Um dos exercícios mais fascinantes que vi na última década foi o de reunir uma equipa de economistas estrangeiros diante de um gráfico com o défice português desde 2011. A descida, que se prolonga até ao breve superávite de Centeno, termina na pandemia deste ano. Mas o que o grupo de economistas estrangeiros disse, ao olhar para aquele quadro, foi unânime entre si: parece obra de um só Governo. Os ciclos eleitorais não vinham assinalados e os académicos, desligados da nossa vida política, convenceram-se que o titular das Finanças que comandara tamanha empreitada seria, provavelmente, o mesmo. Os portugueses que estavam na sala, rapidamente refutaram a hipótese: não, senhores professores, claro que não, impossível, os governos não poderiam ser mais diferentes, exclamámos. E, até hoje, estou convencido que nem os economistas estrangeiros, nem os portugueses naquela sala estavam enganados – ou, já agora, totalmente certos.

É evidente que o Portugal que pediu ajuda externa há dez anos é diferente do Portugal que enfrenta agora uma nova crise. Mas é também evidente que Portugal continua um país fortemente endividado, dependente de investimento privado estrangeiro, de fundos comunitários e das suas exportações. A polarização que o Partido Socialista inseriu no debate político em 2015, para legitimar o acordo que substituiria a vitória da coligação PàF pelo governo da “geringonça”, trata-se de um artifício político que o tempo foi desmistificando. Se recuarmos um pouco, lembramo-nos como os apoiantes da solução à esquerda prometiam todo um novo mundo. António Costa apregoava a “queda de um muro”, Mariana Mortágua declarava o “fim da austeridade” e o mundo em geral curvava-se perante o esplendor das suas posições conjuntas, como à data lhes chamaram. Era tudo, desculpem-me o francês, uma valente treta. Costa usou e abusou dos seus parceiros parlamentares como lhe conveio – hábito que mantém – e o Bloco de Esquerda e o PCP engoliram o pior investimento público, a maior carga fiscal e os serviços públicos mais cativados de sempre. Os apoiantes da “geringonça” estavam – ou foram – enganados. A esquerda não mudou nada em Portugal, limitando-se a perpetuar um atraso, a desperdiçar um contexto internacional favorável a reformas e a adiar a morte dos sindicatos fiéis ao Partido Comunista.

No entanto, há que dizê-lo, os contestatários da solução também erraram no seu prognóstico: não houve nenhum levantamento popular contra a inversão do resultado eleitoral, a popularidade do Governo Costa foi de uma resiliência invejável e o colapso das contas públicas e dos compromissos europeus simplesmente não ocorreu. Costa, na sua habilidade, ludibriou uns e outros – ou uns e outros foram iludidos pelos seus instintos e paixões. Rui Rio, cinco anos depois, parece ambicionar o mesmo. Sentimo-lo na semana passada, com a guinada que o presidente do PSD deu, do centro-esquerda social-democrata para as possíveis conversações com um Chega “mais moderado”. Caso essa aliança igualmente invulgar se concretize, receio que o resultado seja idêntico ao de 2015: os depostos proclamarão o fim da humanidade, os aclamados prometerão um novo mundo (ou, na linguagem desta direita, um “novo regime”), o povo encolherá os ombros e pouco ou nada acabará por mudar. Será mais uma grande farsa, mais uma habilidade para as respetivas claques aplaudirem, mais um truquezinho num país que se vai acostumando a olhar a política como um concurso entre inverdades, um desfile de manhas ou um torneio de tangas cujo único troféu é, invariavelmente, o poder pelo poder.

Rio finge não querer governar para não ter de fazer uma oposição que o desgaste; Costa fingirá querer governar até ter de enfrentar uma crise que o destrua. Se algum dos dois estivesse verdadeiramente preocupado com o fenómeno populista em Portugal, não purgariam tão facilmente a verdade da sua ação política.

É essa a razão de Pedro Passos Coelho, que não fala ao país há quase três anos, estar ainda tão presente na consciência política de quem a tem: quis que fossemos muito mais do que isto. E recusou olhar para a política assim, sem seriedade.