Tudo começou em setembro, mas recentemente o governo português anunciou  o lançamento do site oficial da candidatura de Portugal a membro não  permanente do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). Após as tentativas feitas em 2023 e em 2024, agora em finais de 2025 Portugal volta a procurar assumir um compromisso diplomático para o biénio  2027-2028, compromisso esse que já desempenhou em três períodos: 1979- 1980, 1997-1998, e 2011-2012.

Enquanto português, é motivo de orgulho assistir a esta candidatura, uma vez  que representa a presença do nome de Portugal – juntamente com a sua bandeira e com a língua portuguesa – no principal órgão da ONU. No entanto,  enquanto Mestre em Diplomacia e Relações Internacionais, esta candidatura deve ser analisada com maior distanciamento crítico. Esta é uma candidatura que vem reforçar o papel de Portugal na política internacional que  paradoxalmente tem sido pouco visível, como é o caso na União Europeia. Com  António Guterres a terminar o seu último mandato como Secretário-Geral das  Nações Unidas no final do ano de 2026, o político português pode ser um trunfo  para que a candidatura portuguesa tenha sucesso. Além disso, a ligação de  Portugal com a Europa e com os países membros da Comunidade dos Países  de Língua Portuguesa (CPLP) pode ser útil na promoção do multilateralismo e  no uso da diplomacia preventiva.

Todavia, este é o terceiro ano consecutivo que Portugal lança uma candidatura  ao Conselho de Segurança e não há dúvidas que se trata de uma candidatura

relevante e politicamente importante para o nosso país. Ainda assim, é difícil  reconhecer que Portugal mereça, neste momento, estar na chamada “sala com  os adultos”.

Nos últimos anos, Portugal perdeu relevância no plano internacional. A presença  do nosso país nos grandes debates globais tem sido discreta, e por vezes  inexistente, limitando-se a acompanhar posições já consolidadas por parceiros  europeus e por outros aliados, como foi o caso sobre o reconhecimento do  Estado da Palestina. Ao contrário do que a Espanha tem feito, a diplomacia  portuguesa não tem assumido iniciativas próprias, não tem desempenhado um papel mediador significativo e não tem liderado processos diplomáticos que lhe  permitam afirmar-se como um ator relevante na política internacional.

No contexto europeu, embora o país tenha assumido a Presidência do Conselho  da União Europeia entre janeiro e junho de 2021, Portugal raramente se destaca  como um ator influente em matérias cruciais como a segurança internacional e  a política externa da comunidade europeia. Por exemplo, no que à guerra na  Ucrânia diz respeito, Portugal fez bem em condenar a invasão russa e apoiar as  posições comuns da UE e da NATO. No entanto, o seu contributo diplomático foi  simplesmente alinhado e reativo, sem propostas ou tentativas de mediação. A  importância geográfica de Portugal e a sua imagem histórica exigem muito mais que isso.

Esta postura de baixo perfil acaba por se refletir também fora do espaço europeu, como é o caso da CPLP que está a ser subaproveitada enquanto organização com potencial relevância na ordem internacional. A crise humanitária em  Moçambique e a crise política na Guiné-Bissau – país que assumiu a presidência  rotativa da CPLP e que apenas recentemente suspendeu as suas atividades na  organização – são exemplos claros em que Portugal poderia assumir um papel  de motor diplomático fim de assegurar princípios como a paz, o Estado de direito  e o respeito pelos direitos humanos.

No comunicado sobre site oficial da candidatura, o Governo português afirma  que “Portugal está pronto para assumir responsabilidades no órgão com mandato primordial na manutenção da paz e segurança internacionais”. Torna-se difícil de concordar com essa afirmação uma vez que não corresponde à  atuação diplomática do país nos últimos anos.

A relevância internacional não se constrói apenas com uma presença simbólica,  mas sim por meio de iniciativa, autonomia e ação diplomática consistente – qualidades que hoje fazem falta a Portugal. Independentemente das limitações  atuais do Conselho de Segurança, o país já demonstrou no passado capacidade desempenhar um papel positivo neste órgão. Mas, nas circunstâncias atuais não  reúne condições diplomáticas para o fazer.

Antes de ambicionar outra vez um lugar no principal órgão de segurança  internacional, Portugal deveria começar a reforçar a sua atuação em espaços  onde possui maior responsabilidade e influência como são os casos da União  Europeia e da CPLP. Aí, é também possível contribuir para a paz e a segurança  internacionais.