Por coincidência, ou para nosso azar, a lista britânica com os destinos seguros para os seus turistas saiu na mesma semana que a decisão do governo português sobre a TAP. De acordo com os dados divulgados pela Autoridade Nacional da Aviação Civil (a que cheguei por via do Polígrafo) esta companhia aérea representa cerca de metade dos voos para Lisboa, mas uma percentagem muito menor para os restantes quatro aeroportos nacionais. Para ser mais específico, apenas 28% dos passageiros que chegam ao Funchal o fazem através da TAP. Para Ponta Delgada são apenas 17%. Quanto ao Porto só 20% dos passageiros que chegam à invicta o fazem por via da TAP. Mas a cereja em cima do bolo diz respeito a Faro. Sabia que a TAP foi responsável por apenas 3% (repito, 3%) dos turistas que chegaram ao Algarve no terceiro trimestre de 2019? Com estes dados (e é com dados concretos que se devem tomar decisões políticas e económicas) quem é que pode concluir que a insolvência da TAP seria catastrófica para o turismo algarvio?

Houve um ponto que estranhei na reacção do governo português à decisão britânica de exclusão de Portugal da lista destinos seguros: foi emocional. A decisão de Londres foi qualificada de injusta e de não ter em conta uma amizade de séculos. Não se apresentaram argumentos racionais. Não se disse, por exemplo, que o problema da Covid-19 se circunscreve a Lisboa e que a situação no resto do país é bem diferente do da capital. Este  argumento perfeitamente racional não foi usado como crítica à decisão britânica porque se o fosse a pergunta seguinte seria imediata: chegou a ser proposta a exclusão de Lisboa para que nem o Porto nem o Algarve fossem excluídos? E outra pergunta seria também obrigatória: a não exclusão de Lisboa em prol do resto do país deve-se ao facto de a TAP ser importante apenas para a capital? Ou posto de outra maneira: não se excluiu Lisboa em benefício do resto do país porque tal evidenciaria que o turismo nacional não precisa da TAP? A resposta portuguesa terá sido emocional porque o governo não quis usar a razão já que esta poria a descoberto o que está em causa: uma opção ideológica por uma empresa mesmo que em detrimento do país.

A resposta portuguesa foi emocional não porque não tivesse a razão do seu lado mas porque os argumentos racionais poderiam prejudicar a TAP. Fica a dúvida, mas não os turistas.

Estas perguntas são indispensáveis pois a redução da TAP a Lisboa é tão óbvia que nem sequer foi disfarçada quando, em Maio, a administração da companhia anunciou que a maioria dos voos para Julho teriam origem na capital.

Estes dois episódios (a tomada da TAP pelo estado e a exclusão de Portugal Continental dos destinos turísticos britânicos) são também relevantes porque evidenciam três problemas da democracia portuguesa: primeiro, que o governo preferiu aceitar a destruição de empregos gerados por pequenas e médias empresas que vivem do turismo a perder a TAP; segundo, que a descentralização é mesmo conversa fiada usada para ganhar votos e criar mais lugares na administração pública; terceiro, que há falta de escrutínio em Portugal.

A falta de escrutínio é o problema mais grave do país. Explica questões tão simples como saber como é que Salazar se aguentou quase 40 anos no poder; como é que aguentámos o PREC; que Guterres tenha saído só quando a situação se tornou pantanosa; que Sócrates tenha sido idolatrado por boa parte da população portuguesa e grande parte dos comentadores políticos (que apenas lhe viraram as costas quando perceberam que perdiam mais do que ganhavam na sua associação àquele primeiro-ministro); explica a dívida e a ideia de que o dinheiro que vem de Bruxelas é de graça. Faz-nos compreender a forma como a maioria engoliu (é este o termo) a história dos fabulosos administradores da então PT; a imprescindibilidade da Caixa Geral de Depósitos para a economia nacional e a necessidade absoluta da RTP para a cultura portuguesa. Elucida-nos sobre as razões que levaram Rui Rio, o líder do maior partido da oposição, a dizer (e a ser elogiado pelos mesmos comentadores políticos que então elogiavam José Sócrates) que é anti-patriótico criticar o governo. Os motivos que o levam a pretender o fim dos debates quinzenais com o primeiro-ministro. É anti-patriótico pensar; é anti-patriótico dizer; é anti-patriótico perguntar. E quem não pensa, não diz ou sequer pergunta arrisca-se a ser surpreendido. Algo que já nos aconteceu tantas vezes que me leva a que duvide se temos assim tanta preferência pelo masoquismo ou se os interesses andam tão entranhados que poucos ainda pensam, dizem e perguntam de forma lúcida.

André Abrantes Amaral