Na política, tal como na física, não existem vazios. Se um corpo não ocupa o espaço, outro o fará (Horror Vacui). Vivemos um momento singular em que a esquerda portuguesa se encontra ideologicamente fragmentada, perdida em “ruínas” governativas e assombrada por dogmas que ela própria criou e alimentou, como monstros de Frankenstein, se viram contra o criador.

Neste cenário, permitir a ascensão ou a sobrevivência política de figuras como António José Seguro não é mérito do adversário, é um atestado de incompetência própria. É demérito puro de quem, tendo a faca e o queijo na mão, prefere discutir a qualidade da toalha de mesa.

Sejamos claros, estimo António José Seguro como pessoa e reconheço-lhe a fidelidade ao Direito. Mas a política não se faz apenas com as intenções do líder; faz-se com a máquina que o transporta. E a máquina que empurra Seguro é, assustadoramente, a mesma do passado. Por trás da figura quase neutral que ele soube taticamente construir, perfilam-se as sombras do “guterrismo”, os ventríloquos do costume e, mais grave ainda, a indisfarçável presença socrática, desde Prata Roque aos “costistas” arrancados a ferros.

Se a Direita não desmontar esta narrativa, falhará a mudança de ciclo. Porque o “Telos” socialista é imutável. Podem mudar os rostos, pode-se suavizar a tática, mas a natureza e a finalidade do projeto permanecem. Perder contra uma esquerda forte faz parte do jogo democrático. Mas falhar em capitalizar quando a esquerda está no seu ponto de maior fragilidade revela uma crise de identidade profunda. Se não conseguem convencer o país agora, quando todas as condições objetivas lhes são favoráveis, o problema não está na força de quem está do outro lado, mas na irrelevância de quem se deveria opor.

E aqui entramos no campo do incompreensível, ou do maquiavélico. Apoiar Marques Mendes? Sem retirar mérito a quem o tenha, quem, no seu perfeito juízo, acreditaria que Marques Mendes seria a chave para desbloquear o futuro de Portugal? Deixando o “romance” partidário de lado e usando a cabeça, esta escolha soa a algo mais sombrio.

Parece que assistimos a uma campanha que foi, desde o início, o seppuku de outra campanha. Será que o objetivo do PSD nunca foi eleger um Presidente de rutura, mas sim salvar um status quo que se está a esfumar? Teimam em agarrar-se a ele porque procuram a sobrevivência no “olho do furacão”, ignorando que a mudança exige a turbulência da tempestade.

Não podemos, por imperativo de rigor e honestidade intelectual, perdoar a Luís Montenegro o que foi feito com esta candidatura. Falo dele como líder do PSD não como líder do Governo.

Ao forçar a mão do eleitorado e ao dilapidar, de forma quase leviana, o capital político de uma maioria que representa 70% do Parlamento, cometeu-se um erro histórico. O PSD tinha todas as condições para assumir o papel de bastião, de líder incontestado, o Grande Timoneiro que, com pulso firme, nos levaria finalmente a bom porto, cortando as amarras com um passado de estagnação.

Em vez de assumir essa liderança de rutura, preferiu-se, inexplicavelmente, dar a mão aos socialistas. É preciso chamar os bois pelos nomes, o que vimos foi o PSD a atuar como o balão de oxigénio de quem estava em agonia, permitindo um renascimento filosófico e político do PS que parecia impossível. Esta ‘mão dada’ não foi um gesto de Estado; foi a abdicação do papel de guia em favor de uma sobrevivência partilhada. O pragmatismo impõe que se diga: ao salvar o adversário, o PSD traiu a sua missão de alternativa.

É aqui que a política portuguesa falha, na tentativa desesperada de domar o caos. Tentar suprimir as contradições para caber numa caixa de “normalidade” institucional é como tentar engarrafar uma tempestade: o resultado é, invariavelmente, vidro partido e ar parado. Não traz serenidade; traz anestesia. E há uma diferença abissal entre estar em paz e estar anestesiado.

A ciência oferece-nos uma saída para este impasse, através do conceito de Ilya Prigogine sobre as “estruturas dissipativas”. O Prémio Nobel descobriu que certos sistemas, quando sujeitos a flutuações e desequilíbrios, não colapsam necessariamente; eles reorganizam-se num nível de complexidade superior. Para evoluir, o sistema precisa do caos. Precisa da entropia.

Nós, e os partidos políticos, somos estruturas dissipativas. O caos interior é o laboratório onde o “eu” antigo, obsoleto e formatado, é desmantelado. Dói? Certamente. Confunde? Sem dúvida. Mas é fricção pura e necessária.

O perigo real para a Direita não é a turbulência de uma oposição feroz ou de uma candidatura disruptiva; é a estagnação travestida de equilíbrio. Ao escolherem figuras de consenso morno, procuram a paz dos lagos onde a água apodrece, em vez da harmonia de quem aprendeu a dançar no furacão.

Podem chamar a isto teoria da conspiração ou estratégia brilhante de preservação do sistema. Eu prefiro outra abordagem: sejamos uma estrutura dissipativa. Recebamos o impacto do mundo, deixemos que ele abane as fundações partidárias e usemos essa energia não para reconstruir o igual, mas para nos reorganizarmos numa versão mais complexa, mais honesta e mais viva.

Resta, contudo, uma última inquietação que deixo ao vosso juízo: e se a chave para o futuro inquilino do Palácio de Belém não estiver na vontade de rutura das bases, mas no apoio cirúrgico de um ex-Primeiro-Ministro que recusa o eclipse e que, num limbo estratégico, passo a passo teima em não sair de cena, mas também em nunca desaparecer do nosso horizonte?

Seja qual for o nome que os portugueses venham a escolher, a verdade política é que ele só será, de facto, eleito com o aval do eleitorado do PSD. A matemática é uma ciência que, ao contrário da crença popular, lida com a falibilidade através da probabilidade e da estatística; mas, neste tabuleiro específico, a aritmética do eleitorado funde-se na perfeição com a certeza: não há Belém sem a alma da social-democracia, por muito que a liderança insista em arrendar essa alma ao sistema.