Para lá da exaustão ou destruição dos cerca de 2000 mísseis balísticos capazes de atingir Israel, que se estima que o Irão tenha e que não durarão muitos dias, a central nuclear de Fordow é o objectivo mais duro.

Esta instalação é absolutamente crítica para o programa nuclear iraniano, pela fortificação e pela função estratégica. Trata-se de uma espécie de cofre, enterrado a mais de 80 metros de profundidade numa montanha de granito e blindado com múltiplas camadas de betão armado e aço. Tem também redundância energética e capacidade de funcionamento autónomo em modo selado. Em suma é uma fortaleza nuclear construída com um único objectivo: resistir a tudo!

A sua função é o enriquecimento de urânio aos níveis militares. A Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) confirmou que é isso que está a acontecer e ninguém enriquece urânio a estes níveis sem ser para desenvolver armas nucleares.

Ou seja, Fordow é a piece de resistence do programa nuclear iraniano, o ponto de não retorno: se ficar intacto, o Irão pode transformar urânio em ogivas nucleares num espaço de semanas, sob protecção à prova de quase tudo, com poucas hipóteses de ser interrompido.

Destruir esta fortaleza seria não só um golpe humilhante no orgulho estratégico do regime iraniano como também o colapso da narrativa interna de invulnerabilidade, já seriamente debilitada pelo espectáculo de dezenas de aviões israelitas a voar impunes sobre Teerão. Mas sobretudo a perda da capacidade de chantagem nuclear com que o Irão tem negociado com os EUA, a Europa e a ONU.

Deixar Fordow intacto é como deixar um cofre aberto e rezar para que o ladrão não esteja com pressa. Se Fordow sobreviver, o mundo inteiro poderá não conviver nada bem com o que dali sair, dado o historial revolucionário, a ideologia, a praxis e as consistentes declarações do Irão.

Destruir Fordow é desligar o relógio nuclear iraniano ou, pelo menos, atrasá-lo o suficiente para evitar uma catástrofe nos próximos anos.

Como destruir este bunker? As modalidades de acção mais realistas são:

1. Bombardeamento americano

Para os EUA seria relativamente fácil destruir a instalação. São o único país com bombardeiros B-2 e B-52 capazes de transportar a GBU-57 MOP (Massive Ordnance Penetrator), uma bomba de 13.600 kg concebida para perfurar 60 metros de betão armado. Duas ou três bombas poderiam fazer o trabalho.

O problema com esta modalidade é a postura imprevisível e hesitante dos EUA.

Durante anos, os Estados Unidos foram o grande bastião da segurança regional. Mas esses tempos parecem pertencer a um passado remoto. Hoje, Washington está preso entre a contenção diplomática, o isolacionismo e as oblíquas tácticas de acordos sejam eles quais forem, que parecem ser as obsessões do actual Presidente. O apoio americano para uma acção directa sobre Fordow não parece garantido. As “linhas vermelhas” multiplicam-se esbatem-se, aparentemente ao sabor dos humores de Washington.

2. Bombardeamento israelita.

O arsenal israelita está muito longe do americano. O que se sabe ter são três tipos principais de bombas penetrantes e plataformas para as lançar: a GBU-28, que penetra até 5-7 metros de betão; a BLU-109, que penetra 2 metros de betão e a MPR-500 que alcança um metro.

Nenhuma delas perfura os 80-90 metros de Fordow. Mas combinadas, em ondas sucessivas e coordenadas, podem escavar. Tal como uma broca industrial que, lentamente, abre caminho até ao núcleo.

Partindo de estimativas operacionais, para penetrar 80 metros de protecção, seriam precisas pelo menos 16 bombas GBU-28, lançadas sucessivamente, com precisão milimétrica, ou 40 bombas BLU-109.

A operação seria demorada, perigosa e tecnicamente exigente. Mas não impossível. Sobretudo se for – como deverá ser – precedida por amaciamento aéreo, ataques cibernéticos, sabotagens internas, guerra electrónica, etc., para desorientar os sistemas defensivos do complexo.

3. Ataque por forças especiais

Em setembro de 2024, uma operação israelita, coordenada pelas forças especiais da unidade Shaldag, desmantelou uma instalação subterrânea iraniana em Masyaf, no interior da Síria. O objectivo da fábrica era produzir mísseis balísticos precisos, com alcance suficiente para atingir Israel. A operação foi executada sob o nariz das defesas iranianas na Síria e foi um sucesso absoluto. Ameaça eliminada sem uma única baixa israelita.

Na altura, parte da operação foi mantida em segredo. Mas, em janeiro de 2025, quase todos os pormenores vieram a público e recentemente, um dos envolvidos falou abertamente, com um misto de orgulho e pragmatismo. Não se tratou apenas de uma operação estratégica. Foi também uma demonstração de capacidade.

Poderia ser uma hipótese para Fordow?

Esta modalidade é mais arriscada que as duas anteriores, mas não menos plausível e (aqui puxo a brasa à sardinha da minha “deformação” profissional), com garantia de destruição total, em caso de sucesso.

Israel já provou, repetidamente, que consegue realizar operações cirúrgicas em território hostil. Basta recordar a missão de resgate de Entebbe (Uganda, 1976), executada a mais de 4.000 km de distância, ou a operação de Masyaf.

A distância até Fordow não é proibitiva. De Telavive até lá são cerca de 1.500 km, muito menos do que a Entebbe. A dificuldade não está tanto na distância, mas na fortíssima segurança do complexo: sensores subterrâneos, vigilância constante, túneis armadilhados e, provavelmente, uma forte guarnição estacionada permanentemente além de reforços a pouco tempo de distância.

Mas o mesmo se dizia de Masyaf e, todavia, os comandos entraram e saíram. Sem rasto, sem baixas e com sucesso total.

Qual é a melhor modalidade de acção?

Se Israel tiver de actuar sozinho, sem apoio americano, a opção mais viável parece ser o bombardeamento sucessivo com GBU‑28 e BLU‑109. É longa, trabalhosa e exigente, mas factível. O desafio técnico é compensado pela liberdade de acção táctica e pelo controlo total da operação, sem arriscar um insucesso táctico que poderia levar à captura ou morte de muitos soldados.

Se os EUA se juntarem, a destruição por GBU‑57 MOP num ataque de B‑2 ou B-52, é imbatível em eficácia e rapidez. Mas, mais do que aviões e bombas, exige vontade política e clareza estratégica que, neste momento está longe de garantida. Talvez se torne provável se o Irão não se sentar à mesa das negociações para aceitar os termos americanos (e que terão de incluir, o desmantelamento de Fordow).

Se houver boa informação no terreno, moldagem do campo de batalha, surpresa e margem para infiltração, uma operação de comandos pode ser o “cisne negro” do cenário: improvável, mas possível, e com bons precedentes históricos.

Israel já o fez antes e se a História é guia, pode voltar a fazê-lo. Com elevadíssimo risco (captura ou morte dos soldados) em caso de falhanço, mas com incalculável impacto interno no Irão, em caso de sucesso.

Seja como for, uma destas modalidades irá acontecer. Quem acredita que Israel vai desistir da presa, agora que a tem agarrada pelo pescoço, está a ler mal o guião. Jerusalém só espera até saber que não há alternativa. Depois, age. Com GBU‑28, com comandos, com ciberataques, ou com tudo o que tiver à mão.

Fordow será desmantelada, não porque seja fácil, mas porque é necessário.

E a História é feita pelos que fazem o necessário.