O cenário do crime não podia ser mais emblemático: a Galerie d’Apollon, no Museu do  Louvre, o maior e mais visitado museu do mundo, guardião de tesouros que definem a  civilização — entre eles, a imortal Mona Lisa, protegida por vidro antibala e sensores  térmicos. E, contudo, foi nesse mesmo espaço, símbolo da eternidade da arte e da realeza,  que um conjunto de joias reais de incalculável valor histórico desapareceu  misteriosamente.

Entre as peças subtraídas figuravam a Tiara de Safiras e Diamantes de Maria Amélia de  França, Rainha dos Franceses, e a Tiara da Imperatriz Eugénia, esposa de Napoleão III.  A Tiara de Safiras, obra da Casa Bapst, joalheiros oficiais da Coroa Francesa, combina ouro  branco, diamantes e safiras do Ceilão. Pertenceu à Rainha Maria Amélia, esposa do Rei Luís  Filipe I e bisavó da Rainha D. Amélia de Portugal, mãe de D. Manuel II, o último Rei de  Portugal.

A peça, que atravessou o exílio da Casa de Orléans, encontrava-se mais recentemente na  posse da Condessa Isabel de Paris, tia materna de S.A.R. o Duque de Bragança, Dom Duarte  Pio, confirmando as raízes comuns entre as dinastias francesa e portuguesa, tendo sido  vendida pela Família Real Francesa ao Museu do Louvre. Já a Tiara da Imperatriz Eugénia,  executada pela lendária casa Mellerio dits Meller, é uma das obras-primas do Segundo  Império.

Após o colapso do regime napoleónico, foi adquirida pela Família dos Príncipes Thurn und  Taxis, quando do leilão organizado pela República Francesa, logo a seguir ao casamento do  Rei D. Carlos I e da Rainha D. Amélia de Orleães e Bragança em 1886, e usada pelas Infantas  D. Isabel Maria e D. Maria Ana de Bragança, casadas, respectivamente, com o 9.º e o 10.º  Príncipe de Thurn und Taxis, figuras da aristocracia bávara e tias paternas de Dom Duarte  Pio de Bragança.

Estas joias não são apenas artefactos de ouro e pedras: são testemunhos vivos de uma  Europa de alianças dinásticas e culturais, onde o matrimónio unia reinos e símbolos.  O mais inquietante, porém, é o local onde tudo ocorreu. O Museu do Louvre, supostamente o mais seguro do planeta, com vigilância humana permanente e mais de quatro mil  câmaras, viu violada a sua confiança.

A Galerie d’Apollon, recentemente restaurada, alberga o núcleo mais precioso do tesouro  real francês: a Coroa de Luís XV, o Ceptro de Carlos X e o célebre diamante Regent, de 140  quilates, que Napoleão Bonaparte mandou cravar na sua espada imperial.  Como pôde, pois, o museu que guarda a Gioconda deixar escapar-lhe o brilho da sua própria  história?

Este episódio evoca, de modo doloroso, um precedente que Portugal conhece bem: o roubo  do Tesouro Real Português em Haia, ocorrido na madrugada de 2 de Dezembro de 2002, no  Museon, nos Países Baixos.

As peças portuguesas encontravam-se expostas na mostra internacional The Diamond:  From Rough Stone to Gem quando seis das mais valiosas foram subtraídas em segundos,  apesar dos alarmes e câmaras de segurança.

Entre as peças roubadas contavam-se um Colar de Diamantes (Rivière) pertencente a D.  Maria Pia de Sabóia, Rainha de Portugal; uma parure de brincos e broche de diamantes, do  tempo de D. João VI; um anel de diamantes e botões ornamentais do século XIX; e diversas  gemas soltas que haviam pertencido ao espólio da Casa de Bragança.  Ao contrário do que muitas vezes se afirmou, não foram levados a coroa, o ceptro ou o  manto régio, que permaneceram em Portugal. O espólio roubado — essencialmente  joalharia de representação e peças das rainhas — nunca foi recuperado.

A justiça holandesa reconheceu a negligência do museu e indemnizou o Estado português  em cerca de seis milhões de euros. Com parte desse montante, o país pôde finalmente  concluir a ala poente do Palácio Nacional da Ajuda, inaugurando em 2022 o Museu do  Tesouro Real — hoje um dos mais modernos e seguros espaços museológicos da Europa.

Lá repousam, sob vidro blindado e vigilância de última geração, as joias que sobrevivem à  voragem do tempo: a Coroa de D. João VI (1817), usada na sua aclamação; o Ceptro do  Globo Armilar, símbolo do império ultramarino; o Manto de D. Luís I e os de outras  aclamações régias; a Diadema das Estrelas, encomendada por D. Maria Pia de Sabóia, a  delicada Diadema de D. Maria II, de inspiração romântica, símbolo do constitucionalismo  português, entre muitas outras peças de incalculável valor.

Estas peças, mais do que relíquias, são manifestações visíveis da soberania e da identidade  nacional. Cada pedra, cada brilho, contém a memória de um reino que, mesmo destronado,  permanece vivo no imaginário do seu povo.

Enquanto Paris lamenta a perda de parte do seu tesouro, Lisboa preserva o que restou do  seu, com a consciência de que a monarquia pode ter cessado, mas o património é eterno.  Em ambos os casos, é a própria ideia de Europa que ressurge — uma Europa que já foi unida  pela cultura, pela honra e pela arte, e que hoje se vê, de novo, vulnerável perante a ganância  e o esquecimento.

O roubo da Galeria d’Apollon não é apenas um crime contra a França: é uma afronta ao  património civilizacional europeu. Os ladrões levaram diamantes, mas roubaram símbolos.  E é essa a perda maior: cada tiara desaparecida, cada colar arrancado ao seu lugar, é um  fragmento da alma europeia que se extingue.

O brilho que ontem cintilava nas joias de rainhas e imperatrizes era mais do que luxo — era  o reflexo de um ideal de beleza, nobreza e espírito. E talvez seja isso que, em silêncio, mais  nos dói: perceber que, quando as joias se apagam, a Europa também se torna um pouco  mais escura.