Não há dúvidas de que, nos últimos anos, o panorama do mercado de trabalho em Portugal sofreu significativas alterações. Se isto é verdade em relação à generalidade das áreas, ainda mais o é quando falamos das Tecnologias de Informação (TI). Os profissionais desta área são hoje extremamente valorizados e esse facto reflete-se nos vencimentos praticados, com os intervalos salariais a continuarem a disparar.

À medida que observamos este “boom” no setor da tecnologia e ao aumento do número de ofertas, também as opções existentes no mercado se multiplicam e diversificam — o World Economic Forum estima, por exemplo, que 65% das crianças que entram hoje na primária, terão empregos que ainda não existem. A acompanhar esta tendência, cada vez mais profissionais escolhem ou convertem-se a um percurso no setor tecnológico, muitas vezes sem a total compreensão da realidade do mercado e de tudo o que este encerra, nomeadamente, no que diz respeito aos salários e o que os determina.

Analisando o contexto nacional, há quatro vetores que influenciam consideravelmente os salários e que não têm uma correlação direta com a capacidade da pessoa.

O primeiro deles está relacionado com a tipologia da empresa. No panorama português, encontramos as empresas que desenvolvem produtos, que não tinham uma presença muito acentuada no nosso país, mas que começam agora a firmar-se e que se caracterizam por trabalhar numa lógica planeada e sustentada. De seguida, as empresas de serviço, onde se incluem as consultoras, que funcionam por projeto e que, no passado, empregavam o grosso das pessoas que trabalhavam no mundo das TI em Portugal. Por fim, temos as empresas intermediárias ou de bodyshopping – por menos que assim gostem de ser chamadas -, que cedem pessoas à hora a outras empresas.

Então, se estivermos a falar de um profissional “top”, onde é que ele poderá ganhar melhores salários? A resposta é dotada de uma lógica incontestável: onde a empresa conseguir tirar melhor partido da sua produtividade. Ou seja, se tivermos alguém a concorrer a um emprego que vende um serviço à hora, como é o caso de uma empresa de bodyshopping, a sua produtividade não é compensada; logo, por mais que o trabalhador queira negociar, o seu salário nunca poderá ser muito elevado. Numa empresa que trabalha por projeto, se a pessoa conseguir ser produtiva, a empresa ganha mais e, portanto, pode pagar salários mais altos. Se falarmos em empresas de produto, isto escala exponencialmente.

Podemos, por isto, concluir que os salários têm uma correlação com a produtividade e, sendo esta mais valorizada em empresas de produto, é aqui que se apresentam as melhores remunerações. Uma coisa é certa: se tivéssemos mais Googles e Amazons em Portugal, haveria milhares e milhares de (bons) empregos.

O segundo e terceiro eixos a enumerar são a tipologia dos projetos e a área de mercado. Num projeto novo, não só a exigência é superior, como também o desafio para o profissional, com novas versões das tecnologias; pelo contrário, um projeto de manutenção não é, por norma, muito estimulante, com tecnologias antigas. Infelizmente, há cada vez mais pessoas a trabalhar em projetos de manutenção, onde, proporcionalmente à complexidade, os salários são inferiores. Já no que diz respeito à área de mercado, deparamo-nos com algumas mais dinâmicas e outras que estão claramente em queda. Costumo dizer que, se uma pessoa entrar numa área em que há um tsunami, “vai na onda”, sem ter que fazer praticamente nada. Mas, se entrar numa área que está moribunda, será mais complicado. Realce-se que, dentro da própria empresa, podem existir áreas mais dinâmicas e áreas moribundas e as rápidas mudanças tecnológicas ditam que o que hoje é inovador, amanhã está desatualizado, como está a acontecer no setor financeiro.

Finalmente, não posso deixar também de referir o papel fulcral da localização na definição das questões salariais. Não podemos comparar um salário que se pratica em Portugal com um salário que se pratica em Londres, por exemplo. O progressivo aumento da possibilidade de trabalhar remotamente, contudo, tem-se vindo a provar transfigurador e veio “baralhar” um pouco as coisas; podemos bem estar em Portugal, mas a trabalhar para uma empresa de um país onde se praticam salários mais elevados. E, uma vez que a localização afeta tanto ou mais os salários do que a senioridade, esta está a revelar-se uma forte tendência para os profissionais das TI.

Em suma, mais do que diretamente ligados ao profissional – ao seu valor, ao seu conhecimento, às suas capacidades – os salários relacionam-se com estas quatro condicionantes. Quando estou envolvido em discussões sobre salários, tento sempre avaliar estas questões antes de qualquer outra. “Diz-me onde andas (Localização/Empresa), diz-me com quem andas (Tecnologia/Mercado), dir-te-ei o que ganhas”.

CEO da Landing.jobs