quando o dever cívico exige que se pense no futuro. O pequeno problema com este belo raciocínio é que uma tão ideológica visão das coisas engole literalmente o futuro na preocupação muito premente de manter o poder presente. O futuro deixa de ser um tempo de construção, no qual podemos projectar os nossos desejos de uma vida melhor e mais justa, para se tornar um mero instrumento verbal destinado a assegurar o domínio do presente. Daí que o rigor e a probidade precisem de ser caricaturados, já que funcionam como desmentidos dessa falsificação da vida política. É dessa falsificação que nos fala Cavaco.

O que diz Cavaco? Em primeiro lugar, trata-se de mostrar que, contrariamente ao que se passara durante o grosso dos anos 90, a partir de 1999 Portugal começou a afastar-se, sob governos do Partido Socialista, da meta de atingir o nível de desenvolvimento médio da União Europeia, mergulhando numa “estagnação económica” e num “empobrecimento em relação aos outros países do grupo europeu com que nos comparamos”. Mais: desde 2004, altura em que aderiram à UE oito países da chamada Europa de Leste, já vários desses países nos ultrapassaram no plano do crescimento económico e calcula-se que vários outros o venham a fazer a curto prazo. As consequências desse empobrecimento relativo do país medem-se pela cada vez mais fraca qualidade de vários serviços públicos fundamentais, nomeadamente nos cuidados de saúde e no ensino público. Em tudo isto, o PS tem fortes culpas, e não há como se livrar delas. O que o governo de Passos Coelho fez, nas circunstâncias trágicas que se sabe, foi inteira e consistentemente desaproveitado por António Costa. O PS, necessitando do apoio do Bloco e do PC – que, como escreve certeiramente Cavaco, nunca fizeram realmente do combate à pobreza “uma prioridade efectiva” –, absteve-se espertamente, obedecendo à sua lógica de poder, de todas as medidas necessárias à reforma do Estado, condição indispensável para o aumento de competitividade do país.

Esta desgraça, como não podia deixar de ser, alastrou-se à sociedade no seu todo, sob a forma tradicional do temor. Discordar de Costa, do chefe, não se faz. A comunicação social verga-se à sua sapiência, com uma discordância aqui e ali, para mostrar a sua “independência” na bela página dos jornais ou em frente às câmaras da televisão, onde tudo (não me venham com as “redes sociais”) o que importa se passa. A “propaganda” e a “desinformação” grassam, resultado da “aposta socialista no silenciamento do empobrecimento relativo do país”, que resulta numa “perda de qualidade da democracia portuguesa”: “Portugal deixou de ser uma democracia plena”. Parece o óbvio, se uma pessoa tiver um ou dois neurónios disponíveis para pensar.

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Cavaco Silva é um político e indica “dois grandes desafios. Por um lado, recuperar as posições perdidas e aproximar Portugal do pelotão da frente dos países da UE em termos de desenvolvimento. Por outro, trazer Portugal de volta aos países de democracia plena.” É quase uma sua obrigação apontar tais desígnios, tal como o é desejar que se constitua uma oposição política que deixe de ser “débil e sem rumo, desprovida de uma estratégia consistente de denúncia dos erros, omissões e atitudes eticamente reprováveis do Governo”.

Nunca me foi tão fácil, confesso, escrever um artigo para o Observador. Praticamente, limitei-me a repetir, às vezes textualmente, o que Cavaco Silva disse. Por puro e genuíno acordo. E também, porque há sempre um prazer nestas coisas, por constatar mais uma vez que há alguém nesta terra que pensa, tanto quanto possível, em contacto com a realidade, sem que o véu da ideologia venha fazer a vez dela para distrair as cabeças opinantes e os cérebros opinados e habituados a pensar a crédito.

E lembrei-me de uma expressão corrente, poucos tempos depois do 25 de Abril de 1974: “complexo de esquerda”. A expressão tende para o brutal e o vocabulário dos “complexos” deve-se sem dúvida evitar, mas servia para designar aqueles que, não sendo de esquerda – não passaria pela cabeça de ninguém acusar Álvaro Cunhal de uma tal maleita mental – , alinhavam com a esquerda em certos pontos, fundamentais ou acessórios, normalmente pelo compreensível medo de serem mal vistos caso não o fizessem, um medo que era estimulado não só pelo seu interesse próprio como também pela vacuidade das suas cabeças (é um facto humano assinalável que a vacuidade do espírito é perfeitamente compatível com a prospecção activa do interesse privado). São vários os muito conhecidos que assim eram e ainda andam, pimpões e televisivos, por aí.

Ora, o tal “complexo de esquerda” é, no fundo, um padecimento da direita. E não é menos patente hoje em dia do que era quando eu – bons péssimos tempos, horríveis maravilhosos temposl – era novo e já descreditava da opinião comum, graças a Deus (é uma maneira de falar, até prova em contrário) e aos meus pais. Não se pede sequer que se olhe para o PSD, onde o nevoeiro é tal que a observação exige talentos de naturalista exímio e amazónico. Olhe-se para o CDS, que é mais fácil, porque tudo se passa a olhos vistos, no quintalinho. Num caso ou noutro – não certamente em Francisco Rodrigues dos Santos, que parece ser um homem digno e probo –, a esquerda provoca, como Maria Monforte provocava, n’Os Maias, ao poeta Alencar, “uma impressão de causar aneurismas”. Cavaco Silva, que obviamente não se refere a estas tristes histórias e navega muito acima delas, não sofre destes equívocos complexos, como aquilo que escreveu amplamente mostra. Por isso, neste pequeno mundo do qual nos despedimos, um pouco ou muito, todos os dias, conforta ouvi-lo.